Fora Dilma! (mas, fica Levy!)

ideimarcha da familia 5

Diga-me com quem andas, só então direi se vou contigo. Hoje é o dia em que as ruas prometem lançar sobre a nação toda a indignação da sociedade. Poderia ser algo como o mencionado por Vandré: “pelas ruas marchando indecisos cordões”. É isso tudo. E nada disso ao mesmo tempo. O paradoxo saiu às ruas para passear e fazer-se contradição em plena luz do dia.

Longe de mim condenar qualquer protesto. A praça é do povo, tal qual o céu é do condor, ainda que nem toda ave cante o canto que nos agrade o tanto. A revolta da classe média enfurecida, convocada em massa pela mídia, no domingo – dia de folga da empregada – tem o direito de ganhar as ruas para gritar contra o governo.

Vou além: reconheço que não há golpismo na esmagadora maioria dos que sairão às ruas. “Fora Dilma” é palavra de ordem tão justa quanto “Fora FHC”, gritado à exaustão no governo tucano, desde sua reeleição em primeiro turno. Ignoremos os idiotas intervencionistas, eles são só idiotas mesmo.

O que diminui o ato, de fato, é o que ele representa e a falta dos quereres nos lugares dos saberes. Isso torna a coisa quase patética. É o “fora Dilma, fica Levy”. Na sexta-feira, o protesto era de quem apoiava Dilma (nunca vi passeata a favor…), mas criticava sua política econômica. Hoje, temos quem quer tirar a Dilma e colocar outro, desde que seja para fazer as mesmas medidas de hoje adotadas.

Isso revela apenas que a questão já não é mais programática. É a simples briga de quem deve sentar-se na cadeira. Não é pelo fim da corrupção, mas pela mudança de quem recebe a propina. Afinal, o discurso impoluto da moralidade gritada nas avenidas dos protestos esconde desde aqueles que têm suas reservas escondidas na Suíça até os usuários do Windows pirata ou da carteirinha de estudante falsa, da cervejinha do guarda… A culpa, invariavelmente, é do PT.

O PT fez por onde merecer toda essa reação. Entrou no jogo do capital, participou de sua democracia prometendo não alterar seus alicerces, fez acordos e inúmeras concessões. Não tem hoje o direito de criticar o modelo “democrático” que defendeu e participou. A carta aos brasileiros, antes da eleição de Lula já sinalizava a capitulação a que se propunha o partido vermelho.

Ainda assim, muitos companheiros da esquerda contentaram-se com as migalhas populistas propostas pelo PT. Em momento algum o partido teve coragem de propor qualquer rompimento com o capital, pelo contrário: o PT tem a marca da conciliação. Sua tentativa de colocar anteparos à luta de classes suportou quase uma década, no entanto agora falha catastroficamente.

Ao se colocar favorável a uma política nacional-desenvolvimentista, distribuiu renda como forma de escapar – sempre preservando os interesses do capital – da crise que se aproximava. E isso lhe possibilitava o populismo social. Uma política de inclusão no mercado. O pobre brasileiro pôde sustentar os altos lucros da indústria nacional, pôde endividar-se no sistema financeiro. Transferência de renda para o pobre poder transferi-la ao empresário. Enfim, o aumento da renda serviu para a expansão da política desenvolvimentista, em um claro pacto sociorrentista.

Ao longo do tempo, as forças liberais, pressionadas pela crise mundial, não conseguiam expressar uma oposição consistente à política desenvolvimentista. Mas, eis que a crise mundial arrefecia e as políticas de juros mais baixos foram ficando insustentáveis para o mercado financeiro. Sem a crise, o pensamento liberal ganha seu espaço, o mercado reivindica o que pensa ser seu.

Buscando, de todas as formas, evitar qualquer acirramento da luta de classes, o PT acendeu velas para todos os santos que conhecia e até mesmo aqueles em que não acreditava. Aliou-se com quem quis a ele se aliar, independentemente de qualquer ideologia. E ainda hoje, há quem sonhe com um pacto nacional com FHC.

Inconsequente, o PT não agiu ideologicamente nos anos em que esteve no governo, apenas administrou o capital, foi lacaio cumpridor de ordens superiores e essa covardia diante de seus ideais históricos gerou-lhe os problemas de hoje. O pobre que ascendeu à classe média incorporou também o seu discurso. E muitos vão hoje estar nas ruas, provando a existência desse paradoxo torto em que vivemos.

O partido, repartido como sempre, é palco de lutas autofágicas pelo poder. A corrupção fez metástase no Partido dos Trabalhadores que lotou e subverteu inclusive os movimentos sociais, desmantelando-os. Uma legião de sindicatos cooptados e alguns deles bandeados para o lado patronal é o saldo triste de um governo de capitulação.

