A regra da exceção

 

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Dizem que toda regra tem sua exceção, o que transforma o postulado em um paradoxo sem fim. Pela predileção aos oxímoros, nossos podres poderes tomam como verdade absoluta qualquer versão e fazem diversões diversas bastante perversas para que brotem dos falsos os fatos. Em especial, aqueles que formem autos que condenam, aqueles que geram ordens que calam. A democracia brasileira usa todas as suas ferramentas para atar cidadãos às amarras da iniquidade.

Acusações e mandados saltitam nos fóruns como pipocas na quentura da panela. Esquentam o clima, derretem direitos, ateiam fogo às vestes da liberdade. Senhor K parece hoje ter companhia. Kafka por certo teria um desagradável misto de orgulho e terror ao ver suas linhas encenadas no teatro real da (in)Justiça brasileira. Moça cega, forte, mas de duvidosas tendências persecutórias.

E assim, o país ganha inimigos públicos. Alçam ao posto de ameaças à ordem nacional alguns poucos jovens, cujos crimes resumem-se a seus gritos por liberdade. Cometeram o imperdoável delito de posicionarem-se ao lado dos trabalhadores, dos necessitados, dos invisíveis. Tornam-se passíveis de punição por exigirem o que a mentira eleitoral propagandeia como verdade.

Enquanto os que defendem os direitos da população são perseguidos e encarcerados por um governo que se diz socialmente comprometido, passeiam por outras avenidas os discursos de ódio, de divisão, de retrocesso. Aos que gritam pelo golpe, em favor da tortura e da repressão, as páginas dos jornais e o apoio dos setores fascistas da sociedade. Aos que lutam por uma sociedade mais justa, o cárcere.

A presidenta concentra-se tão somente em um conluio sombrio de alianças para salvar a imagem de uma ética inexistente. Seus inimigos conservadores e fascistas ganham tratamento mais leve por talvez fazerem parte de um folclore que o PT julgue menos perigoso que a crítica real, nascida do seio explorado da sociedade, que tomou as ruas, ganhou corações e mentes para apontar que o caminho do lado esquerdo havia sido esquecido.

Mas (e por isso mesmo) são esses os perniciosos. Aqueles que podem perceber além da “matrix” que se tenta encenar no país. Regras e mais regras, leis sobre leis, tudo para garantir fidedignamente o não cumprimento de nada daquilo que não seja a vontade plena do capital. Proíbem-se máscaras nas ruas, enquanto o Congresso recusa-se a retirar quaisquer das muitas que usa.

E é assim, nas regras tortas de uma democracia torcida que se extraem as exceções. Um estado inteiro de exceção. Que transforma gritos e protestos em delitos. Jovens idealistas em criminosos. Condena-se assim o próprio passado de quem nos governa, rejeitado como se não fosse admirável. Saudades de quando se acreditava que lutar era possível. E de quando não se escondia que lutar nunca foi crime. Não pode ser que seja o que não era agora… “não é o que não pode ser”.

Como operários da fábrica de legalidades, as togas pintam de “data-vênia” a série de injustiças que se cometem. Vândalos da moralidade. Bárbaros da decência. Selvagens da honestidade. Este vilipêndio da dignidade nacional não pode passar como algo corriqueiro, banal. É gravíssimo: há presos políticos em um “Estado Democrático”. Uma exceção à regra democrática, mas que soa como regra dentro da democracia de exceção em que vivemos.

Liberdade já. Necessária para o contraditório, para a democracia, para a vida. Liberdade hoje. Que se dobrem os sinos e que as fadas nos abençoem a todos com suas rebeldias. Ainda há tempo de se fazer as pazes com o bom senso. Liberdade, ainda que tardia. Pois foram os rebeldes aqueles que entraram para a história como salvadores e mártires de todos os povos. Atrevimento e ousadia para um mundo melhor.

Que sejamos livres. Sem exceção. Nas ruas, nos parques, na vida. Liberdade não é conceito que se submete ao metal. Mas que ele não falte. Como não nos falte a água e o alimento. E a liberdade, que mata a fome de nossa alma. Que possamos ouvir todas as vozes. Que as grades da cadeia não sirvam a calar as vozes dissonantes. Que esta noite iniquisitória seja breve. E que raie um dia claro, de um sorridente sol. A liberdade, por fim, é azul. E, por isso, a regra é ser livre. E feliz. Sem exceções.

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Categorias: Reflexões, Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “A regra da exceção

  1. Equívoco Humano

    “A presidenta concentra-se tão somente em um conluio sombrio de alianças para salvar a imagem de uma ética inexistente. Seus inimigos conservadores e fascistas ganham tratamento mais leve por talvez fazerem parte de um folclore que o PT julgue menos perigoso que a crítica real”. Pobres Petistas, forçados a serem corruptos, pelas nefandas ordas seguidoras do Totalitarismo. Não tem como ser mais ridículo!!!! Maniqueísmo puro, enquanto eu leio esta escatologia, o Lulilnha está cada vez mais rico, um réu do mensalão filiado ao PT(não o Marcos Valério) está sendo solto. Quando verei uma CRÍTICA REAL ao governo?? Algo me diz que será quando o partido no poder for outro…

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