Je suis perdu*

* eu estou perdido

(François Maumont)

(François Maumont)

O ataque ao hebdomadário francês rende milhões para a cobertura da mídia. Analistas revezam-se em “versões definitivas” que explicam conflitantemente o conflito. Teorias e conjecturas tomam ares de verdade absoluta e todos são condenados por serem Charlie ou por não serem Charlie ou por nada serem. Preconceituosos servem-se do momento para expor seu ódio. Aproveitadores estabelecem comparações esdrúxulas entre a publicação francesa e outros veículos e artistas. Decerto, de certo mesmo, só as incertezas.

Assim, em lugar de uma visão sobre os fatos, há a complicação de tratar-se de inúmeros temas envolvidos, com mais dúvidas do que convicções. Tudo se mostra bastante complexo, repleto de senões e ponderações. As discussões, entretanto, não se resumem à liberdade de expressão e ao fundamentalismo religioso, como sugere a rasa navegação do jornalismo oficial, uma espécie de fast food da informação.

A religião e a islamofobia

A primeira coisa que se pode afirmar é a existência de um componente religioso no ataque à revista. Não me refiro diretamente à autoria, mas a evidente presença da religião no caso. Seja por conta de ser sua motivação, justificativa ou como patrocinadora.

As religiões fazem parte da estrutura social humana desde seu princípio. De uma forma ou de outra, é um conjunto de dogmas que rege e regulamenta a vida e a interação humana de grupos e comunidades sob sua jurisdição – voluntária ou não. Dessa forma, a religião sempre foi uma instituição que se confundiu com o Estado (tomado aqui em sentido lato englobando qualquer sistema de governo ou condução social).

E, como operadoras de poder com objetivos diversos (mesmo com a separação, em boa parte do globo, de igreja e estado), os conflitos passam a ser inevitáveis. Assim, não é difícil perceber – a história é farta de exemplos – que a esmagadora maioria dos conflitos e guerras (em especial aqueles internacionais) apresenta um componente religioso. Cruzadas, jihads, holocaustos para ficar nos mais conhecidos. Por trás do discurso de amor e fraternidade escondem-se brechas para a utilização da violência e para a demonização do outro em busca de objetivos de poder. Terrenos, é bom frisar.

O fato é que, quaisquer dos livros sagrados das três principais religiões monoteístas do mundo não falam exclusivamente sobre amor, solidariedade e compaixão. Mas sobre poder, dominação, vinganças e a imposição de uma visão de mundo para toda uma sociedade, independentemente de quem adira ou não a seus dogmas. Comparando irresponsavelmente, é como se eu estivesse em uma dieta sagrada e isso me desse o direito de proibir que você coma uma suculenta lasanha. Aliás, se a lasanha para mim for sagrada, somente o ato de você representá-la já é uma provocação.

Parece absurda a ideia de uma lasanha sagrada. Assim como entender como sagrados personagens de livros será para outros.  Sim, para muitos, essas obras são tão ficcionais como outras, o que faz com que Jesus, Alá, Jeová, Capitu ou Homem-aranha estejam no mesmo patamar de consideração. Os religiosos, em geral, aceitam os personagens de seus livros como sagrados e ignoram, rebaixam ou até mesmo ridicularizam personagens sagrados de outras mitologias. No fundo, são personagens de antigas histórias que só ganham poder por conta da organização de pessoas em torno de seus enredos. Sua existência ou veracidade é mera questão de fé. Nesta “brincadeira”, todos que não creem no poder da lasanha ganham alguma condenação, aqui ou em outro plano existencial.

Os ataques ao Charlie geram uma inevitável onda de islamofobia. A culpabilização do fundamentalismo islâmico foi o mais fácil caminho encontrado pelas autoridades. Verdade ou não, não seria inédito, o que fornece credibilidade à versão. Por outro lado, a ultradireita francesa busca capitalizar com tanta veemência o fato para seus objetivos islamofóbicos, que não seria difícil crer em seu envolvimento no ato de terror. Ainda há o Kidon (departamento do serviço secreto israelense – Mossad –  responsável por apagar os inimigos de Israel que não possam ir aos tribunais) como suspeito. Mas, tudo sempre com a aparência de um atentado islâmico. Como consequência imediata, os ataques a cidadãos muçulmanos e o aumento das animosidades contra comunidades inteiras. Temos aí a questão complicada das minorias.

Minorias religiosas

Obviamente, a religião é parte da “cultura” de uma civilização, porém devemos lembrar que é também uma forma de controle de poder dentro daquela sociedade, impondo padrões de comportamento e restrições a outras minorias, via de regra, desfavorecidas social e economicamente, além de estabelecer um rigoroso preconceito humano contra a inúmeros membros da sociedade, particularmente contra as mulheres, com raras exceções.

A reação de responsabilizar a religião pela violência não pode ser confundida com uma imposição de criminalização de seus professantes. Isto, sem dúvidas, é culpar a vítima de uma opressão pela opressão em si.

