Índio não é gente!

19 de abril: Dia do Índio. E daí? Quem liga pra isso? Por que ainda tem índio neste país? Já não bastam todos os demais problemas sérios? Índio não é nada, não serve pra nada, é menos que bicho! Índio não é brasileiro, não é de lugar nenhum. Arranquem esses parasitas das terras onde se amontoam. Índio é um mal, uma vergonha nacional! Índio é lixo ambulante! Índio não é gente! Cuspam nos índios, limpem os pés neles, acabem logo com todos eles, em nome da decência, do bom senso, do progresso do país, da civilização, de Deus.

Ninguém liga pra índio! Essa é a mais crua verdade. O tal Dia do Índio foi instituído, vejam só, pelo populista e ditatorial governo Vargas. Ano após ano, homenagear essa data é caracterizar as crianças de patéticas caricaturas de supostos indígenas, a emitir uma vocalização entrecortada por palmadas na boca. Sequer está em jogo alguma etnia, cultura ou nação indígena em especial. Pra quê? Índio é tudo igual, tudo a mesma porcaria mesmo, afinal.

E assim segue o país saltando levemente de sua amnésia com relação aos indígenas uma vez por ano. No mais, sobra ainda um resquício de visão romântica dos habitantes originais da terra, visão construída em deletéria idealização pela arte brasileira do séc. XIX e ainda hoje persistente. Tal idealização só serviu pra afastar o índio verdadeiro ainda mais de qualquer perspectiva real de coexistência com o resto do país, que sequer os reconhece como brasileiros efetivamente, em ironia que atropela o intento idealizador romântico insistente.

 

Enquanto continuam a ser romantizados, idealizados, o genocídio sem fim de suas culturas e corpos segue incessante. Aliás, matar índio é um dos grandes elos de continuidade entre o Brasil colônia e o Brasil independente. Atribuir isso aos portugueses tão somente é ingênuo e dum cinismo calhorda.

Fonte: censo IBGE, 2010.

O Brasil, junto com os EUA, é o país do globo que mais exterminou sua população nativa. No início do séc. XVI, a população indígena estimada no país era de 5 milhões de pessoas. Hoje, segundo o censo mais recente do IBGE, são um pouquinho mais do que 800 mil. Um decréscimo de quase 7 vezes! Ao mesmo tempo, em fins do séc. XVI, a população geral do Brasil rondava por volta de 8 milhões. Hoje, esse número aumentou em 23 vezes, atingindo 191 milhões, segundo a mesma fonte. É uma chacina secular e com a mais ampla cumplicidade social possível. Muitas barbaridades da colonização e, depois dela também, foram perpetradas por portugueses, claro, mas também por brasileiros, por luso-brasileiros e braso-portugueses. A vitimização histórica em torno dos índios, reivindicando o martírio deles como de todo o país, não passa de dissimulado e enojante cinismo de um Estado e de uma população que os ignoram, de todo, como seres até hoje. Os dados sobre línguas nativas são alarmantes, num nível só comparável, de fato, ao visto nos EUA. No início da colonização, elas eram estimadas em mais de 500; hoje são cerca de 170; até o fim do século, podem ser metade. Segundo a Associação Internacional de Linguística (SIL)[1], dezenas de línguas brasileiras estão em extinção, com exíguas possibilidades de alcançarem o fim deste século. Muitas delas têm apenas poucas centenas de falantes, quando não menos de uma centena. Na comunidade linguística nacional e internacional paira a percepção velada, por vezes, explicitada de que é necessário descrever essas línguas o mais rápido possível, pois, em pouco tempo, esse será o único rastro humano e cultural de tantos povos. Muitos jovens índios têm vergonha de falar sua língua nativa, o que é o auge do processo de extinção cultural: de chorar! É muito triste e cruel!

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No Brasil, o racismo anti-indígena é tão estrutural e enraizado que fez até do negro homem branco. Sim, racismo! Costumamos pensar nele só em relação aos negros, mas, quanto aos índios, ele é tão naturalizado que soa normal. É asqueroso!

“Eles vivem na floresta amazônica, sem contato com o homem branco…”

13/08/2013, Jornal “Hoje”, Rede Globo

Em pleno século XXI, ainda nos referimos aos índios como seres que se contrapõem ao homem branco. Que preço historicamente caro eles pagaram por não se “civilizarem”, até hoje.

A violência do preconceito racial anti-indígena é grotesca demais. Vejamos mais alguns exemplos:

dia do indio 2

É mal mesmo! A começar pela indistinção entre o adjetivo “mau” e o advérbio “mal”. Só o comentário linguístico seria indício de tendência preconceituosa. Além disso, por que associar os indígenas a isso, apontando pra perspectiva de ridicularização deles?

dia do indio

Enojante! Muito preconceito numa mensagem só: linguístico e racial anti-indígena! De onde se tirou que índios falem assim? Quais, de quais nações? Caso alguns falem português assim, o que há de ridículo nisso, a partir da língua nativa dos que o façam? Possivelmente há em sua língua motivações a isso. Mas, sobretudo, é curioso ver que os mesmos apatetados que, linguisticamente, consideram tal uso alvo de ridicularização falam coisas como “Deixa ela entrar”, tão fora da língua padrão, quanto o que criticam e pelo mesmo princípio geral, diga-se de passagem.

