Plim-plim

O globo é bem mais do que fazem a gente acreditar

O globo é bem mais do que fazem a gente acreditar

As efusivas comemorações sucedem-se na metalinguagem vaidosa da emissora poderosa. Cinquenta anos! Que glória. E com audiência! Que bênção. E ainda há os que acreditam que não se pode enganar a muitos por muito tempo. Pobres iludidos. Cada vez mais pobres. Cada vez mais iludidos.

Não há o que tanto se celebrar na história da Rede Globo de Televisão, parte do sistema Globo de controle absoluto da mídia nacional. Um monopólio descarado que detém 60% das verbas de publicidade do país. Um controle quase absoluto em determinados locais, algo que seria proibido nos EUA ou Europa, lugares com leis de regulamentação de concentração de mídia. Uma empresa que sempre usou seu poderio econômico e suas relações promíscuas com o poder em favor de ampliar sua dominação e impor sua visão conservadora de sociedade.

A Globo tem lado definido, tem time, tem bancada. Mas isso não é o mais fundamental, pois nem é tão problemático que se defenda uma posição – algo relativamente comum nos meios de comunicação do mundo. O problema é que a opinião da Globo é transmitida como verdade. A rede falta com qualquer honestidade quando se vende (e como é vendida!) com a imagem da imparcialidade.

Na defesa de seus interesses, noticia versões como fatos consumados, parcialidades como retratos da realidade, colaborando tão somente com a desinformação e a alienação das milhões de vítimas de seu jornalismo fajuto. Seu talento em criar pautas e esconder lutas que não lhe interessam, fazem a agenda do país girar em torno de suas conveniências.

A Globo cria crises e escândalos – não que eles não existam, mas é ela quem determina quais devem ou não existir – que envolvem seus inimigos, abafando completamente quaisquer desvios daqueles que lhe sejam aliados. A verdade é o veredito da análise que faz: são vândalos em 2013, um perigo para a nação; e são cidadãos cívicos os de 2015, quando ela mesma ajudou a organizar o coxinhaço. Até seu jornalismo vive da dramaturgia.

Não é de hoje que o canal se presta ao papel de envergonhar a verdade. A estação fez mais do que apoiar a ditadura, “trabalhou silenciosamente” – segundo os documentos abertos do governo estadunidense – para evitar eleições em 1965 e para endurecer o regime. A Globo tem as mãos sujas do sangue de mulheres e de homens torturados nos porões da ditadura militar. O que fez foi mais que apoiar, mas sustentar e defender ideologicamente o regime, vendendo ilusões e ocultando qualquer informação contrária ao regime. Jornalismo vendido, publicidade em forma de noticiário.

Não é necessário muito esforço para lembrar como a Globo foi máquina de propaganda do regime militar, como, por exemplo, buscou esconder as Diretas Já, transformando comícios por eleições em comemorações oficiais. Manipulações grosseiras, como a edição do debate entre Collor e Lula, são frequentes na emissora, que revela não ter limites na imposição de suas vontades à sociedade. Não é com a verdade que a empresa tem compromissos.

Uma concessão pública questionada em seu nascedouro pela parceria com o grupo estrangeiro Time-Life, condenada pela CPI do Congresso em 65, mas arquivada posteriormente, talvez pelos serviços prestados ao governo militar. A Globo coleciona parcerias com caciques locais, como Sarney e Collor em suas afiliadas. Chegou a comprar a empresa NEC em uma tortuosa negociação que envolvia o então ministro das comunicações Antônio Carlos Magalhães – principal beneficiário da transação – e sua rede de tevê que, coincidentemente, logo após o acordo, passou transmitir o sinal da emissora de Roberto Marinho na Bahia – era uma retransmissora da extinta Rede Manchete – provocando o rompimento unilateral do contrato da Globo com sua então afiliada, a Tv Aratu.

