O que é, o que é…? Não era crime, agora é, mas ninguém vai preso

Pouco mais de 10 anos atrás, eu ingressava na carreira docente de instituição estadual tida como referência em educação profissional. Posso afirmar que, de agosto de 2003 a fevereiro de 2005, vivi anos bastante produtivos do ponto de vista político e intelectual, embora também terrivelmente desgastantes emocionalmente.

Lecionava desde 1998, mas, pela primeira vez, encontrei uma equipe docente em que todos, absolutamente todos, estavam comprometidos com a oferta de educação laica de qualidade. O brilho nos olhos era coletivo e os alunos, essenciais para a permanência desse espírito, não só nos alimentavam, como também se fortaleciam com o trabalho que desenvolvíamos. Refletíamo-nos mutuamente uns nos outros. Confiávamos em cada um de nós e, acima de tudo, nos respeitávamos, sabendo que poderíamos crescer com ideias diferentes daquelas com as quais nos afinamos.

Mas, no meio do caminho, tinha uma diretora. Tinha uma diretora no meio do caminho. Ocupante de cargo de confiança, servidora pública não estável, já que se encontrava na condição de contratada, envolvida em veredas partidárias que lhe pudessem render algum dinheiro e status, o maior desafio para ela parecia subjugar os profissionais que ali estavam. Após o canto da sereia, o que se seguiu foram inúmeras tentativas de desestabilizar a unidade do grupo. Sentia-se ameaçada, porque não estava diante de meros executores. Apesar de tantas forças em contrário, não nos conformávamos com o mero repetir de palavras secas, aprendidas em algum passado distante. Queríamos mais. Queríamos o novo, o contextualizado, a incerteza do rumo das discussões, a construção coletiva.

Éramos novos na instituição e o termo “assédio moral”, ainda pouco usado na época, não fazia parte do nosso vocabulário, embora o experimentássemos diariamente. Descobrimos, por exemplo, que havia reuniões sistemáticas com toda a coordenação presente e um único professor a fim de coagi-lo a modificar suas características, seu comportamento. Alguns eram questionados, por exemplo, quanto a serem tímidos ou sorrirem pouco, outros eram diretamente advertidos sobre a necessidade de estenderem tapete vermelho para a diretora, habituada a isso nas outras instituições por onde passou. Eu, por azar ou por sorte, me enquadrei nos dois casos.

 

 

Bem, como a prova a que me submeti foi de conhecimentos e de títulos, nunca imaginei que não ver com frequência os meus dentes causaria tanto desconforto a alguém. Se eu tivesse de ser avaliada por minha simpatia, certamente nem tentaria o concurso. Cheguei a perguntar se havia alguma avaliação negativa a meu respeito, algum descontentamento por parte dos alunos. Nada. Como já era de se esperar.

 

A equipe tão unida de que falei no início não tinha ainda alcançado um nível de cumplicidade capaz de dividir esse tipo de ocorrência. O que acontecia então? Cada um sofria sozinho a se questionar sobre seu papel e desempenho como educador. Simplesmente a forma de atuação daquela gestão, que, entre outras coisas, colocava monitor contratado para tomar conta de professores que saíam de sala para ir ao bebedouro ou ao banheiro, fazia do lugar um ambiente opressivo. Eu me sentia como se estivesse permanentemente observada do panopticon. Acredito que os monitores não se sentiam menos desconfortáveis na situação, tendo, ainda, as limitações a que são submetidos muitos dos contratados da administração pública. Calados, eles recebem salários com atraso; contestando, perdem o vínculo.

Relato episódio marcante desse período. Por conta de suas aproximações com a então governadora e com o então secretário de segurança pública, que defendia a ideia de que a classe média usuária de drogas era a grande financiadora do crime organizado, a diretora resolveu que os professores deveriam entoá-la em coro até que os alunos decorassem o jogral, trabalhando acriticamente artigo veiculado na época de autoria da minha nada estimada Lia Luft. Visão redutora e parcial. Não combinava com nossos preceitos. Propusemos um debate mais amplo, com um evento do qual participariam membros da OAB, da secretaria de segurança, de ONGs, movimentos sociais, do NA. Diante da possibilidade de abrir um caminho de reflexão mais consolidado, o projeto foi suspenso. Como criança mimada,  ela bateu pé, esperneou e não deixou a coisa acontecer.

Assédio moral é prática vexatória e constrangedora baseada na repetição. Teria muito mais coisas a dizer, mas prefiro encerrar o texto, com um sorriso e um vinco na testa. Essa instituição hoje oferece um curso sobre assédio moral. Sinal das mudanças do tempo. As questões que me intrigam, no entanto, são duas: primeiro, não soube de qualquer caso denunciado que tenha tido punição, pelo menos, administrativa; dois, o curso se destina aos servidores em geral, possíveis vítimas de assédio, para que possam aprender formas de blindar o emocional contra esse tipo de investida. O curso não se destina prioritariamente a gestores, o que equivale dizer que se continua pedindo à parte frágil da relação que tome mais cuidado para que não sofra com a prática criminosa de terceiros.

 

Anúncios
Categorias: Política, Reflexões, Sociedade | Tags: | 2 Comentários

Navegação de Posts

2 opiniões sobre “O que é, o que é…? Não era crime, agora é, mas ninguém vai preso

  1. O tema do assédio moral no serviço público me é muito caro. Também protagonizei inúmeras situações absurdas em minha instituição federal de ensino. Nas últimas duas greves, enfrentei duas comissões de ética e uma sindicância. Cada vez mais penso que devemos estimular a tomada de voz dos perseguidos, levando para além dos muros das instituições o relato dessas práticas. No final do ano passado, a Associação de Docentes da UFPR representou com êxito uma docente em causa de assédio moral institucional. Isso foi um marco e sinaliza um novo caminho, porque as práticas dos assediadores são quase sempre respaldadas na política corporativa. A luta é muito grande. Mas só de ler esse seu relato, já me senti mais forte por saber que cada vez mais pessoas se dispõem a falar sobre esse tema tabu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: