Guiné Equatorial não é Guiné-Bissau! Nem ditador é flor que se cheire, muito menos que se beije!

E mais uma vez a Beija-Flor, coerente com sua estreita história, dá total vazão aa apoteose do absurdo, a peso de ouro, com 10 milhões de motivos, devidamente contabilizados, a homenagear (pasmem!) a ditadura de Obiang (não confundir com Obi-Wan, por favor!) aa frente de Guiné Equatorial desde 1979.

 

E como a questão levantada já disse respeito aa coerência, é realmente de todo coerente que no atual carnaval da Imobiliária Cidade do Rio de Janeiro S.A.,  cada vez mais privada e excludente, sob as rédeas do imprefeito Guerra & Paes ®, essa escola se sagre, vexatoriamente, campeã.

beija-flor

Renato Aroeira, em “O Dia”. 18/02/2015.

Antes de prosseguir, em atendimento aa própria urgência do título, esclareçamos que há três Guinés na África: Guiné, de língua oficial francesa, Guiné-Bissau, de idioma oficial português e Guiné Equatorial, com francês e espanhol como oficiais e, em processo de instauração do português como também oficial. Outrora suas denominações eram, respectivamente, Guiné Francesa, Guiné Portuguesa e Guiné Espanhola.

 

Three_Guineas

A história colonial de Guiné Equatorial é das mais conturbadas do continente africano. Tudo começou com os portugueses em 1471, com presença nos territórios hoje insulares do país. Nos dois séculos e meio seguintes, o Golfo da Guiné (justamente a parte da África que “encaixa” no Brasil, no “quebra-cabeça” da Pangeia) assistiu a uma sucessão de conflitos entre portugueses, holandeses, espanhóis e franceses pela presença nas ilhas que serviam de suporte avançado ao tráfico de escravos. A nação, em meio a isso, que maior presença consolidou no território, fora Portugal, até que, em 1777/78, assinou-se um tratado em que os portugueses cediam as ilhas do golfo aa Espanha, em troca de armistícios na América do Sul e a demarcação das fronteiras brasileiras, dentre outros itens de comércio envolvendo territórios africanos e americanos.

 

guine       [Guiné]

Guine-2

  [Guiné Equatorial]

guine-bissau                                                                                [Guiné-Bissau]

Hoje, Guiné Equatorial é o único país africano de língua oficial espanhola. Na verdade, a língua mais falada no país é o fang [uma língua da família bantu, uma das principais famílias linguísticas africanas, também falada em Camarões, São Tomé e Príncipe, no Congo e no Gabão]. Há, pelo menos mais dez línguas não oficiais, minoritárias, algumas delas faladas por não muito mais de mil pessoas, em franco processo de extinção cultural.

O francês, embora língua oficial, não é falado pela população, muito menos o português, ainda a ser implantado como oficial. Para se ter ideia, o recente e vergonhoso ingresso do país na CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) foi anunciado no portal oficial do governo em espanhol, em francês, em inglês, mas não em português.

Aliás, a entrada do país na Comunidade foi muito criticada no conjunto dos países lusófonos, devido aa descarada e truculenta condução do Estado, sob a duríssima mão de ferro de Obiang. Tal ingresso foi o que determinou a artificial adoção do português como idioma. Há, em Guiné Equatorial, um vestígio linguístico da presença lusa: a língua Fá d’Ambô, um crioulo de base lexical portuguesa falado na Ilha de Ano Bom, por cerca de 9 mil pessoas.

[Crioulo ou, originalmente, criollo, é o termo linguístico para uma língua resultante do contato de colonização de uma língua europeia com uma nativa. A África é dos continentes mais profícuos em línguas crioulas, encontradas também em grande profusão na Oceania, América, especialmente Central, e mesmo na Ásia.]

Voltando ao ditatorialismo de mais de três décadas em Guiné Equatorial, seu presidente, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, detém plenos poderes: pode dissolver o Congresso, promulgar leis, convocar e afastar o primeiro-ministro. É mais um déspota do que um presidente. A oposição a seu governo não pode sequer existir, sendo aprisionada, caçada, assassinada. O país está no topo dos abusadores de direitos humanos no globo.

Isso tudo a título de uma concentração de riquezas sem igual no continente africano. Desde 1997, o país é um dos maiores produtores subsaarianos de petróleo, o 3º de todo o continente. Seu PIB, percapitamente, é um dos maiores do continente, sendo o dobro da média mundial, embora a população seja paupérrima, com o 144º IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo, 78,6% de sua população de 722 mil habitantes é considerada na linha da pobreza, com 20% das crianças morrendo antes dos cinco anos de idade e 50 anos de expectativa de vida. Para se fazer uma comparação, o nível da pobreza da população do país é bem próxima a do Haiti, em vários indicadores socioeconômicos. Contudo, o Haiti tem uma renda per capita de 585 euros; já Guiné-Equatorial, quase 20 mil euros. Enquanto isso, segundo a revista Forbes, Obiang é o 8º governante mais rico do mundo, numa lista que possui chefes de Estado de países muito ricos, reis, rainhas, califas, etc…  Ou seja, os 10 milhões pra Beija-Pés & Lambe-Botas não é nada. O senado norte-americano conduziu, em 2004, uma investigação em que se descobriu que Obiang recebia generosos repasses regulares de gigantes do mercado petrolífero estadunidense, como a Exxon, por exemplo.

