Nós, as vacas

Mente de ficcionista é uma coisa engraçada. Não chego a me considerar uma escritora mas já ouvi de escritores acontecer o mesmo que me acontece às vezes. Metáforas, imagens, fabulações saltam do cérebro como pipocas e nos dominam.

Esta aconteceu quando eu vivia em Portugal. Nem bem tinha começado a entender e conseguir acompanhar o movimento das forças políticas e dos partidos portugueses. O Movimento Occupy nos Estados Unidos confrontava Wall Street e as forças progressistas e jovens de Madri, que não ficava tão longe da minha casa, ocupavam a Praça do Sol. Falava-se pelas mídias que seriam desdobramentos das sublevações “das massas no Egito” mas nos grupos de discussão de cidadãos comuns sobre a política local havia controvérsia. Tinha os que enxergavam ali um movimento conspiratório insuflado pelos donos do mundo de sempre e os que defendiam tratar-se de movimentos independentes, coincidentes no seu motivo de fundo, reivindicar mais justiça social e menos ditadura do mercado financeiro . Em outras palavras, os trabalhadores começavam a perceber que suas dificuldades crescentes vinham das ações de governos supostamente democráticos que cada vez mais se submetiam e se comportavam como prepostos dos interesses do cassino financeiro internacional e das grandes corporações de negócios – “ legais” e ilegais. Corria o ano de 2011, passados apenas três da chamada crise dos “debêntures” norte americana. Lembro bem de um quadro hilariante que vi na BBC de uma dupla de comediantes ingleses onde dois cidadãos britânicos fleugmáticos explicavam o grande golpe dos Bancos e Agências Financeiras perpetrados nos EUA. Que acabou, como se sabe, com Obama repassando a eles verba suficiente para que não quebrassem. E que coincidência mórbida. Era o mesmo montante estimado ser capaz de acabar com a fome no mundo. Tudo somado, mesmo que eu tivesse quaisquer dúvidas sobre a verdadeira natureza da chamada “crise” de 2008, depois de ler a respeito dos detalhes do golpe, nunca mais poderia deixar de rir ao ouvir a palavra “ crise” associada ao caso. Vai daí que, para minha surpresa, vejo o Primeiro Ministro de Portugal,José Sócrates, ser derrubado com o auxílio empolgado do bloco de esquerda. Bloco porque reúne os partidos francamente marxistas e comunistas que, naquele momento , se uniram à Direita mais empedernida e patrimonialista para derrubar o representante do Partido Socialista. Sim, senhor, pensei com meus botões. Não estou entendendo nada, hora de voltar à prancheta, como se diz.

Mas vai daí que, derrubado e não reeleito, entra para substituir o representante do PS um representante do PSD ( isso mesmo, pra PSDB, só falta o B) , o sr. Passos Coelho. E nem bem senta na cadeira, faz o quê ? Primeiro reedita o pacote de medidas de “ austeridade” – na prática uma série de restrições e cortes aos direitos dos trabalhadores – praticamente o mesmo pacote que causara o início do conflito que levara à queda de José Sócrates. Minto. O pacote era pior. Como pior também a performance do novo representante político no que diz respeito ao respeito à população. De repente, me via numa espécie de remake dos anos 90 no Brasil, dublado em português castiço, o que já costuma evocar nos brasileiros, sejamos francos, alguma disposição para o riso. Mas a troca de locação e sotaque não gerava dúvida de que o roteiro seria o mesmo. Se não me engano, o sr. Passos Coelho até escolheu uma bela praia do Algarve ( uma espécie de Trancoso luso) para declarar que os aposentados eram vagabundos. No outro dia falava da necessidade “ flexibilizar” os direitos trabalhistas. Enquanto isso, boa parte da mídia local punha-se a replicar as palavras de ordem do novo governo : “austeridade” e a necessidade dos portugueses pagarem o preço por terem vivido “acima das suas possibilidades”. De repente, expressões como estas bombavam mais que os bordões que os novelistas brasileiros costumavam inventar para promover personagens. E em breve a Troika ( tríade de auditores da Comissão Europeia, do FMI e Banco Central Europeu) desfilava pelos noticiários com seus homens de terno desembarcando de carros de luxo e sob aplauso da raia miúda do povaréu acreditando estarem diante de excelsos moralizadores das contas públicas. Homens acima de quaisquer suspeitas. Verdadeiros salvadores da pátria. E eu, vivendo no mundo real, acompanhando o movimento do comércio e dos pequenos negócios sendo abatidos sem dó pelas grandes cadeias internacionais e nacionais de supermercados, as declarações do novo ministro da Educação, a extinção (!) do Ministério da Cultura, transformada em Secretaria e sua verba cortada na raiz, em 40%, achei que era mais do que coincidência. Aliás, alguém se lembra qual foi o primeiro ato de reforma administrativa do governo federal de Fernando Collor ? Pois é, quando se tem séries e filmes e músicas americanas à vontade quem precisa de produção cultural local, não é mesmo ? Talvez só os trabalhadores da Cultura mas, ora, estes podem muito bem ir cultivar batatas.

Daí que percebendo a sacanagem que a UE resolveu fazer com a Grécia ( e, sobre isso quem acompanhou a crise grega pelas empresas de notícias do Brasil não pode estar mais mal informado), as movimentações de tropas norte americanas aliadas à OTAN no continente europeu, somadas a mais uma ou outra observação aqui e ali, achei que o portugueses tinham enlouquecido. Nesta altura eram muitos os que acreditavam piamente nas promessas da Troika : ia ser um sacrifício mas o prêmio não tardaria. A partir de 2013 o país voltaria aos trilhos. Livre da corrupção, com as contas públicas em ordem, tudo muito limpinho e arranjado. Quanto a mim, o que me parecia mais certo de acontecer era o aumento do desemprego e consequentemente da violência, além da queda vertiginosa dos salários, do preço da terra, a inviabilidade crescente de pequenos negócios e da mobilidade social, tornando Portugal um lugar ótimo para os milionários do mundo todo adquirirem propriedades e pista livre para ricos portugueses deitarem e rolarem. Ansiosa como sou, fiz a malas um pouco antes de sair o resultado do primeiro ano de “ austeridade”. O crescimento da economia portuguesa tinha dado negativo mas o aumento de patrimônio dos mais ricos – oh, surprise, surprise – tinha sido de 18%!

Mas vim embora também, no fundo, porque minha mente de ficcionista não conseguia se livrar de uma imagem que inventou. O capitalismo, no estágio atual, é um sistema de exploração feroz e rotativo ela me disse, e uma imagem-pipoca encravou no meu cérebro, vejam que loucura. Comecei a enxergar os países como grandes fazendas onde se engorda o gado, se extrai ao máximo o leite e quando estão pele e osso ou quase, se passa ao próximo pasto – isto é, outro país ou região. Nós, as vacas, entramos com o trabalho, os territórios contribuem com os insumos – terra, água e ar. Uma minoria – gordos fazendeiros – acumulam riquezas e poderes. Pronto, eis o estado do mundo, disse a minha mente. Então pensei: quando se caminha em meio a ataques especulativos do capital, o fascismo não deve andar longe. E fascismo não é bom para estrangeiros mesmo que eles sejam descendentes de locais, como se pode observar nos Estados Unidos, por exemplo, onde cidadãos de origem latina que prestam serviços sujos e pesados há muitos anos, têm sido deportados mesmo sendo pais de crianças nascidas e crescidas em solo americano. Fascismo é uma onda que, depois de instalada, arrasta os mais fracos para o alto mar das tempestades sem misericórdia. Como se pode notar, até literalmente, vendo os flagelados e fugitivos das guerras em África em barcos, com dificuldade de encontrar porto que os receba no continente europeu, apesar de todo o blablabla sobre liberdade e compromissos humanistas. Ou como prova a Alemanha, que nega cidadania a jovens filhos de turcos, mesmo os nascidos e criados em Berlim que aos 20 ou 30 anos de idade ainda amargam a condição de cidadãos sem pátria ou passaporte.

Tempos de fascismo não são bons para pessoas comuns, destas que só têm de seu sua força de trabalho. Fossem bites de computador, números que dizem significar dinheiro ou fossem papéis financeiros especulativos, teriam melhor sorte. Não seriam apontados como problema ou ameaça, nem seriam detidos por barreiras ou aduanas nacionais. Poderiam andar pelo mundo, à vontade, chegando e partindo do dia para a noite. Ganhando sem trabalhar, sempre. E ao invés de serem chamados de “vagabundos” ou  “exploradores dos cidadãos de bem que pagam pesados impostos” seriam desejados e tudo se faria para atraí-los. Mas eles são pessoas. Feitas de carne, ossos, músculos e sangue, como nós. As vacas.

P.S. Por falar em quem tem de seu só a força de trabalho, desculpe incomodar, queridos três leitores, com assunto um tanto diverso. É que preciso, como trabalhadora, divulgar um trabalho nosso que estreia temporada hoje em São Paulo. É a peça de teatro “ Sem drama ! ( histórias de sobrevida)”. Quem dirige é o Roberto Lage, o texto é meu, bem como a atuação. Com subsídios  obtidos por seleção em edital aberto e público do Prêmio Zé Renato da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo conseguiremos manter, nesta temporada, ingressos a preços mais que populares : dez reais com direito a meia entrada. Será um prazer encontrá-los por lá .

Sem drama ! ( histórias de sobrevida)

Estreia: dia 23 de janeiro de 2015 às 21.30 H.

Temporada : 23/01/2015 a 15/03/2015 – sextas, sábados e domingos.21.30 H, 21H e 18.00 H.

Local : Teatro Ágora. Rui Barbosa, 672 Bela Vista – São Paulo/SP (11) 3284.0290

Email : semdramahistorias@gmail.com

http://semdramahistorias.wix.com/sem-drama

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