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A proliferação da desinformação imbecil! Como assim não se deve  usar “para mim”. ÓBVIO que sim! Antes de verbo, inclusive. Aliás, pra mim explicar tudo isso está a ser bem constrangedor. É duro. O “pra mim” ali atrás é um adjunto adverbial o qual, em escrita rigorosa, deveria estar separado por vírgula, mas que pode aparecer sem ela, em formatos menos formais.

Será que a esta altura este texto já virou um… “programa de índio”?!

Agora, pense… já ouviu falar de crime de racismo contra índios?! Pois é… é que índio não é gente mesmo, no Brasil!

Se chegou a este ponto do texto, te convido aa leitura dum texto anterior meu sobre o tema: Amána.

Mas, voltando aa questão cultural, só pra desfazer o mito de que índio é tudo igual, abaixo um mapa de famílias linguísticas indígenas. Atenção! Não é de línguas não, mas de famílias linguísticas.

indigenas- familias linguisticas

Note que tupi-guarani não é uma língua, mas sim um grupo de línguas, ou seja, uma família linguística, assim como há a família latina, a germânica, etc…

[A canção, do Midnight Oil, é, originalmente, sobre indígenas australianos, mas vale para os de todo o globo. LInda montagem de imagens!]

Os livros de história, em geral, não tratam disto, mas a violência linguístico-cultural, fora a física, claro, empreendida sobre os povos nativos brasileiros é do nível da atrocidade mais bárbara possível. É comum em nossa história que índios tenham tido línguas (o órgão mesmo) cortadas, olhos furados, dentre outras formas de covardíssima tortura pelo simples fato de falarem sua língua. Desses, destaca-se o estupro de mulheres indígenas, prática das mais comuns na nossa história. Pasmem, até a primeira metade do século XX, tal conjunto de práticas ainda existiu. Ora, na mesma primeira metade desse século, minha avó materna, índia, foi aprisionada no interior de MG e feita escrava.

Muita gente desconhece, mas, até o século XVIII, o Brasil não falava português, aa exceção de uma pequena elite colonial. A língua, chamada inclusive de “geral”, era o NHENGATU, o qual teve seu uso tornado CRIME pelo famigerado decreto do Marquês de Pombal, no ano de 1757. A partir daí, o português se alastraria pelo país. Para maiores informações, sugiro, dentre tantas outras possibilidades: http://www.filologia.org.br/anais/anais%20iv/civ12_9.htm.

dia do indio 4Enfim, espero que este texto sirva pra convencer da existência de um brutal racismo anti-indígena e dissuadir da continuidade dessa prática vista como natural, mas que, na verdade, reforça toda uma lógica de genocídio físico e cultural colossal e sem igual em nossa história. É verdade que os índios são dizimados cotidianamente no país por disputa de terras, contra latifundiários, fazendeiros, com vista grossa dos governos seguidamente, mas também com o aval e anuência de todos que proliferam o círculo de segregação racial contra indígenas, por meio de valores, atos e falas. Tanta gente que se acha defensor da causa de minorias propagando racismo anti-indígena. Não seja racista!

[A canção, muito boa por sinal, é de uma banda indígena mexicana que canta em língua nativa, o tsotsil, falada principalmente na região de Chiapas. O México não trucidou seus nativos no mesmo nível que nós.]

indios 2

GENTE! Seres com o pleno direito humano de ser!

P.S.: está em pauta no Congresso uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional), a 215, que transfere do Executivo para o Legislativo o poder de demarcação sobre terras indígenas. Várias nações indígenas têm protestado unificadamente quanto a isso, até porque sabem que, a partir daí, a demarcação de suas terras ficará a mercê de lobbies, interesses casuísticos e comprometimentos com financiadores privados de campanhas.

[1] Ver dados em http://www.ethnologue.com/country/BR/languages e http://www-01.sil.org/americas/brasil/SILling.html.

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Categorias: Cultura, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , , , , , , | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Índio não é gente!

  1. Flavia Belo

    Eles se contrapõem ao homem dito “civilizado”, no sentido de viverem totalmente em harmonia com a natureza. Por isso, pagam caro até hoje por não se “civilizarem”. Há muito preconceito mesmo, como todo preconceito, causado, na maioria das vezes, pela ignorância, descaso. Talvez seja meu caso, quando, muitas vezes postei no facebook sobre o “mim ser índio mau”… e embora eu tenha mesmo cometido “uma violência do preconceito racial anti-indígena [que] é grotesca demais”, posso afirmar, porque eu sou eu e acho que posso falar o que vai em meu sentimento, em meus pensamentos, que jamais tive essa intenção de violência. Então, a partir do que posso julgar de mim mesma, creio que é o que ocorre com a maioria das pessoas que cometem tal violência: ignorÂncia, descaso, e este último, com seu sentido de “desatenção” mesmo!!! Que dizer mais?! Que é preciso “provocar” cada vez mais e fazer despertar o raciocínio das pessoas para esta realidade. Pois sei, ao menos a partir de mim, que não é possível que essa violência ocorra intencionalmente e conscientemente. Há que se provocar… só há um grave problema: as pessoas vivem mencionando aquela “dupla sertaneja” quando se fala em ler longos textos: Nemli & Nemlerei. Estamos na era whatsap de mensagens curtas, cada vez mais, e áudios. Sem falar nas jornadas duplas, triplas de trabalho, que não permitem mesmo que se arranje tempo pra ler. E, assim, não há como pensar, o que ñ possibilita o despertar da consciência. Temo que seja daí pra pior.

  2. Pingback: Fechando abril: Brasil descoberto & Tardios aromas de libertação | transversos

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