A economia não dá mais a sustentação para o pacto desenvolvimentista proposto pelo PT. Os anteparos da luta de classe não são mais eficazes. O aparelhamento do Estado e a corrupção endêmica não são invenções do PT, mas são suas capitulações. Levam hoje, merecidamente, as mesmas pedras que já atiraram um dia.

E que fique claro: são duas visões de administração do capital em choque. Nenhuma delas traz nada de bom ao conjunto dos trabalhadores no decorrer do tempo. Quem marcha o faz sem saber por quê, mas ajuda quem tem conta no HSBC. Cheio de furos, como um queijo suíço, o PT também faz parte disso. Sua corrupção foi tanta – corrompeu sua própria ideologia – que chegou a roubar as medidas que seriam tomadas pelo Aécio. Desespero.

Enfim, dia quinze de março. Dia da posse dos presidentes militares, de Sarney e de Collor. O capital colocou seu bloco na rua, o dia da cobrança chegou. Venderam-se sonhos, ideologias e pessoas. O PT se vendeu. E quem se vende recebe sempre mais do que realmente vale. E eles estão na rua para cobrar o troco.

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Categorias: Política | 9 Comentários

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9 opiniões sobre “Fora Dilma! (mas, fica Levy!)

  1. Perfeito como sempre, Walace! Sinto que o que mais me deixa constrangida nesse momento é o fato de, no pacote de medidas tomadas para recolocar a economia “nos trilhos”, mais uma vez ter sido ignorada a reforma tributária, com a taxação das grandes fortunas, e o aumento da taxa de juros ter sido promovido duas vezes nesse ano, aumentando o lucro dos bancos. Acho que é exatamente essa covardia em escolher o lado dos trabalhadores que mais incomoda a todos nós.

  2. Liomar

    O PT tem uma conta alta pra pagar, resta saber se vai pagá-la ou aumentá-la nos próximos dias nos acordos de governança, aposto nessa última opção.

  3. Paloma Loureiro

    Walace, concordo plenamente que essa capitalização do PT foi um dos seus maiores erros e que gerou todos os atuais erros do partido. Não o defendo, só de verdade não consigo acreditar que a briga não é pela mudança e sim “por quem vai sentar na cadeira”.
    Eu votei nela por achar que era a melhor opção até então e esse ” até então ” se mantém.
    A Globo está mudando inclusive as lentes e comparando com as manifestações de 2013, ou seja, é uma luta de grandes. Espero sim que a Democracia prevaleça, no entanto que ela não seja feita somente para as que mal sabem onde uma panela fica e ainda sim foram as varandas protestar por menores valores do victoria secrets.

  4. Equívoco Humano

    A desonestidade do autor do texto se revela no Fica Levy, ninguém pediu isso…Pura ficção e manipulação do autor.

    • Walace Cestari

      Já estava com saudade de sua presença paga aqui.

      • Equívoco Humano

        Pago? Tu acha mesmo? Tu não acha que se fosse pago, eu pelo menos não teria um português melhor? E tu acha que tens tantos leitores assim, que precise ser combatido por alguém pago? Isso mostra duas coisas: 1 Estou te incomodando; 2 Teu cérebro tem um tamanho inversamente proporcional ao teu gigantesco ego. Basta de ficção!!! Não sinta saudade escrevi em outros textos do Transversos.

  5. Walace Cestari

    Equívoco, meu caro sulista (ops, minha cara, porque és mulher), eu adoro tua irritação. Não me incomodas, me divertes. Pouca gente é leitora tão fiel e prende-se tanto à covardia do anonimato como tu.

    Tens mais comentários neste blogue que eu de postagens. Felizmente, tenho tantos leitores que por vezes não te dou atenção. E não é preciso ser pago para ter um “português melhor”, até porque estes teus erros são fake: quando contribuías para o Transversos, teus textos não tinham esses erros todos.

    Amplexos.

    • Equívoco Humano

      Cara, isso é para lá de surreal, eu sou pago, ou melhor sou paga, sou mulher e escrevia para o Transversos, sou de Porto Alegre, isto é verdade. Agora eu entendo o teu gosto pela ficção, tu fantasias até com os críticos. Antes eu escrevia com o meu nome Felipe, mas alguém deste blog, me chamou de “Equívoco Humano”, não lembro quem, considerando até um elogio, vindo de quem veio, adotei. Primeira vez que escrevi foi num texto teu sobre a classe média. Ainda era Felipe. Ja fiz muita coisa nesta vida, ja fui anarquista, socialista, comunista, mas nunca troquei de sexo. Não te iludas não escrevo para chamar tua atenção. Chamo atenção para as invenções dos teus textos, este começa pelo título.

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