Eu versus nós

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De repente, já não havia mais nada. Eles venceram e conceituaram a verdade como quiseram. E houve quem acreditasse. Ainda há.

Em um átimo, tudo era o ruim e tudo era o PT. Mas o que se escondia por trás desse discurso era pior que governo, é assassinato ideológico, será a demonização da história.

O maior roubo do Partido dos Trabalhadores não ocorreu na Petrobras ou no Congresso. São milhões desviados pelo mesmo princípio (ou falta dele) que outros fariam. E fariam mesmo. Sem os mesmos pudores. Pudera.

O maior de seus crimes foi roubar a esquerda. Validar uma crítica do que não somos. Transformar uma ideologia, um pensamento, uma forma de lutar por direitos em caricaturas, em chacota.

Tudo isso, sem que, em qualquer momento, houvesse preocupação efetiva com o coletivo por ser coletivo. Fomos vendidos sem procuração por quem servia ao capital.

Daí chovem críticas. A nós, como se eles fôssemos. Criam-se factoides de ditaduras comunistas, com gritos de ódio contra o que não entendem. A pintura no quadro vendeu-se como verdade nas ruas.

De fato, a esquerda não goza do monopólio da bondade. Da mesma forma que as pessoas de “bem”, via de regra não são e, se são, não são as únicas a poder ser.

A questão reside, grosso modo, na dicotomia coletivo x individual.

O pensamento liberal-direitista defende que o livre comércio, a diminuição do Estado e de seus gastos levará a uma situação de equilíbrio, onde a própria competição tratará de possibilitar a todos uma inclusão no “maravilhoso” mundo dos bens.

Nada mais falacioso, já que as assimetrias existentes não permitem que isso de fato ocorra, pelo simples fato de que não dá para imaginar que, em uma corrida em que alguns têm motores a jato e milhões estão a pé, haverá qualquer possibilidade de disputa.

O individualismo leva à noção do mérito, algo que todos devem ter para conquistar suas posições sociais e econômicas. Isso é a defesa da liberdade, cada um será livre para ter o que é seu, o que merece, o que conquistou. Lindo, não é?

Ora, sem igualdade de condições, como haverá essa liberdade? Não precisamos nem mesmo chegar ao exemplo da fome para criticar a ideia, podemos usar exemplos do próprio capital. Empreender é possível para todos? As taxas de financiamento são iguais e globais? O desenvolvimento e a capacidade tecnológica estão ao alcance de todos? A liberdade, nesse caso, é apenas desculpa para justificar privilégios de quem já tem a posse do mercado que quer.

O curioso é que o individual é protegido economicamente, seus bens e meios de produção – adquiridos historicamente – são direitos inalienáveis e fruto da meritocracia. Entretanto, o padrão de consumo e a imposição de um modelo para o “sucesso” são absolutamente padronizados, vendidos coletivamente.

O menino da favela enxerga o “ter” como mais importante do que o “ser” ou de seu “estar” da mesma forma que seu par na Vieira Souto. Para um deles é vendido um modelo cujas assimetrias reais jamais lhe permitirão alcançar. Daí, a responsabilidade foi só dele. Faltou-lhe mérito. Menos “Mises-en-cene”, por favor.

Mas essa mesma direita-liberal-com-o-capital ignora liberdades realmente individuais. O Estado, que não deve se meter na vida econômica, deve regular e proibir quem casa com quem, o que é legal de ser consumido ou não e por aí vai.

O contraponto é que a esquerda não é a representação do bem, mas do coletivo. As coisas coletivas devem ser tratadas coletivamente e o Estado deve ser capaz de assegurá-las. E os interesses coletivos se sobrepõem aos méritos e posses individuais, em especial quando atacam as assimetrias existentes.

Ao ver o governo do PT, percebe-se claramente de que lado se coloca. Nada ali foi feito por princípio. Dirão alguns que o PT distribuiu renda como nenhum outro e que isso é pensar no coletivo. Na verdade, as ações serviram para estimular a entrada de um contingente enorme de consumidores para sustentar o desenvolvimento industrial e comercial em tempos de crise.

Os milhares colocados nas universidades lá estão às custas de uma transferência brutal de dinheiro público para os cofres das universidades privadas. O consumo, que aqueceu a economia, fez devedores eternos dos financistas, com suas altas taxas de juros.

O PT garantiu crescimento e lucros exorbitantes às montadoras de automóveis, aos grandes empresários e aos banqueiros. A riqueza distribuída voltou para a mão daqueles que sempre acumularam e que passaram pela crise mundial do capital com um sorriso na mão e uma marolinha no horizonte.

Contudo, quando o capital cobra a conta, vemos para quem tudo isso foi feito. Na crise, ninguém cogita suspender o pagamento dos serviços da dívida – na casa das centenas de bilhões – porque esse é o compromisso com a subserviência ao capital. Os cortes são sempre para quem está desse lado da assimetria, na conta da população em geral, nos direitos coletivos.

Uma alternativa de esquerda verdadeira deve se formar para se contrapor a uma hegemonia de pensamento único com denominação ambígua, que só serve para nos aprisionar. Não uma esquerda aquela passadista, de ares ditatoriais e que confundia a atuação forte do Estado com o controle total e ditatorial de sua população. Mas uma que estabeleça o coletivo como prioridade e demonstre que a liberalidade é o benefício de uns sobre a pobreza de muitos. Liberdade só existe se for para todos.

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Categorias: Política, Reflexões | Deixe um comentário

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