Lembrando da Brasil que me pariu

A pátria me pariu menina, olhos cor de ouro negro, carnuda, preciosas maçãs de rosto, rumor de água até sair pelas orelhas, colo vasto, pernas longas, curvas de praias a perder de vista, umbigo de estrelas, roubada aos pais, estuprada pelos padrastos, menina. Pariu muitos mais no mesmo ano. Milhares na lama, na roça, no mangue, em pocilgas que Pasteur e médico nenhum visitou, que Niemeyer não viu, que Segall não pintou, que Presidente não cuidou, que madame nunca ouviu falar, que antropólogo não estudou e que Deus não abençoou. Não eu que a mim deu a luz entre lençóis limpos, berço preparado, nome escolhido a dedo, tratado a esmalte os utensílios, louças de porcelana, vestidos de cambraia. Outros milhares vieram em molambos, trapos limpos por mães preta caprichosas, sabão de banha que o de caixa era luxo e quem vive debaixo de bota, para encher o bucho já tem tarefa bastante. Mas nem sempre tem emprego, quase nunca tinha emprego. Tem biscate, doutor ? Diziam a qualquer bunda mole, trocando trabalho duro por alguma ração no prato. E as moedas de troco ajudam o preto, menina, ajudam, Deus lhe pague. Menina tinha vergonha de dar. Dava pedindo desculpas enquanto andava por ali às tontas, intrigada, espantada, sem conseguir desvendar mistérios. Porque a latinha do homem que a mãe enchia de comida no portão era latinha igual à do cachorro ? Porque o filho da Dita que suava na faxina, engraxava sapato na praça ao invés de ira à escola ? Porque o homem do saco que recolhia garrafa, tinha o sapato furado na ponta e, atrás, remendado ? Cala a boca, diacho, ô menina perguntadeira. Essa não puxou à mãe pátria que era de pergunta pouca pra esse gênero de problema. Essa pátria é boa pra esperteza, menina. É excelente para os negócios, ótima para militares burros, fácil pros violentos e pros ilícitos e seus sócios, nem se fala, não me fale! Se souber ficar calado Brasil é pátria fecunda, dá sorte, dá vida e fortuna! Sabedoria dos velhos. Abriu-se a última fronteira, acabou-se aquele desperdício de Amazônia , agora vai de retalhada, esperto é quem comprar um pedaço. Seu Toninho por uma banana, não digo, mas um cacho , comprou terras para os lados de Rondônia, ele é bobo, por acaso ? Vai enricar no macio, só vendendo madeira nobre. E o Henrique, sabe não ? Ganhou uma mina de cobre ! Isso é que é dote que preste, viva a filha do General!

Minha mãe pátria abortava, como abortava aquela menina. Todo ano morriam mirrados milhares de anjinhos surrados pela sede e pela fome. Uma vez, meninos, eu vi ! Uma procissão de gente, gente magra e muito escura em fila, atravessando um brejo com água pela cintura. Levavam um caixãozinho bem acima das cabeças e o protegiam da lama como coisa preciosa. Menina perguntadeira. Quem são esses? Pra onde vão ? Vão ali no cemitério, levar a que morreu, tão cedo, a pobrezinha. Onde os carros, os enfeites, as rendas, fieira de cores, aquele cheiro de flores e os homens vestidos de preto? É gente pobre minha filha, tem modo próprio de sentir dores. Modo próprio era apelido. Que gente mais esquisita, que suportava calada a grossa dureza da lida e ouvia de cabeça baixa muito e tanto desaforo. Assim que é a vida menina, acostuma e não reclama.

O bolo, dizia o gordo, era pouco, e bobo era quem não punha no prato farinha farta e seu pirão primeiro. Os grileiros se fartavam do corpo da minha pátria menina. Nos peitos cheios mamavam e os agricultores expulsavam para irem ao raio que os parta! O raio das tempestades da minha pátria tinha vício de cair sempre e sempre no mesmo lugar.

Tinha sabiá laranjeira, tinha fruta no pé, tinha de um tudo pra uns e quase nada para os outros, tinha avenidas novas, tinha estradas vazias, que carro era artigo de luxo. Tinha babás que ficavam até menino criar bigode, tinha homens de bigode que fiavam e teciam essa história rota, cheio de esgotos, cheia de males e mosquitos que mulheres agora lavam, costuram e bordam pra ver se fica mais bonita.

A menina pátria que me pariu era feia, me desculpem os sem olhos de ver, os sem miolos na cabeça, os sem conhecimento de História, os sem vergonha e os sem entendimento da política. Era triste e abortava, abortava, abortava…

Featured image

Anúncios
Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: