Paris, Grécia, Nigéria: quanta besteira eu sou obrigado a ouvir

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A recente vitória do Syriza na Grécia tem sido recebida ao redor do mundo com excessivo entusiasmo, por um lado, e com desconfiança pseudocrítia, por outro. Em ambos os casos tenho visto análises confusas, superficiais e preguiçosas. É incrível o quão longe se pode chegar com um pouco de atenção e se limitando a ver as coisas apenas a partir das suas linhas de força.

A primeira pergunta a responder é “seria o Syriza um governo revolucionário?” A resposta, pelo menos por enquanto, é não. Trata-se de um partido que optou pela estratégia parlamentar para se opor à famosa troika (o FMI, o BC Europeu e Comissão Europeia – leia-se, a Angela Merkel) e ao seu plano de austeridade (que visa, essencialmente, a forçar a Grécia a pagar a sua imensa dívida com bancos, sacrificando os gastos do governo com programas sociais e o emprego).

A entrada do Syriza deve-se fundamentalmente ao fato dos partidos tradicionais da Grécia terem sido severamente castigados nas urnas, por oferecerem a sustentação parlamentar ao projeto capitalista oligofrênico de salvar os bancos das suas próprias cagadas castigando o povo (afinal, para haver um governo que se endividou irresponsavelmente, há um sistema financeiro que emprestou irresponsavelmente).  E é em decorrência dessa lógica que surge a crítica ao projeto de alianças do novo partido.

Há uma acusação infundada e aleatória de que o Syriza estaria se aliando com a ultradireita. Falso. A ultradireita grega é o Aurora Dourada, com o qual não se negocia. As negociações de coalizão são com o Independentes, um partido pequeno de direita, mas que partilha com o Syriza a rejeição ao programa de austeridade imposto, ao fim e ao cabo, por Berlim, e ao desastre social que invariavelmente decorre de tais programas, na forma de desemprego e generalização da miséria. O fato de a Marine Le Pen, atual estrela da ultradireita francesa, ter dado parabéns ao Syriza pela vitória, também é irrelevante: a ultradireita, desde no mínimo a década de 1930, se alimenta da insatisfação social decorrente de momentos de crise. É muita falta de aula de história ficar impressionado com isso. E, além disso, faz todo sentido para um governo que escolheu a estratégia parlamentar para se opor à austeridade criar um campo de alianças para viabilizar este objetivo – só factível com a obtenção de maioria no parlamento.

Do lado do excesso de entusiasmo, tenho visto o partido ser tachado de anticapitalista. Ele o é? A resposta, como na pergunta anterior, é “não” – pelo menos por enquanto. Até o momento, o Syriza tem se posicionado contra a financeirização do capitalismo nos moldes estabelecidos nos últimos 30 anos e tão elegantemente descrita por Thomas Piketty (o novo – e justificadamente – economista do momento). Opor-se a isso não implica em anticapitalismo, uma vez que é possível opor-se a essa financeirização e às medidas de austeridade em moldes, por exemplo, keynesianos, sem nenhuma ruptura com o modo de produção. Mais uma vez, tudo dependerá dos rumos que o novo governo grego irá tomar. Por enquanto, ele promete desfazer as maldades já postas em prática pelo governo anterior. Para tanto, suas propostas são: recuperação do salário mínimo, recontratação de funcionários públicos demitidos unicamente para promover cortes de gastos e retomada dos gastos com programas sociais. Fora isso, o Syriza pretende renegociar a dívida em uma moldura menos desfavorável para a Grécia. São todas medidas sem dúvida louváveis, que visam reverter pelo menos uma parte do sofrimento do povo grego. Não são, entretanto, medidas revolucionárias ou anticapitalistas, por si só. Interessante observar que a Dilma, por aqui, vai na contramão do Syriza, implementando no Brasil um pacote nas suas linhas mestras idêntico ao aplicado há alguns anos na Grécia. Só que aqui, sem pressão do FMI ou da Angela Merkel, mas por vontade aparentemente própria. Vejo mais nuvens de gás lacrimogêneo no horizonte.

Não sem surpresa, há grande preocupação dos defensores da austeridade no continente europeu de que a vitória do Syriza impulsione a chegada ao poder de outros partidos de esquerda (ou que, ao menos, dizem sê-lo), incentivando agendas antiausteridade aqui e acolá. Lembrando que, do outro lado, a crise atual também impulsionou partidos de ultradireita com seus programas habituais de xenofobia e de euroceticismo (o que significa desligamento de países da União Europeia), esses desmemoriados deveriam estar dando é graças aos céus que é a esquerda que está ameaçando debelar o anacrônico projeto liberal na Europa. Na década de 1930, na Alemanha, a resposta à crise de 29 também foi um pacote amargo de austeridade que só fez aprofundar a crise e agravar o sofrimento do povo alemão. O resto da história todo mundo sabe e deu no que deu. Aulas de história para a Angela Merkel seriam bem-vindas (se eu fosse entrevistá-la, eu perguntaria assim: minha senhora, você tem certeza de que justo na Alemanha a senhora vai reproduzir as condições que permitiram a ascensão do nazismo?).

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Da série “por favor, parem de postar besteiras insensatas na internet”. Não sou nenhum defensor fervoroso do Charlie Hebdo, embora o meu impulso inicial tenha sido de muita comoção, pois questões que envolvem religião me incomodam sobremaneira. Diferentemente da grande maioria dos internautas, que são verdadeiros especialistas naquela publicação, eu li apenas duas edições do hebdomadário, ambas na primeira metade da década de 1990. A primeira delas fora publicada em seguida a um atentado fascista ocorrido em Berlim. Um grupo neonazista havia ateado fogo em uma espécie de cortiço onde moravam imigrantes turcos, e uma família inteira havia morrido queimada no atentado. Essa edição do Charlie atacava furiosamente e denunciava da capa ao pós-escrito a ultradireita alemã pelo barbarismo. Da segunda edição que li, havia uma matéria memorável sobre o massacre de Eldorado dos Carajás, aqui no Brasil. Nunca esquecerei de uma comparação estabelecida por quem assinava a matéria: a de que apenas o estado do Pará, onde o massacre ocorrera, tinha duas vezes a área geográfica da França. A fúria do jornalista era no sentido de como ser possível em um país de dimensões proverbialmente continentais como o Brasil alguém querer plantar e não encontrar terra para fazê-lo. Nunca esquecerei. Quando vejo as críticas dos especialistas, parece que estamos falando de jornais diferentes. Tudo bem que isso faz duas décadas, e que linhas editorias mudam, editores são demitidos e etc., mas, ainda assim, não vi ninguém apontar nada de concreto que desmereça tanto assim o jornal. Vi uma capa com uma acusação de racismo por mostrar uma ministra negra como uma macaca. Porém, a capa estava totalmente retirada do seu contexto, no melhor estilo revista inVeja de fazer jornalismo, e não há grandes diferenças entre essa crítica deslocada (os franceses entenderam muito bem a charge) e a Veja mostrando a Sininho em uma capa montada por fotoshop. Do ponto de vista ético, a diferença é zero. Vi, também, uma historiadora de renome, em artigo publicado no Globbels, chamar o jornal de racista três vezes, sem dar uma fonte, apontar uma capa, uma referência, um link, uma data. Vindo de uma historiadora, achei bem grave. O ônus da prova recai sobre quem acusa. Por favor, antes de falar tanta besteira, me apresentem algo consistente. E não me venham falar de insulto aos nobres sentimentos religiosos. Se até em um país laico, como o Brasil, a religião consegue interferir nefastamente na vida das pessoas, imagine em países que nem laicos são,  como é o caso de muitos dos países islâmicos. É o que sempre digo: as únicas coisas capazes de salvar a humanidade dela mesma são a ciência e o socialismo. Religiões têm mais é que serem humilhadas de vezes em quando mesmo.

Os mais entusiasmados aproveitaram o massacre na Nigéria para somar mais críticas aos defensores do Charlie. A acusação agora seria de indiferença em relação à tragédia na Nigéria e de sobrevalorização do massacre de Paris. Os especialistas em Charlie tornaram-se nesse momento especialistas em Nigéria, que usavam curiosamente o massacre contra cristãos promovido pelo Boko Haram, um grupo islâmico, para atacar o Charlie Hebdo, que por sua vez era atacado por promover o anti-islamismo (é esquizofrênico, mas é isso mesmo). Por favor, tentem ao menos fazer sentido. O que os especialistas em Nigéria não sabem, é que o Boko Haram surgiu no fim dos anos 1970, como uma rede social de apoio. A Nigéria é um pesadelo. País com o maior PIB da África nos últimos anos, devido à riqueza que vem do petróleo extraído em alto mar (a Petrobrás tem forte atuação por lá), a Nigéria é um daqueles exemplos de como é possível fazer uma catástrofe social mesmo com uma renda per capita elevada, pela via da péssima distribuição desta renda. Ao lado de cidades opulentas, a miséria no campo e no interior do país é grotesca. Nesse contexto, surgiu no nordeste do país um pregador muçulmano chamado Mohammed Marwa. Um alucinado que proibia os seus seguidores de lerem qualquer coisa que não fosse o Corão. Porém, mesmo alucinado, ele organizou um movimento legítimo de reivindicação de uma parte dos royalties do petróleo, para retirar a região da completa miséria. Com a recusa do governo em ceder, ele radicalizou o discurso antigoverno e organizou uma rede de apoio social para mitigar a miséria da população, completamente abandonada pelo governo, o que culminou em uma ofensiva do exército em 1982 que matou nada menos do que o próprio Marwa e 4.000 dos seus seguidores, além de desmontar a tal rede.

Depois disso, a militância islâmica da região radicalizou. É claro que nada justifica o rapto de meninas e o massacre da semana passada. Porém, nada justifica também as besteiras e a mistura dessa história torpe (a situação na Nigéria é daquelas típicas em que não há um lado pelo qual torcer, pois são todos horríveis) com o ocorrido em Paris. Os dois conflitos mais importantes da década de 1990 ocorreram mais ou menos na mesma época, a saber, as guerras civis na Iugoslávia e em Ruanda. Na imprensa internacional, a primeira era chamada de “conflito étnico”, e a segunda, de “conflito tribal”. Foi por iniciativa de protestos de jornalistas africanos, justamente, que se suprimiu da imprensa essa diferenciação, e passaram os dois a serem chamados de conflitos étnicos. Esta clara demonstração de preconceito é apenas um exemplo da parcialidade com que o jornalismo trata as diferenças. Há uma elite ocidental que partilha mais ou menos os mesmos valores, que tem mais ou menos a mesma cor, mais ou menos a mesma religião, que houve mais ou menos a mesma música, e que se identifica entre si às vezes muito mais do com que pessoas de outras classes sociais dos seus próprios países. Os jornalistas fazem parte dessa elite, e isso evidentemente influi na decisão de quais informações são as informações de “interesse público”, e a África, via de regra, fica de fora desse interesse.

Mas nem é, entretanto, preciso ir tão longe. Lembro que aqui mesmo no Rio de Janeiro, há uns anos, um acidente de carro na Lagoa (área nobre da cidade) tirou a vida de cinco ou seis jovens (não lembro ao certo o número). O acidente gerou uma enorme comoção, capitaneada por jornais como O Globbels, com direito a manifestações de consternação  “pública”, abraços na Lagoa e outras formas de luto coletivo. Uma jornalista, não lembro qual, lembrou que os jovens, menores de idade sem carteira de motorista, voltam de uma boate de elite da moda e estavam dirigindo ainda por cima em excesso de velocidade. Lembrou que há leis que dizem que menores não podem dirigir, não podem beber, não podem entrar em boates e que há limites de velocidade a serem observados, segundo o código brasileiro de trânsito, e que se pelo menos alguma dessas leis tivesse sido obedecida talvez a tragédia não tivesse acontecido. É claro que ela foi execrada (“insensível” e blá e blá e blá). Mas o interessante aqui é que na mesma época, o transporte alternativo e irregular estava ganhando ímpeto na cidade, e que quase semanalmente acidentes envolvendo vans na Avenida Brasil tiravam a vida de vários trabalhadores que voltavam cansados para casa, após a jornada de trabalho. Esses trabalhadores, é claro, tinham mais ou menos a mesma cor, mais ou menos a mesma religião e eram, com certeza, da mesma classe social (ou, talvez, acidentes às seis da manhã sejam mais comoventes do que acidentes às seis da tarde), diferentes das dos jornalistas. E para essas vítimas da violência no trânsito não houve abraço na Lagoa, nem comoção do Globbels e etc. Não é preciso ir à imprensa internacional para encontrar diferenciações racistas e classistas de tratamento de um mesmo tema, neste caso, de tragédias ligadas ao trânsito. Agora, alguém me explique por favor o que diabos isso tem há ver com o massacre de Paris? Não foram os jornalistas do Hebdo, até porque já estavam todos mortos, que operaram essa seleção entre o que é “de interesse público” e o que não é. Reclamem dos vivos.

 

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Paris, Grécia, Nigéria: quanta besteira eu sou obrigado a ouvir

  1. Equívoco Humano

    Interessante como uma análise histórica e parcial levam a conclusões idiotas, lembras a ascenção do nazismo como forma de fundamentar que graças a Deus é a esquerda que está assumindo a Grécia neste momento de crise. Rússia 1917? Stálin? 17 Milhões de mortes? Mao? Pol Pot? Fidel Castro? É justo fazer uma análise histórica(ou dialética) do capitalismo, mas é justo não fazer do Socialismo?(desmemoriado) Acho engraçado como os pecados da direita nunca são esquecidos, mas os da esquerda amnésia total, afinal a contabilidade de mortos da experiência “socialista” é de fazer Átila “o Flagelo de Deus” uma putinha. Por exemplo, não escreves uma linha sobre Petrobrás, mas em outro texto disse que saiu as ruas contra a privatização. Linha interessante esta, crítico mordaz do governo, dependendo do partido. Este é o espírito que leio nestes textos, a parcialidade de uma Veja, só que para o outro lado. Critérios diferenciados às esquerdas, coerência para que? Infelizmente não és digno da caneta. E ainda se julga no direito de dizer o que os outros falam besteira. Manipulação barata, expúria e incompleta. Este é o problema do Brasileiro direita e esquerda corrupta nos partidos e na mídia esquerda e direita inexcrupulosas.

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