Rio, feliz 2016! 450 anos paespalhando desigualdade, agora com um presente de grego.

Todos sabemos que o “ano útil” acabou de começar ou começou a acabar… Difícil saber. De todo modo, 2015 não é um ano no sentido clássico, ao menos pra quem vive no Rio de Janeiro. É mais um parêntese, de 12 feriadões pelo menos, entre a Copa e as Olimpíadas. Ao menos, na prática, é assim que pensa a administração pública da cidade e do estado, bem como seu associado mercado imobiliário, o califado contemporâneo do séc. XXI, praticando preços de tornar castelos europeus casebres mal-ajambrados.

rio 450

Pra inglês ver mesmo!

Zuenir foi quem teve a ventura de decretar, sem publicação em Diário Oficial, o Rio a cidade partida. Hoje, partida, repartida, recortada, entrecortada, em seu dia a dia cada vez mais cortante, a quem não está estampado na cidade cartão postal.

rio- arqui

Já utilizei esta imagem aqui antes e a reedito, em homenagem a seu autor, o querido Arquimimo Novaes, que aniversariou nesta semana.

Para a maioria dos cariocas, a tal Cidade Maravilhosa é um rio que nunca passou em suas vidas. Estão a viver no desgosto dos esgotos, só não mais esgotados que as águas que, sejam de março, de abril, maio ou etcetera ano afora anunciam-se em falta, escassez a encharcar os noticiários. Afinal, como poderá Ipanema ficar sem água?! Não pode.

450 anos, mas, desde já, essa história precisa ser contada em outros 500… Pereira Passos, o prefeito-picareta, em todo o rol de acepções possíveis, deixou suas pegadas muito bem demarcadas nesta cidade, a hoje Olímpica & Imobiliária Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro S.A., herdada, capitania-hereditariamente, e administrada pelo imprefeito Guerra e Paes ®, a esquadrinhar e ladrilhar o sonho de Passos, pesadelo da maior parte da cidade: Rio, a Paris dos trópicos.

pereira passos 2pereira passos

Repetindo uma imagem já usada em texto meu.

Repetindo uma imagem já usada em texto meu.

 

 

 

 

 

Desde antes de Passos, na verdade, a cada um século, o Rio vive um aprofundamento de suas desigualdades, alargando ruas e exclusão: a surreal chegada da família real portuguesa, a reforma Passos, agora a preparação pra Copa/Olimpíadas. E pra celebrar 450 anos, vem um literal presente de grego pra cidade, afinal, foram eles que nos deixaram, da Antiguidade, as olimpíadas de legado, em sua versão moderna, primeiramente, disputadas em Atenas, em 1896, levadas a cabo pelo barão de Coubertin.

Em 2004, as Olimpíadas voltaram a Atenas. Deveria ter sido em 1996, no centenário, mas Atlanta, ou melhor, a Coca-Cola falou mais alto. Se na preparação das Olimpíadas aqui muitas obras foram paralisadas por esbarrarem em sítios históricos, imaginem em Atenas. O custo da competição lá, sem deixar grandes legados pra cidade, é apontado como uma das razões pra agudização da crise vivida hoje pela Grécia. Depois de tantos lucros imobiliários e especulativos, o Rio sobreviverá muito para além das margens do postal?

olímpiadas de 2012 e David Cameron, o Cavalo de Tróia inglês

Cavalo de Troia com muito upgrade vem aí.

525 dias pras olimpíadas, 205 países, 42 modalidades. Será um show de cobertura da Globo, a deixar um desclassificado, senão inclassificável, mundo de mazelas a descoberto. Adoro Olimpíadas, mesmo. Acho-as um barato, mas sei que sairão muito caras, emolduradas em tantas caras-de-pau aa Caras. E ainda conseguirão fazer desfaçatez também com as Paraolimpíadas (“Paralimpíadas” é o caralho! Desculpem o desabafo.). Enfim, as Olimpíadas de epicentro na Barra barrarão quantos milhões?

Desde já sabemos quem ficará fora desse pódio. Em estado de Pezão, a bunda é senha de saída. Para quem tá fora do mapa de lucros over cariocas, a competição instaurada é maratona, e com barreiras. Salto em altura?! Haja viadutos a superar… Além, claro, das estações suspensas da linha 2 do metrô que, simplesmente, não existem na linha 1; afinal, metrô suspenso, não escavado, é coisa de pobre. Já imaginaram o Flamengo, Botafogo, Copacabana com metrô suspenso?

Na Cidade Maravilhosa das empreiteiras, o sol brilha pra poucos; pra maioria aquece demais e faz suar em transportes hiperlotados. 450 anos, uma eternidade de histórias a refazer, compensar, evitar!

[Procurei MUITO um vídeo com esta música e uma visão crítica. Não encontrei.]

Claro que esta cidade, apesar de tudo isso, tem o que celebrar. Apesar do crescimento da lógica privada e privatista, ainda é das cidades com maior consciência pública no país. As mesas do boteco na rua, os Blocos de carnaval, a conversa, ainda que romantizada, na cadeirinha de praia, fora de casa, entre vizinhos no subúrbio nos lembram disso. Isso, dentre outras coisas óbvias, como o Mengão, por exemplo. Porém, é mais do que hora de se perguntar: o Rio de Janeiro continua sendo o quê?

 P.S.: a temática, infelizmente, não é nova aqui no blogue. Só de textos meus, já a tratei de alguma forma antes, dentre outros em: O direito de ir e rir, Malditos faveladosAnonimato post vitae, Dudu e o pé de feijoada.

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