A(u)to de resistência

Devido a ter retornado faz pouco do exterior, pensei em escrever exatamente sobre o tema, de forma a desconstruir aquela ideia de as coisas erradas acontecerem “só no Brasil” – opinião compartilhada por muitos brasileiros. Claro que a comparação teria ares de galhofa, já que visitei a Itália, considerada o Brasil da Europa. No entanto, este texto mais leve e até bem humorado não teve espaço na minha indignação diária ao voltar à terra brasilis.

Falaria sobre os problemas italianos, sobre a existência de pobreza em suas ruas, sobre os milhares de imigrantes do norte da África, sobre o clima tenso que aguarda ataques terroristas do Estado Islâmico, sobre a onipresença do primeiro-ministro Matteo Renzi na tevê – opinando desde política internacional à culinária, sobre a rejeição popular de Berlusconi, enfim, em tudo aquilo que a Itália teria muito de Brasil e vice-versa.

Mas, não coube no poema. Nenhum jornal de lá noticiou a morte de crianças pela polícia. Lá, estão em guerra contra o terrorismo. Aqui, ao chegar, descobri que também estamos em guerra. Contra nós mesmos. Os capitães-do-mato continuam a caçar os negros fugidos. Ou forros. Porque de há muito não são livres.

Queria falar de outra coisa, mas vi uma criança que brincava ser morta. Quando brincava. Porque brincava. Estava no lugar errado. E tinha a cor errada. Pobre, preto e correndo. Auto de resistência. De repente, a história dava conta de que eram traficantes. Assim, do nada, viraram bandidos na crônica policial. Negros perigosos. A farda causa repulsa. A mentira é a mãe da corporação. Condenados pelo tribunal imediato dos feitores. Executados pela mão estúpida do Estado. O braço da lei tem a frouxidão moral de seus dirigentes.

E tudo seria exatamente a farsa que se montou não fosse o fato de que a vítima do homicídio gravasse a própria morte. Quantos outros não tiveram a mesma “sorte”? Querem que alguém acredite mesmo que seja este um caso isolado? Há pouco falava-se da morte de uma menina, atingida dentro do seu carro por um projétil de fuzil, disparado por um policial em perseguição.

Não é caso para apenas prender os marginais de farda que, em lugar de proteger a população, são convencidos pela política de guerra a caçar negros nas comunidades carentes. É bem mais que isso. Fosse um país sério, o secretário de segurança teria, envergonhadamente, pedido para sair. Era caso para o governador pensar em renunciar. Sua polícia matou uma criança que brincava. Quando brincava. Porque brincava.

O sangue vermelho escorre pela pele preta nos guetos onde a guerra é declarada. O daltonismo social só enxerga a violência na cor branca de cachos dourados. Sem dúbios vestidos. Sem truques de imagem. Sem brilho. Só o que somos. Temos nas ruas uma corporação que é uma verdadeira fábrica de defuntos. Uma instituição que serve para matar pretos pobres. Temos feitores de farda fingindo-se de policiais.

Queria falar que não estamos tão distantes da Itália. De repente, a realidade colocou-se como um oceano que nos separa. Lá não estão matando suas crianças. Aqui estamos em guerra contra nós mesmos. Chega! É preciso um basta. A polícia militar é um anacronismo, um câncer para a sociedade. Parem com a guerra. Pois não estamos em guerra. Deitem-se as fardas. Chega do militarismo ceifador de vidas. Rio, São Paulo, Brasília. Chega de feitores. Estão matando crianças. Estão cobrando de garotos de 12 anos que “morram com dignidade”. Sem socorro. Sem justiça. São os policiais militares os próprios “vagabundos” que pensam combater.

Queria falar do aniversário da cidade. Dos 450 tons de exploração imobiliária. Do quase meio milênio de desrespeito à natureza, de predação e de vilipêndio às nossas riquezas. Queria falar de vigas que somem, do cinismo do prefeito, das obras superfaturadas, dos equívocos diários que fazem da cidade ser pior, mas que jamais abalam a alma do carioca. Contudo, a alma turvou-se. A polícia do Rio de Janeiro matou uma criança que brincava. Quando brincava. Porque brincava.

Em um país de judiciário falido e vendido, em que magistrados autodeificados prostituem-se tomando para si bens dos réus ricos em troca – quiçá – de penas leves; em um lugar em que a mídia esconde a corrupção de uns e alimenta a de outros; em um momento em que os defensores da democracia se organizam contra ela, em tentativa de terceiro turno; em meio a todas as crises econômicas, morais, éticas… Em meio a toda subserviência do poder ao capital, ao financismo, à especulação… Em meio às nossas chagas, a polícia matou uma criança que brincava. Quando brincava. Porque brincava.

Queria que fosse diferente. Sobra-me tão somente o ato de resistência de pôr a pena a serviço do fim da pena. Chega de autos de resistência. Chega de mortes estúpidas. Chega de polícia militar. Não consigo parar de pensar: mataram uma criança que brincava. Quando brincava. E porque brincava.

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Categorias: Reflexões, Sociedade | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “A(u)to de resistência

  1. Ernesto Xavier

    O extermínio de jovens negros e pobres é uma prática governamental desde a fundação do Brasil. Sei bem como é isso.

  2. Pingback: A(u)to de resistência | Blog do Pedlowski

  3. Leonardo Dantas

    “NÃO SE COMBATEM EFEITOS SEM ELIMINAR-LHES AS CAUSAS”….
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    1 – A crudelização das abordagens policiais obviamente ocorre de maneira a fazer face ao crescente número de latrocínios praticados por menores.
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    2 – Tais latrocínios são “turbinados” pelo amplo acesso às drogas, mormente o crack, o qual já atinge 80% dos municípios brasileiros. Situação que grassa num campo árido de educação moral.
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    3 – O NEGÓCIO do tráfico no varejo só é factível com a existência do grande tráfico, no atacado.
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    4 – O tráfico no atacado só pode ocorrer com a anuência de certos figurões dos três poderes que constituem uma ampla rede que se auto imuniza, ( vide helicoca etc ) e através da permeabilidade intencional das fronteiras, a blindagem da mídia e as propinas ao judiciário.
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    5- A opinião pública é ludibriada com eventuais apreensões efetuadas no pequeno varejo pra dar a impressão de que a polícia está fazendo o seu trabalho nesse âmbito.
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    6 – Já que o objetivo de tais demônios é “MANTER O NEGÓCIO TÃO LUCRATIVO”.. os grandes traficantes ( que, como já disse, fazem parte do poder público ) optaram por deixar a veia muitas vezes psicopata da tropa agir livremente contra quaisquer menores pobres em situação suspeita ( atirando com a certeza de serem encobertos pela hierarquia deste poder paralelo).
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    7 – Na medida em que elegemos tais seres maléficos, os quais se vendem aos seus patrocinadores, nomeiam seus comparsas e subvertem a função do Estado, terminamos por inconscientemente compactuar com toda a chacina, miséria e exploração, adquirindo uma carga de responsabilidades que tem resultado naquilo que os jornais encharcados de sangue noticiam.
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    RESUMO GERAL: A grande população é força de trabalho literalmente “possuída-por-auto-imolação” no altar da ignorância e da credulidade. ( Anestesias fornecidas? Sim, várias!.. Nem vou citar )

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