“Mas o que eu quero é te dizer que a coisa aqui tá preta”

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Ano passado, minha crônica de fim de ano no blog caiu em primeiro de janeiro. Escrevi um texto chamado “Acabou o champanhe”, fazendo um balanço pessoal e um das manifestações de 2013. Agora, minha última crônica do ano será esta, pois que entro em período de férias e só devo voltar a escrever em janeiro. Repetirei a proposta do ano passado e farei agora um balanço.

Terminamos o ano com a revogação dos habeas corpus da Sininho, da Moa e do Igor. As duas primeiras estão foragidas, o último, preso em Bangu 9. É meio inevitável lembrar que o também AI-5 foi decretado em um dezembro (tenho plena consciência do exagero da comparação). Mais uma repetição da história como farsa? Tudo que essas pessoas fizeram foi peitar a máfia do PMDB do estado do Rio de Janeiro, máfia essa que enriquece a partir da degradação de vida da população, se recusando, por exemplo, a abrir a caixa preta dos transportes na cidade. Preferem entregar o controle da mobilidade urbana para bandidos e deixar a população desassistida, sofrendo com atrasos, longas horas de viagem, precariedade, ineficiência e custos de passagens altos. Todos os processos contra manifestantes seguem marcados por gritantes irregularidades. Não foi à toa que eles caíram no colo do Flávio Itabaiana, um juiz pertencente a clã de notórios apoiadores de ditaduras dentro do poder judiciário.

Terminamos o ano com novas declarações estúpidas do ilustre deputado Jair Bolsonaro, dessa vez “decretando” que não estupraria uma colega de parlamento, porque “ela não merece”. Infelizmente, as repercussões negativas  da declaração nos meios progressistas da sociedade não chegam a esconder a dura realidade por trás deste episodio: o Brasil é um dos países mais machistas do mundo, e tais declarações são recebidas com aclamação por muitos ainda. Desde que comecei a escrever neste blog, já sofri todo tipo de ameaça, represálias e que tais, mas acho perturbador o fato de que o texto que mais me trouxe aborrecimentos pessoais foi o de adesão à campanha do  “Eu não mereço ser estuporada”. Quando o publiquei, além das ameaças de morte de praxe, tentaram invadir meu e-mail, meu facebook e etc. Isso diz muito sobre o país em que vivemos e sobre como deve ser ser mulher sob o patriarcalismo. Só posso me solidarizar a elas, pois jamais saberei inteiramente o que representa esse drama, e dizer que homens que não partilham dos códigos de conduta e da moralidade comuns também  sofrem por isso.

Neste fim de ano, o PT conseguiu decepcionar até quem não esperava nada dele mesmo. Não digo isso pela nomeação daquela ruralista para o ministério da agricultura:  o modelo de crescimento baseado no endividamento e no agronegócio  (equilíbrio da balança comercial via exportação de produtos primários  como soja, p. ex.) não é novidade, e não seria modificado por nenhum dos três principais candidatos das últimas eleições (Dilma mais Aécio e Marina Silva). O destino da Amazônia, na mão dessas pessoas, e se tornar um parque temático com reserva ambiental, lá pelo ano de 2050. Também  consterna, sem no entanto surpreender, a nomeação do Garotinho para a vice-presidência do Banco do Brasil. Isso está em conformidade com a política de amplas e nefastas alianças que o partido vem pondo em prática desde antes de chegar ao poder. O que surpreendeu, e muito consternou, foi a  nomeação de um banqueiro para o ministério da fazenda, o que contraria promessas de campanha e muda os rumos do governo para direções ainda mais conservadoras, ou seja, podemos esperar cortes de gastos em qualquer setor, para qualquer momento. Essas medidas são contradistributivas e podem até mesmo reverter os ganhos sociais inegáveis no campo da distribuição de renda obtidos pelo PT.

A nova onda de privatizações vai a pleno vapor. Não se fazem mais privatizações como antigamente, com grandes leilões e venda de patrimônio público para grupos de acionistas japoneses. Privatiza-se safadamente a gestão. A Comlurb no Rio, por exemplo, está sendo de fatia em fatia passada para iniciativa privada (mais especificamente, para o Eike Batista e para a Odebrecht).  A limpeza urbana é a terceira maior despesa da prefeitura. É muito dinheiro, e ele está sendo passado para a iniciativa privada com sutileza e com prejuízo para a população. O empresário quer lucros, e esse lucro será obtido ou reduzindo a qualidade dos serviços ou aumentando-se o preço que se paga por eles. Ou seja, alguém, de alguma forma, vai pagar por isso.

A boa notícia é que hoje, puxados pelos que estão na linha de frente da luta por uma cidade dos seres humanos contra a cidade do capital, vários setores vão se reunir na Candelária (professores, por exemplo) para se juntar à pauta deles, que é justamente contra a privatização da Comlurb e contra as demissões dos grevistas. Este ato também está sendo convocado em amplo apoio aos presos políticos e contra o estado de exceção em que cada vez mais vivemos.

E o ano, na verdade, ainda não acabou. Há diversas mobilizações marcadas para dezembro. Já há diversos indícios de que novas greves estarão literalmente iniciando o ano que vem. E, quanto aos presos, como muito se tem dito hoje, “ninguém fica para trás”.

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre ““Mas o que eu quero é te dizer que a coisa aqui tá preta”

  1. Equívoco Humano

    Nada sobre a PETROBRÁS?

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