O que dizer do escândalo da Proconsult, quando a Globo quis mudar o resultado das primeiras eleições do país depois do regime militar? Uma tentativa de impor uma derrota a Leonel Brizola – seu grande desafeto – a qualquer preço, mostrando que a falta de critério jornalístico é prima-irmã do mau-caratismo editorial que permeia a emissora.

Há tanto de escândalos e corrupções para se apontar na Rede Globo… Desde o golpe do Papa-Tudo, uma pirâmide financeira patrocinada pelos grandes artistas da Platinada, até a acusação, via Wikileaks, de desvios no repasse de doações do Criança Esperança para a Unesco, passando pelo uso de paraísos fiscais na compra de direitos de transmissão. A lama parece ser o lugar ideal para se procurar a credibilidade das ações da concessionária de tevê.

Talvez o mais impressionante seja a hipocrisia global. Ideologicamente, defende a economia de mercado, privatizações e mais uma série de medidas de flexibilização de direitos e ataques às conquistas trabalhistas. Entretanto, não convive bem com a concorrência de mercado, buscando acabar com atrações de sucesso em outras emissoras.

A Globo, por inúmeras vezes, contratou artistas da concorrência a peso de ouro para, simplesmente, encostá-los na famosa “geladeira”. Como uma criança mimada, quer para si tudo aquilo que não deseja que apareça em qualquer outro lugar.

Assim, compra a exclusividade de eventos que não possui interesse em transmitir, como o carnaval carioca e seu desfile das campeãs. Historicamente, a Globo apresentou Brizola como um Odorico na construção do Sambódromo, inclusive veiculando o boato de que a estrutura não era segura e apresentava riscos. Boicotou a transmissão do carnaval de 84 e amargou uma de suas piores derrotas. Hoje, altera horários de desfile, deixa de transmitir algumas escolas e detém a exclusividade do desfile das campeãs apenas para que nenhuma outra emissora transmita.

O mesmo se passa no futebol, com um monopólio condenado pelo Cade – que orientou o Clube dos 13 a negociar de maneira separada os direitos televisivos – no qual adianta cotas e endivida clubes, mantendo-os sob seu domínio, transmitindo apenas o que lhe interessa e alterando horários de jogos a seu bel-prazer. O torcedor passou a mero detalhe. Até no circo há o respeitável público, algo diferente do pensamento global, em que seus espectadores devem ser tratados como idiotas: a Globo transmite ao vivo a luta gravada.

E, dessa maneira, invade a vida da sociedade, influenciando seu comportamento e impondo sua visão de mundo em todas as áreas em que atua. As quase sete horas diárias de teledramaturgia privilegiam os estereótipos, os preconceitos e a superficialidade. Nordestinos e gays retratados como figuras curiosas e divertidas. Negros que mostram a humildade de sua raça perante o domínio branco.

Histórias maniqueístas, que promovem os valores dominantes, atuando firmemente na manutenção do status quo. Os núcleos pobres felizes, passivos, indicando o quanto é bom ser pobre e ficar longe dos conflitos de ganância e poder que envolvem outros núcleos. Lá, o bom burguês é cercado de serviçais e mostra como pode ser boa a relação de exploração. O pobre humilde de bom coração vencerá na vida, mostrando que o mérito é possível e acessível a todos, normalmente pela via de um bom casamento.

E segue la nave. Escondendo dívidas bilionárias com o fisco, manipulando opiniões e produzindo verdades. Não é à toa que Roberto Marinho teve lugar na Academia Brasileira de Letras tendo escrito apenas “Uma Trajetória Liberal”, obra que nada tem de literária: seu lugar se justifica pelo fato de que, como jornalista, foi o maior autor de ficção do país.

São cinquenta anos de interferência na vida do brasileiro. Meio século a serviço da exploração e contra os trabalhadores brasileiros. Ilusionista da falsa democracia nacional, monopolizadora de opiniões, dona das “verdades” que podem criar mitos ou destruir reputações. Cinquenta anos de Rede Globo, a principal feitora da escravidão intelectual e cultural imposta a todo um país. Que não haja mais cinquenta. Não sei se toda gente aguenta.

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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