O fantoche liberal

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O paradoxo político brasileiro começa a definir-se de maneira mais clara. O presidencialismo de coalizão faliu por completo e não reside mais na Presidência da República o poder que emanaria do povo.

A tendência à ingovernabilidade, causa do intervencionismo do Executivo no Legislativo – por meio de compra de votos, cargos e vantagens – não é novidade. Promulgou-se uma Constituição parlamentarista que não contava perder o plebiscito de 1993. Decretou-se, portanto, o paradoxo como paradigma.

Mas só no segundo governo Dilma a coisa chegou à ruptura: Eduardo Cunha tomou de assalto o posto de Primeiro-Ministro que jamais existiu, com assessoramento de luxo de Michel Temer, um reconhecimento por parte da cúpula do PT de sua perda de comando do país.

Dilma é Chefe de Estado não de Governo. O PMDB passou seu trator no parlamento e postulou agenda própria, governando por sua pauta sem o menor pudor ou qualquer possibilidade de remorso. Afinal, façam o que fizerem, a culpa será do PT.

Da mesma forma que o poder político, ruiu o modelo econômico neodesenvolvimentista implantado pelo PT desde 2002. A nova ordem vai além dos interesses da burguesia nacional presos à tentativa de contemporizar a luta de classes. O PT paga caro por ter assumido o papel de Fausto. O diabo sempre cobra a alma dos que se vendem.

A crise mundial do capital arrefece e os países centrais retomam algum crescimento. A necessidade do fluxo de capitais aumenta e isso significa o fim do desenvolvimentismo em países periféricos. Levy, que governa a economia do país, implementa, sob aplausos dos liberais, políticas de redução do gasto público, ajuste fiscal e medidas de austeridade que freiam o desenvolvimento produtivo e revigoram as operações no mercado financeiro.

O preço da crise da má governança econômica do PT é pago  pela “sociedade”, desde que esse conceito seja aplicado tão somente à massa trabalhadora. Nenhum centavo é retirado dos gastos do serviço da dívida – leia-se pagamentos de juros – que, só em 2013 chegou a 900 bilhões de reais, ou 42% do orçamento da união.

Porém, a contenção é feita nos direitos dos trabalhadores, nos impostos das pessoas físicas e nas áreas de atuação social, como saúde e educação. O cinto tem de apertar. Mas na cintura de quem? Como consequência, os juros sobem e aumentam ainda mais o lucro de quem os financia. Pagaremos ainda mais para ter cada vez menos.

A Petrobras, ícone da corrupção governamental, foi castigada pela mídia, com publicação diária de suas baixas na bolsa de valores. Quando atingiu-se um valor ótimo para a especulação, quando os grandes interessados puderam aproveitar a promoção de preços de nossa estatal, sumiram as notícias. Nos últimos trinta dias, as ações da empresa já valorizaram 40%. Quem lucrou? A quem serve o noticiário?

E, como consequência mais desastrosa e funesta de um parlamentarismo oculto no Congresso mais retrógrado de todos os tempos, a política de que o capital não pode perder apresenta sua face em forma de precarização do trabalho.

O capital industrial nacional, beneficiado ao longo da década com políticas de subsídio e de ampliação do mercado, não poderia ficar sem sua contrapartida em um momento de mudança dos rumos econômicos. O Estado Mínimo tem de beneficiar o capital financeiro, sangrando o povo, mas deve manter o “paciente vivo”, permitindo altos lucros à burguesia industrial nacional.

Antes que venham as críticas de que essa é uma análise “marxista”, faço a promessa de citar Adam Smith, pai do liberalismo, doutrina defendida por grande parte das pessoas que não leu Adam Smith.

Antes, porém, vale lembrar da Dama de Ferro, Margaret Thatcher, e do fanfarrônico ator-presidente Ronald Reagan, introdutores, entre muitas outras perversidades neoliberais, de doutrinas e desregulamentações econômicas que permitiram a ampliação inacreditável da acumulação de capitais e introduziram o desemprego estrutural como forma de controlar os ganhos dos trabalhadores.

O liberalismo nos ensina que a concorrência faz diminuir os preços. É a mão invisível do mercado operando em busca do equilíbrio. E, entendedores entenderão como isso se aplica – em ode trágica – à aprovação do projeto de regulamentação e ampliação da terceirização.

Podendo agora terceirizar qualquer setor de sua produção, as empresas aumentam a possibilidade de concorrência por esses postos de trabalho: além dos profissionais da área, empresas de serviços podem também oferecer seus préstimos. Assim, a tendência é que as empresas possam economizar, já que o “preço” da mão-de-obra, com a concorrência, tende a diminuir.

Segundo Smith, em A Riqueza das Nações, “os patrões estão sempre e em toda parte em

conluio tácito, mas constante e uniforme para não elevar os salários do trabalho acima de

sua taxa em vigor”.