Quando se fala, por exemplo, que evangélicos no Brasil são contra certas políticas libertárias de cidadania, está se falando, em verdade de um “poder” evangélico – isento de impostos, proprietário de concessões de rádio e tevê, organizado em bancada no Congresso Nacional – que aliena milhões de brasileiros em condições materiais e educacionais sub-humanas, explorando sua fé e transformando-os ideologicamente em repetidores do discurso de ódio do poder religioso.

Liberdade de expressão

Irresponsavelmente, a liberdade de expressão nas análises do caso torna-se um valor tão absoluto quanto falso. As questões de liberdade são, sempre, as mais complexas, porque envolvem a noção de limite ou de ausência dele e, em todos os casos, muda-se o próprio conceito de liberdade. No geral, as sociedades pregam alguma forma de cerceamento à liberdade, ainda que haja quem se sobressalte para dizer, eu não! Eu não!

Se a liberdade é irrestrita como expressão, dá-se o aval para a exposição, divulgação e veiculação de discursos nazistas, eugênicos, homofóbicos, racistas e misóginos em geral. Entretanto, isto horroriza toda a sociedade e, no geral, é um discurso formalmente criminalizado. O Poder Judiciário estabelece maiores controles e censuras, fazendo com que tudo pareça natural e livre no cerceamento desta liberdade. Simples biografias de famosos permitiram a contestação sobre tais textos e a proibição de sua publicação. Portanto, a liberdade existe sempre dentro de certos limites. Mas, o “limite”, em todos os casos, não é inato e absoluto, senão mera convenção social.

A Charlie Hebdo passou dos limites? As charges eram uma crítica ou uma provocação? Até que ponto a proibição de se fazer algo dentro dos dogmas de uma religião deve valer para quem não a professa? Ainda que se considere a linha editorial da revista de mau gosto, ofensiva ou inapropriada, não há comparação possível no humor brasileiro.

Comediantes brasileiros adeptos do estilo “politicamente incorreto” voltam suas pistolas humorísticas contra grupos historicamente discriminados, como negros, homossexuais e mulheres. Diferentemente do periódico francês, que enfrentava – em grande parte das publicações – grupos de poder, em especial as religiões e o governo. Ainda que o semanário volta e meia publicasse piadas racistas e machistas, a comparação ainda não seria cabível.

Se na França a comunidade islâmica é minoria, tenha-se em mente que 1/3 do planeta professa sua fé em Alá, inúmeras teocracias estabelecem o Corão como lei e não são raros os casos de penas como apedrejamento de mulheres, mutilações e outras medidas discriminatórias. Isto também não significa que o islamismo é “inferior” às outras religiões. Ou mesmo que seja exclusiva em bizarrices teocráticas. O governo de Israel subjuga palestinos e a influência cristã busca cercear liberdades da mesma forma (quando o cristianismo foi poder presenteou a história com a Inquisição).

Violência

Um outro mantra que surge é a repetição exaustiva do bordão “nada justifica a violência”, como se pombas brancas voassem das janelas das casas dos cidadãos todos os dias. É hipocrisia da pior espécie que uma sociedade repleta de conceitos como “bandido bom é bandido morto” condene, por princípio, a violência. A mesma sociedade que fecha os olhos para a ação das polícias na periferia condena o uso da violência contra europeus.

De fato, não condenamos a violência. Condenamos as violências com cujos objetivos ou justificativas não concordamos. Há os que vibraram com o bandido amarrado ao poste. E houve postes em telejornais que defenderam abertamente a ação. Há quem defenda as ações do período militar contra os “terroristas”. Há, na própria ideologia de esquerda a questão da violência colocada. Ou será que se vai condenar a vitoriosa guerrilha de Che e Fidel que depôs Fulgêncio Batista? Será que dava para negociar com Hitler ou o uso da violência contra os alemães foi necessário?

Os finalmentes

Enfim, não se toma como absoluta a luta (que rima filha!) pela liberdade de expressão nem contra toda forma de violência. A discussão é sobre quem pode o quê, quem faz o quê, de que forma e com quais objetivos. É isso que diferencia a cobertura da imprensa e os nomes usados nas manchetes. Os países imperialistas condenam a mesma violência que patrocinam. O próprio fundamentalismo esteve por muitas vezes a serviço dos interesses das grandes potências. Talebã, Osama Bin Laden, Saddam Houssein e muitos outros foram, em algum momento, financiados e treinados pelos Estados Unidos e seus aliados da OTAN.

Guerras como a da Iugoslávia e a mais recente na Ucrânia são provocadas pelas mesmas forças que vez ou outra voltam-se para atentados terroristas nos países centrais. A escalada da violência é inevitável e inerente ao sistema. De tempos em tempos é necessária uma “boa” guerra para livrar o capital da crise, abrir oportunidades e fazer o sistema renascer.

No final, os governos, aliados aos antigos princípios teocráticos, funcionam como títeres que buscam conservar privilégios e explorações. Deus é o mercado. E não aparenta ofender-se com charges ou respostas violentas. Parece, ao contrário, estimular todo tipo de provocação para alimentar-se de suas consequências.

Que se derramem as lágrimas em protesto, pois haverá por perto vendedores de lenços e cartazes.

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Categorias: Reflexões, Sociedade | Deixe um comentário

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