Comoção: bibelôs-sereia e suas roupas e decotes nas redes sociais

segundo sexo

No começo do ano, o episódio envolvendo os comentários de Cora Ronai e Miriam Leitão à indumentária da presidente Dilma durante sua posse ganharam ampla repercussão nas redes sociais. Gente apontando o dedo para as duas primeiras que, segundo alguns, estariam bem longe dos modelos de beleza e elegância que estariam a exigir da reeleita; outros a ratificarem as críticas, numa lamuriosa revisita a nosso complexo de vira-latas; outros ainda (e fecho com estes últimos) a analisarem a evidência não só de uma estratificação cultural de gostos, mas também da voz opressora do patriarcado que espera de uma mulher atributos para além da inteligência ou da competência.

Não é a roupa que ela usa ou a forma como se movimenta fisicamente que deveriam ser a tônica dos debates, mas sim as máscaras dos partidos, a movimentação das alianças e o fatiamento dos ministérios. O próprio discurso de posse chamou atenção para duas questões: a afirmação do combate à corrupção “doa a quem doer” e a atualização do lema de governo para “Brasil, pátria educadora”. Isso por si só renderia discussões bastante interessantes sobre os mecanismos de controle social da corrupção, as políticas públicas de educação e as implicações do discurso conservador aliado ao uso do substantivo “pátria”.

Em  06/04/14,  a Folha de São Paulo publicou matéria sobre as “galerinas,  garotas que ajudam a vender obras de arte nas galerias. Caracterizadas preconceituosamente como “lindas, bem nascidas e bem vestidas”, o jornal ainda as compara a “bibelôs bem lustrados para atrair o olhar dos colecionadores” (de arte ou de mulheres?), “item obrigatório  no acervo de qualquer galeria de arte”.

galerina

Juliana Brito, uma das galerinas entrevistadas a reproduzir o discurso do patriarcado

Em 16/08/14, nosso colunista Moacir de Sousa tecia, em sua página pessoal no facebook, considerações críticas à campanha eleitoral de Romário (PSB), tratando, entre outros detalhes da produção, da existência de “romaretes — responsáveis por distribuir seus panfletos e despertar a simpatia dos torcedores-eleitores. Abrindo caminho para Romário, vão três ‘romaretes’. Ao todo são oito meninas, sempre devidamente maquiadas e com lindo sorriso no rosto”. Segundo um dos eleitores potenciais, “É simpático. Mulher bonita sempre combina com futebol”.

romaretes

As “romaretes”, nascidas em berços diferentes das galerinas e uniformizadas, mas igualmente exploradas como chamariz

No domingo 15/02/2015, o jornal O Globo publicou em sua primeira página matéria intitulada “‘Calouras’ causam comoção entre veteranos na Câmara” . Nela, as deputadas Shéridan Estérfani (PSDB-RR), Brunny Gomes (PTC-MG) e Clarissa Garotinho (PR-RJ), jovens, brancas, magras, de cabelos longos, são retratadas como peças decorativas, valendo mais pelo que trajam do que pelo que pensam ou pelas trajetórias que as conduziram ao meio político.

comocao

Poses quase idênticas para um olhar cobiçador que as lança na mesma objetificação

No dia 15/03/15, a seção de Política do Último Segundo do IG, destaca em galeria de fotos “as gatas das redes sociais nos protestos do dia 15”.

gata do protesto

Uma das musas do “maior protesto democrático brasileiro”, ainda que se proteste pelo direito de não mais protestar. Contraponto aparente às manifestações de junho de 2014, em que só divulgavam imagens de black-blocs e algumas manifestações de protesto mais reativas. Por que será?

O que podemos observar nesses episódios? A objetificação da mulher, com o uso de um discurso de enaltecimento da beleza, por trás do qual reside uma definição de papéis sociais e de gênero marcadamente definidos pelo patriarcado: a mulher como acessório das ações masculinas. E, mesmo quando ocupadoras de cargo eletivo, a manchete da matéria em que aparecem destaca, mais uma vez, a reação masculina às suas presenças. Encontramos, ainda, o reforço de padrões estéticos normatizadores, com a construção da imagem-sereia, mulheres que com seus encantos atrairiam ricos compradores às galerias e pobres eleitores-torcedores às urnas. Para compreender melhor essa questão falocêntrica e androcêntrica, estou lendo o clássico O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, indicação das colunistas Sabrina Guerghe  e Andreia B. de Oliveira, parceiras de blog feminista, semeado ainda nas discussões fomentadas pelo Transversos . Leitura imprescindível para aprofundar a reflexão sobre o assunto.

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Categorias: Mídia, Política, Sociedade | Deixe um comentário

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