Sim, tudo isso é previsível, e o próprio Smith continuava: “os trabalhadores desejam ganhar o máximo possível, os patrões pagar o mínimo possível. Os primeiros procuram associar-se entre si para levantar os salários do trabalho, os patrões fazem o mesmo para baixá-los. Não é difícil prever qual das duas partes, normalmente, leva vantagem na disputa e no poder de forçar a outra a concordar com as suas próprias cláusulas.”

Smith, seu maldito comunista! Cabe lembrar que hoje já existe a terceirização e os trabalhadores terceirizados trabalham mais e ganham  30% menos que os outros. Seguramente, os postos que já são terceirizados não sofrerão mais com o projeto.

A terceirização – ó trágica ironia! – atingirá os setores que hoje são ocupados, principalmente, pelos trabalhadores da classe média, aquela que vai às ruas pedir o fim da corrupção e o fim da “ditadura comunista” do PT, torcendo por um programa econômico de medidas impopulares como as propostas do Aécio – ainda que sejam essas mesmas as ações tomadas por hoje.

São esses trabalhadores que perderão a concorrência meritocrática para os terceirizados, menos especializados e mais baratos – preço também é mérito para o mercado lucrativo. Ficarão a esmo nas ruas pedindo algo que não saberão mais o que é. Os sindicatos, cooptados pela estrutura falida já mais ninguém representam e o cenário torna-se sombrio. Pelo menos, os filhos da classe média vão poder se ocupar como terceirizados em lugar de gastar horas se preparando para concursos públicos que desaparecerão ao longo do tempo.

Isso ocorre por conta de assumir-se no país a identidade periférica que o mundo do capital lhe dá. Este é o espaço do país e para isso que serve. Não há preocupação com o bem da sociedade – o capital é internacional e não se importa com nada além de suas matrizes e, assim, aqui na periferia, significa tão somente alcançar altas taxas de lucro. Como diria o revolucionário e esquerdista Adam Smith:

“A taxa de lucro não aumenta com a prosperidade da sociedade e não diminui com o seu declínio. (… ) Ao contrário, essa taxa de lucro é naturalmente baixa em países ricos e alta em países pobres, sendo a mais alta, invariavelmente, nos países que caminham mais rapidamente para a ruína. Por isso, o interesse dessa terceira categoria não tem a mesma vinculação com o interesse da sociedade como o das outras duas.”

Pense você a respeito se o que se faz aqui busca prosperidade social com baixos lucros ou políticas de maximização de lucros. Entenda assim o papel do Brasil no cenário mundial. Perceba que, mesmo no ideário liberal, estamos sendo terceirizados da economia mundial. E hoje, os que vão às ruas serão mandados de volta a elas por seus patrões dentro em breve.

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Categorias: Política, Sociedade | 9 Comentários

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9 opiniões sobre “O fantoche liberal

  1. Helio de Souza

    Análise superficial, cheia de chavões, equivocada.

    • Vanov

      Concordo… muitas pessoas pobres tem empregos CLT em empresas e já ganham bem pouco… agora vir dizer que “principalmente” a classe média está nas vagas é muito forçado… vamos lá, todo mundo concorrendo pra ver quem fica com menos migalhas e não morre de fome no final!

      • Walace Cestari

        Vanov, a lógica é que as terceirizações já são frequentes nas empresas nos cargos mais simples. Há mais campo para se terceirizar nos cargos médios e superiores que em outros. Como são cargos de salários mais elevados, baixar esses custos é algo recomendável pelo pensamento empresarial. É simples questão de número, quantidade e oportunidade.

    • Walace Cestari

      Indique-me os chavões, os equívocos da análise e como devo aprofundar-me. Seria de grande valia para mim ter mais consistência no que escrevo.

  2. Mônica Cyríaco

    Como sempre brilhante a sua análise. Somos os terceirizados da economia mundial, e essa roda que faz o capitalismo girar não parece sofrer nenhuma oposição. Acho que vamos pouco a pouco nos transformando num mundo dos divergentes, em que a ficção vai imitando a vida.

  3. Equívoco Humano

    Fico pensando, quando verei uma crítica real. O governo está sendo entregue, porque nunca se quis governar. Dois objetivos eram claros ganhar o máximo possível e se manter no poder, medidas populares para se manter e enriquecer custe o que custar. Petrobrás, Copa, Mensalão, correios, BNDES, 39 ministérios, Porto em Cuba, infra-estrutura em Angola, transformação de dívida Externa(chupa FMI) em Dívida Interna. O bolsa família não serviu só para comprar voto, mas iludir alguns intelectualóides idiotas. E agora? O preço começa a ser cobrado. Rápido e amargo, estaremos agora sim, jogando no lixo reais conquistas das classes trabalhista e muito devido a autores deste blog. Aqueles que defendiam o mal menor, parábéns!!

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