 

EquatorialGuinea[Uma das mais desiguais distribuições de renda do globo.]

Como quem vive e convive, muito cotidianamente, em estudos e trabalho, com o conceito de lusofonia, é bem entristecedor ver o ingresso de Guiné Equatorial na CPLP, constatar, embora não surpreso, a sobreposição dos valores econômicos aos culturais e de firme cooperação internacional, no seio da entidade. Como quem crê na bandeira da lusofonia, ainda que noutra configuração, dá vergonha ver Guiné Equatorial na CPLP. Da mesma maneira, como brasileiro e carioca, envergonha saber da homenagem custeada pelo sofrer do povo equatorial guineense. Também bate indignação com a indignidade da escola de samba em questão. Não é seu primeiro ato grotesco. Sua constituição advém de mídia, bajulação e exaltação aos podres poderes (aa diatadura, especialmente) e muito, muito dinheiro. Quero crer que algo assim não ocorreria nas escolas verdadeiramente tradicionais, Mangueira, Portela, Salgueiro, Vila… Inclusive, na Vila, não ocorreria mesmo, porque Martinho- que muita gente não sabe, mas é um militante ardoroso da causa lusófona- não deixaria.

obiang

A tal escolinha de samba não cantou a africanidade. Em Guiné Equatorial, a africanidade está, brutalmente, massacrada, humilhada, coagida e açoitada. Hoje, nesse país, há muita dor e pouco que remeta a flor.

Quem sabe bem proximamente, já pro ano que vem, a vexaminosa escola não possa comemorar os 70 anos do bombardeio de Hiroshima e de Nagasaki? Bem, não faltam tragédias humanas brutalizadas, infelizmente. E quanto mais elas são esquecidas, escondidas, camufladas, pintadas de outras cores e tons, tanto mais proliferam!

beija-vibora 2

A verdadeira beija-víbora.

SHORT MEMORY (James Moginie, Martin Rotsey, Robert Hirst, Peter Gifford, Peter Garrett)

Conquistador of Mexico
The Zulu and the Navaho
The Belgians in the Congo
Plantation in Virginia
The Raj in British India
The deadline in South Africa

The story of El Salvador
The silence of Hiroshima
Destruction of Cambodia

Short memory, must have a short memory

The sight of hotels by the Nile
The designated Hilton style
With running water specially bought

A smallish man Afghanistan
A watch dog in a nervous land
They’re only there to lend a hand
The friendly five a dusty smile
Wake up in a sweat at dead of night
And in the tents new rifles, hey, short memory

Short memory, must have a short memory

 

P.S.: Guiné-Bissau é fundador da CPLP, em 1996. É, claramente, um país muito pobre, com grandes índices de desigualdade, como ocorre em todo o mundo capitalista e muitíssimo mais na África subsaariana. Contudo, sua desigualdade social não é no nível além da imaginação da observada em seu xará, dito equatorial. Dos cinco países africanos de língua oficial portuguesa, foi o primeiro a se tornar independente, ao contrário dos demais, em 1973, antes da Revolução dos Cravos, em Portugal, pela mobilização da organização transnacional PAICG (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Sua população, grosso modo, é bilíngue, falando português e, principalmente, o crioulo guineense de base portuguesa.

 

P.S2: A Linha do Equador não corta Guiné Equatorial, embora passe muito próxima.

 

P.S3: Ainda há na Oceania, Papua-Nova Guiné, de colonização, primeiro portuguesa e, depois, inglesa.

 

P.S4: Há muitas teorias sobre a etimologia do nome “Guiné”. Uma das mais referidas é aa palavra “aguinaoui”, em língua bérbere, “negro”, “preto”. Mas é só uma de tantas.

 

P.S 5: E ainda me dizem que o Midnight Oil é “surf music”. Haja paciência…

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Categorias: Política, Sociedade | Tags: , , , , , , , | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Guiné Equatorial não é Guiné-Bissau! Nem ditador é flor que se cheire, muito menos que se beije!

  1. Ericles

    Também sinto vergonha pela entrada da Guiné Equatorial na CPLP, eles nem falam Português, o máximo que falam é um crioulo e isso numa ilha esquecida e distante do restante do país…

    Mas é claro que bem sabemos que Angola tem o mesmo tipo de regime e ninguém fala absolutamente nada! Será que o problema é só a G.E ou também em nós mesmos lusófonos?

  2. Ditadura em Angola?! Não, não, não. As condições de desigualdade lá são alarmantes também, mas esse dado específico de opressão/exploração não há.

  3. Ericles

    Tem sim, Anderson. O presidente José Eduardo está no poder em Angola há 35 anos, no mesmo tempo que Teodoro Obiang está na Guiné Equatorial.

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