Estou pouco me lixando para a Petrobras

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E lá vamos nós falar de corrupção e PT, mais uma vez. Mais uma vez, um escândalo é o centro dos noticiários de todo o país por meses a fio, batendo na mesma tecla com a insistência de um chimpanzé recém presenteado com uma maquina de datilografia. O clima de histeria conservadora e golpista não dá sinais de ceder. Na verdade, está tão alto que nos nossos pobres dias de hoje não basta ser contra o PT, você tem que ser contra o PT nos moldes da direita e seguindo as críticas à direita (aquelas que dizem que o problema do país é a corrupção – que, sem o PT, ao que tudo indica, não existiria –, o “bolsa miséria” e blá e blá e blá). Senão, você, evidentemente, também é um “petralha”. Tenho dito há muito tempo que o problema central não esse, e que as minhas críticas ao PT são à esquerda. É claro que o PT mergulhou fundo as mãos nesses esquemas, justificando-os a partir do discurso da governabilidade (eles têm justificativas melhores, mas nem vem ao caso).

Para mim, no entanto, o que mais tem me surpreendido é perceber que o mundo “descobriu” que se paga propina para fazer negócios com a Petrobras, ou que as empreiteiras estão imersas em negociatas escusas para conseguir as suculentas licitações com o governo. Pergunto-me em que planeta essas pessoas viviam nos anos FHC, Collor, Sarney, ditadura e, segundo alguns, remontando até o JK. Só falta agora descobrirem que existe superfaturamento em obras, aí vão todos se tornar uns doutores especialistas em Brasil. Não que isso seja desculpa. Desde a sua fundação, o PT se construiu sobre a base do socialismo, e sobre o discurso da diferença (aquele partido que viria precisamente para mudar tudo isso).

Porém, no dia de hoje, o poder judiciário e a imprensa denuncista perderam qualquer resquício de credibilidade que ainda lhes restasse: o novo herói do momento, o procurador-geral da república, Rodrigo Janot, arquivou o pedido de abertura de inquérito contra o senador Aécio Neves (PSDB). Isso mesmo, aquele senador ex-candidato à presidência da república, que já tinha tido a sua cara livrada escandalosamente do caso do helicóptero de cocaína e do caso do aeroporto de Cláudio, foi citado na fase das denúncias da atual investigação, a já tão famosa Operação Lava Jato, vindas por meio da delação premiada, mas não será (de novo) investigado. E mais, como até agora o processo estava correndo em segredo de justiça, nós sequer saberemos o teor das denúncias contra o sujeito. Mas o fato é que o Aécio Neves é um petralha do petrolhão. Ou melhor, é um tucanalha do petrolão: se fosse petralha seria investigado. Mais uma vez: não se trata de inocentar o PT, até porque quem tem que fazer isso não sou eu, é o poder judiciário e a história (declaro, no entanto, que confio bem mais no discernimento da segunda do que no do primeiro).

Como disse, minhas prioridades de críticas são outras. Por exemplo, mesmo antes da primeira eleição de Dilma, os observadores mais atentos já sabiam que tempos ainda mais nebulosos do que os do governo Lula viriam para índios e florestas, pois sabia-se que ela era ainda mais obstinada e obtusamente limitada por uma ideia ultrapassada e século-vintista de desenvolvimentismo, segundo a qual bom é massificar o modelo do automóvel próprio (foram 2.700.000 novos licenciamentos de veículos só ano passado), em detrimento do transporte público, e que cada árvore em pé é um obstáculo ao progresso a ser ultrapassado à motosserra. Todas essas coisas devem ter parecido razoáveis nos inícios do século XX, nos EUA dos tempos do Ford, mas hoje em dia, quando estamos à beira do colapso planetário a olhos vistos, elas soam mais como as trombetas do apocalipse do que loas triunfais ao progresso humano.

Outro modelo, o da soja, foi uma construção de décadas, mas floresceu como nunca durante os governos do PT. Começou no regime militar, com Programa para o Desenvolvimento do Cerrado (Prodecer, que na verdade condenou o cerrado à extinção). O programa foi financiado por capitais japoneses, altamente interessados em garantir a sua segurança alimentar (o Japão é um arquipélago cercado por países que o odeiam devido às atrocidades do imperialismo nipônico da primeira metade do século XX), pois trazer uma planta do clima temperado para o centro-oeste brasileiro requereu adaptações e anos de pesquisa da Embrapa. A segunda etapa mais importante foi a liberação dos transgênicos, dada embrulhada em pacote de presente com direito a fitinha por FHC (aquele que não tem culpa de nada, ou de tudo, dependendo do seu interlocutor) para a Monsanto. E o resultado está aí: o maior especialista do mundo em cerrado declarou que o bioma já está morto, e a motosserra da soja voltou-se com ímpeto na direção da Amazônia. E dá-lhe jornal comemorando safra recorde no agrobusiness.

Como já disse, esse é um tema recorrente por aqui. Não vou me alongar mais nas críticas. Já fiz muitas e elas não mudaram. Só vou lembrar por alto que o modelo de abertura para o capital especulativo e de endividamento constante é muito mais prejudicial (e dá mais prejuízo) para o país do que qualquer escândalo de corrupção. Também não vou repetir minha ojeriza aos métodos fascistoides com que os novos movimentos sociais foram enfrentados pela Dilma, com pesadas infiltrações, prisões forjadas e etc. Aliás, cabe aqui dizer que em todos esses pontos o PT converge perfeitamente com a direita, e não é devido a nenhum deles, portanto, que o partido é tão odiado. Minha teoria é que os donos do poder, via a sua expressão raivosa midiática, detestam o PT pelo pouco que ele fez de bom, ou seja, o aumento da qualidade de vida das pessoas, via ganhos reais de valor do salário mínimo e políticas sociais distributivistas.

Porém, logo após a reeleição de Dilma, houve uma preocupante mudança nesse último cenário, com a adoção de medidas econômicas contracionistas. Tais medidas, como no fundo se sabe muito bem (embora ninguém admita), são boas para bancos e para o sistema financeiro, mas péssimas para o emprego e para as pessoas. São, em uma definição simples, medidas antidistributivas, ou seja, o contrário do que os sucessivos governos do PT vinham fazendo. E aqui é o ponto central da minha preocupação. Eu estou me lixando para a Petrobras. Nesse mundo insano que optou pela corrida acelerada na direção do precipício, uma empresa de petróleo não pode NUNCA passar por problemas de verdade, ou seja, problemas graves o suficiente para levá-la à falência (ainda mais montada em um pré-sal). A minha preocupação é que os ganhos sociais dos últimos anos sejam perdidos (o que, em termos bem práticos, representa a volta do desemprego, da fome etc.).

A Petrobras não é um monstro, e o que está acontecendo com ela não é nenhuma novidade dentro dos parâmetros usuais de desonestidade brasileira. A empresa não vai acabar, e o fato de George Soros, um dos maiores picaretas do mundo (mercado financeiro, como não poderia deixar de ser para alguém alcançar esse título), ter aproveitado a “promoção” e comprado horrores de ações da mesma (enquanto os bobos falavam bobices, como disse a Ana Souto, colega aqui do blog) da margem a toda sorte de teoria conspiratória.

Se toda essa indignação contra a corrupção na Petrobras tivesse por objetivo mudar o país para melhor, ainda que dentro evidentemente de um projeto reformista e sem ruptura com o capitalismo, até que seria bem-vinda. Mas não há nenhum movimento de reforma institucional (puxado por poder judiciário, legislativo, ou pela mídia) para acabar, por exemplo, com o privilégio de foro, medida sem a qual falar em acabar com a corrupção não pode passar de retórica barata. Assim, sem nenhuma medida de fundo, tudo se reduz a um espetáculo circense lamentável com muita pirotecnia e nenhuma chance de resultado. O único projeto por trás disso é a expectativa de alternância partidária, tirando o PT do centro decisório e recolocando no centro da distribuição das boquinhas do poder a burguesia tradicional, aquela mesma que conduz o projeto “Brasil país mais desigual do mundo” há tantos anos.

Enquanto isso, na dura realidade das ruas, ontem Igor Mendes fez três meses de prisão. Para ele, assim como para a maioria dos brasileiros, não tem colher de sopa. Não tem indulto de natal como o que José Genoino acabou de receber, e nem espera por julgamento em liberdade. Rafael Braga segue preso por andar na rua com uma garrafa de pinho sol. E vários ativistas continuam presos, estão foragidos ou estão sendo perseguidos.

Reportagem da Folha sobre Aécio, aquele maníaco por transportes aéreos.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1598024-procuradoria-rejeita-abrir-investigacao-contra-aecio-neves-na-lava-jato.shtml

Reportagem da Folha sobre o indulto do Genoino.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1598003-stf-extingue-pena-e-genoino-volta-a-ser-um-homem-livre.shtml

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Categorias: Sociedade | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Estou pouco me lixando para a Petrobras

  1. Helio de Souza

    Pobre crstão.

  2. Equívoco Humano

    Jornalista à soldo com pose de dono da verdade, conivente, perdi a vontade de ler esta merda!!

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