Flores e espinhos

rosa-vermelha21

Tenho vergonha do dia oito de março. Tenho vergonha de que o oito de março seja necessário. É um dia que nos lembra de nosso fracasso como sociedade. Milhares e milhares de anos de civilização e ainda não conseguimos enxergar equidade entre homens e mulheres.

Não se fala em igualdade por certo. De fato, não somos todos iguais. Mas, fala-se em respeito, em oportunidades, em direitos. As vozes que não se ouvem. A surdez que ignora os gritos de liberdade. Rebaixam-se as mulheres com a violência das hostilidades, das ofensas, das pacandas; e também com a sutileza dos instrumentos de poder, da mídia, da propaganda.

Certa vez perguntaram-me se, com o discurso que fazia em defesa das mulheres, eu era feminista. Parei para pensar. Não, não sou feminista. Não posso ser. Não consigo. Eu teria de melhorar muito como homem para aproximar-me de qualquer ideia congênere.

Como homem, não consigo dimensionar as dores diárias das mulheres. Sua superação e luta. Posso, no máximo, apoiá-las e reconhecer a justeza de suas ações. Entretanto, ainda estou no estágio das brigas internas comigo mesmo.

Praticamente, todos os homens somos criados pelo machismo e por sua cultura. Por mais que lutemos contra a ideologia que nos é incutida, ele ainda está lá. Gozamos de uma sociedade que permite ao macho muito mais que aos outros. Resvalamos ora ou outra em frases machistas, em pensamentos machistas, em atitudes machistas.

“Era só um papo de homem.” Era, na realidade, um espaço possível para abrir nossa caixa de atrasos mentais e externamos o que lá estava. É preciso lutar todos os dias contra si mesmo para perceber o que se faz. Só quando se percebem os erros que se pode caminhar adiante. E ainda me falta muita estrada a trilhar.

O discurso ignorante do poder masculino permeia a sociedade. Não há dificuldade em se encontrar mulheres que destilem o machismo de maneira conformada, em prova inequívoca de que o discurso do dominador é tão forte que submete muitas mulheres à sua propagação.

A elas, a sociedade em geral reserva múltiplas obrigações e quase nenhum reconhecimento. Uma dicotomia que se impõe: santa ou puta. A mulher é culpada pelos pecados da sociedade cristã ocidental. Rebaixada como ser humano por quase todas as religiões. Sua feminilidade, muitas vezes, escondida por regras de vestimenta e comportamento que só se aplicam por conta dessa dicotomia e da escolha socialmente aceitável: ser santa. Ser pura. Ser casta. “Essa é para casar.”

Caso contrário, surge a puta. Aquela que tem a ousadia de ter a moral sexual de um homem. De querer galgar posições sociais reservadas apenas a quem possui um pênis. Para a defesa de seu próprio poder, o homem transforma essa mulher em produto.

E é assim que se constrói a imagem da mulher como um pedaço de carne, exposto aos olhos dos consumidores. Ela vale o quanto mede. Peito, bunda, coxa. A imposição de um padrão de beleza que aprisiona as próprias mentes femininas. Uma mulher de biquíni vende carros, cerveja e tudo o mais que se queira.

A exploração do corpo feminino é cruel, desumaniza a mulher e a transforma em objeto. São inúmeras as peças publicitárias em que elas nem mesmo são caracterizadas como um ser completo. São cortes que mostram apenas partes das mulheres para vendê-las. Um aterrorizante mercado ideológico de carnes.

São agredidas dentro de casa e na sociedade. Seja pelos punhos, seja pelas palavras. Desrespeitada em suas competências, ignorada nas promoções da empresa, com salários menores que os dos homens. É duro ser mulher. É duro ter de lutar todos os dias para não ser a própria culpada da violência de que é vítima.

Sexo frágil. Fragilidade de uma sociedade que só enxerga a mulher pelo seu sexo. Mas que diante de qualquer mulher que assuma seu sexo como fonte de prazer, discrimina-a violentamente. Paradoxos da dominação que não servem ao entendimento, mas à perpetuação de suas discrepâncias.

De repente, oito de março. A vida fica rosa (porque até as cores sofrem sua estereotipação). Um viva às mulheres! O machismo nosso de cada dia converte em comemoração o que é de fato vergonha e marca de luta. “Parabéns por ser mulher.” Não. Parabéns por sobreviver tão dignamente em ambiente tão hostil.

Celebremos a hipocrisia social, oito de março. Uma flor para as mães (santas imaculadas), para as esposas (as fiéis, é claro), para as filhas (comportadas, óbvio). Amanhã o sol raiará novamente. E sobrarão todos os espinhos.

Anúncios
Categorias: Reflexões, Sociedade | 3 Comentários

Navegação de Posts

3 opiniões sobre “Flores e espinhos

  1. Luana

    Por que uma mulher não escreveu um texto sobre a sua luta e o 8 de março? Não que o texto não seja bom (pelo menos não se auto denominou “feministo”), mas até no dia que celebra toda a hipocrisia da nossa sociedade (que não enxerga a mulher e suas lutas), um homem escreve o texto.

    • Walace Cestari

      Luana,

      Apesar de o texto ser sobre o oito de março, é mera coincidência que seja publicado no dia oito de março.

      Eu escrevo aos domingos no Transversos e, por acaso, hoje é oito de março e domingo. O texto não é uma posição oficial do blogue sobre a luta das mulheres, mas a minha visão sobre o assunto.

      As diversas colunistas do Transversos podem abordar inúmeros temas – e o fazem com uma qualidade maravilhosa – nas suas colunas semanais. Além disso, algumas delas, junto a outras mulheres de pena e mente fortes lançaram há pouco o blogue “Feminagem” (https://feminagemblog.wordpress.com), buscando tornar a luta das mulheres em algo diário.

      Espero que você tenha compreendido as razões de um texto publicado no oito de março sobre o oito de março ter sido escrito por mim, que não sou mulher.

      Amplexos,
      Walace Cestari

  2. Enviado do Outlook

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: