Thor Batista e Igor Mendes: a justiça é cega mesmo

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Faz agora três anos que Thor Batista atropelou e matou o ciclista Wanderson Pereira dos Santos, na BR-040 na altura de Duque de Caxias. O valor do carro dirigido por ele (uma Mercedes-Benz modelo SLR McLaren, ano 2006), segundo estimativa da Revista Quatro Rodas, é de 2.700.000 R$ (dois milhões e setecentos mil reais). O preço do carro, de per si, já bastaria para explicar a vergonhosa absolvição do réu essa semana.

Rafael Braga, por outro lado, um catador de lixo, negro e pobre, foi condenado a cinco anos de prisão (está cumprindo em Bangu) por portar uma garrafa de desinfetante. A acusação que pesava contra ele era a de que o material poderia ser utilizado como bomba incendiária para ser atirada contra a polícia. A perícia, após longos meses de análise, concluiu que o conteúdo da garrafa de pinho sol era, afinal de contas, pinho sol, e que a substância não teria nem remotas chances de ser utilizada como um explosivo. Ninguém ligou, e ele foi preso do mesmo jeito. A justiça brasileira, diferentemente de certos animais, não é cega para as cores. Todo mundo sabe que no Brasil ela é dura com negros e pobres, e suave com brancos e ricos, mas assim já é demais. Eu teria vergonha de trabalhar para uma instituição tão enviesada.

É claro que nada disso custou barato. Apenas imagino a felicidade de juízes e personagens afins ao se darem conta de que eles tinham o destino do filho de Eike Batista nas mãos. Não devem ter sido poucos os regalos deixados ao longo dos longos trâmites judiciários. Isso fora um acordo secreto com a família da vítima que, dizem, chegou a custar um milhão (creio que esse valor seja exagerado). Tenho lembrado já há algum tempo e algumas vezes a origem da fortuna da família Batista. Não vou repetir histórias sobre minas de ouro, Vale do Rio Doce e as chaves do cofre do BNDES.

Porém, devo lembrar que a parte menos interessante disso tudo é que nós é que pagamos a conta da liberdade do filho do Eike. Ou pagamos, pelo menos, 50% do valor, uma vez que é mais ou menos essa a porcentagem de dinheiro público que foi “investido” em todas aquelas empresas com nomes ridículos com “X” – devido à numerologia, ou astrologia, sei lá.

A pena a que o nosso deus nórdico havia sido condenado era de prestação de serviços comunitários e dois anos de suspensão do direito de dirigir. Com essa absolvição vergonhosa, ele não passará nem por esses pequenos contratempos. Nem cesta básica ele vai distribuir (o castigo de rico por excelência no nosso país). A imprensa, tão seletivamente investigativa para alguns assuntos, nesse caso específico se limitou a “noticiar” acusações e absolvições, sem juízos de valor quanto à leniência da justiça em relação a um caso de homicídio no qual o réu foi absolvido apenas por ser rico. Claro, um dia pode ser o filho de algum diretor da Globo no lugar do Thor. Por que “pegar pesado” com o menino? Afinal, ele é só um garotão, quem nunca atropelou um pobre ou incendiou um mendigo (essas “loucuras” da juventude)?

Temos nesse momento no Rio de Janeiro um processo de perseguição explicitamente político contra diversos dos ativistas que estiveram à frente dos protestos do ano passado. Um deles, o Igor Mendes, já está há mais de dois meses em Bangu. Ele teve o seu habeas corpus revogado por participar de uma quermesse, ou coisa parecida. Duas outras militantes estão foragidas pelo mesmo motivo. No direito, quando direitos fundamentais conflitam, eles trabalham com a noção de “bem jurídico”. O direito à vida, por exemplo, é visto como um bem mais importante do que o direito à propriedade privada (ou, pelo menos, é esse o discurso que eles sustentam). Pelo visto, para a justiça, a liberdade de um playboy ridículo e assassino é um “bem jurídico” maior do que a liberdade de ativistas que lutam por todos nós.

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Categorias: Política | 7 Comentários

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7 opiniões sobre “Thor Batista e Igor Mendes: a justiça é cega mesmo

  1. Leonardo Dantas

    Mas o “mauricinho” deslocou o queixo quando bateu o possante no pobre ciclista? Ou foi um castigo divino pré-estabelecido que lhe deformou a face antes mesmo de cometer o atropelicídio aloólico?

  2. Equívoco Humano

    Sou forçado a concordar a justiça brasileira não é cega, assim como toda a imprensa não é isenta, uns se calam frente ao Thor e outros se calam frente a Mensalões e Petrolões. No final das contas o povo brasileiro se ferra, a imprensa lucra, e muitos embolsam.

  3. Renato

    “devido à numerologia, ou astrologia, sei lá.”

    Até concordo com os argumentos do artigo, mas preconceito com crenças não desce.

  4. Equívoco Humano

    Mais uma da justiça brasileira Renato Duque solto, dizem que a pedido de Lula, atendido pelo sr. Teori Zavaski.

  5. Renata

    isso não é: Justiça Cega! Isso é: Corrupção mesmo. É o que eu digo, a corrupção é estrutural e histórica no Brasil! Veja este “simples” exemplo, acima citado….

  6. esse “país” às avessas, para os ricos tudo e onde os pobres padecem…

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