Coisa de pobre

Sou pobre, moro no beco, pego busão cheio, suo, faço churrasco ouvindo samba, minha mãe é hipertensa e diabética, meu pai é pedreiro e rala pesado pra ela fazer seus exames no laboratório pago porque no posto demora meses. E exijo que sejamos tratados da melhor maneira possível, seja de camiseta colada ou laçarote na cabeça, e sabe o porquê? Porque meu pai assenta seu porcelanato, minha tia limpa sua casa pra ficar brilhando e cheirando bem, minha prima cozinha sua comida, lava suas roupas, e eu, madame, estudo na universidade pública com seu filho, e não tive que pedir licença pro senhorzinho pra entrar, você vai abrir a revista e ver meu nome lá, não no noticiário policial, mas na página de ciência e tecnologia, arte, do lado dos meus irmãos que estão invadindo, como baratas, que a senhora tem tanto nojo, a sua praia. A gente limpa, veste e alimenta a cara do brazil fachada, cenário de novela, do qual a madame se sente dona, proprietária legítima. Somos os pilares que sustentam isso tudo, somos o mal necessário que agora não tá entrando só pela porta de trás, conviva com isso e durma de olho aberto, porque a revolução é sorrateira e não vai passar na rede bobo.

 

Michele Flores

Michele Flores

 

 

Não sei que dizer de mim, mas os meus por si só me dizem. É o capiau, bicho que gosta tanto do mato que se confunde com ele, nele sou o sabor primitivo da linguagem sertaneja, o MC da zona oeste, com quem sou ritmo e poesia, as crianças daqui da rua jogando bola até amanhã. Se carece de nome, sou Flores, substantivo próprio e comum do que quiser florescer.

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Categorias: Reflexões | 8 Comentários

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8 opiniões sobre “Coisa de pobre

  1. luizmullerpt

    Republicou isso em Luizmuller's Blog.

  2. luizmullerpt

    Muito bom texto!!!

  3. Pingback: Coisa de pobre | EVS NOTÍCIAS.

  4. PAULO SÉRGIO DE OLIVEIRA

    flores…florescerá!

  5. Republicou isso em bule13verdee comentado:
    PAPO RETO: COISA DE POBRE

    ” A gente limpa, veste e alimenta a cara do brazil fachada, cenário de novela, do qual a madame se sente dona, proprietária legítima. Somos os pilares que sustentam isso tudo, somos o mal necessário que agora não tá entrando só pela porta de trás, conviva com isso e durma de olho aberto, porque a revolução é sorrateira e não vai passar na rede bobo.”

    ” não tive que pedir licença pro senhorzinho pra entrar, você vai abrir a revista e ver meu nome lá, não no noticiário policial, mas na página de ciência e tecnologia, arte, do lado dos meus irmãos que estão invadindo, como baratas, que a senhora tem tanto nojo, a sua praia.”

  6. Pingback: Coisa de pobre | bule13verde

  7. Carol

    MARAVILHOSO!

  8. Pingback: Gente PHYNA e a velha Crise de Vira Lata. | Oficina da Liz

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