Dia do trabalhador: aproveite enquanto ainda dá…

No Brasil, ainda fará sentido, em algum tempo, celebrar o 1º de maio como Dia do Trabalhador?! Afinal, podemos vir a regredir quase um século na legislação trabalhista no país. Um pouco mais de recuo nas leis e no tempo, alcançamos a escravidão… Então, ser trabalhador com uma jornada de trabalho minimamente decente será considerado luxo, assim como férias remuneradas, 13º trabalho, recolhimento de FGTS e, claro, dignidade.

ctps

1º de maio é uma data que abrange todo o planeta Terra. E não por acaso. Ano de 1886, greve geral no aa época forte movimento sindical norte-americano, iniciada em 1º de maio. Em Chicago, coração do operariado do país, dezenas e dezenas de milhares protestaram, reivindicando condições de trabalho mais dignas, o que incluía redução da jornada de trabalho. Em 03 de maio, a polícia já matara três manifestantes. No dia seguinte, num 4 de maio, como continuidade das lutas iniciadas em 1º de maio e contra os assassinatos e repressão dos dias anteriores, seguiu-se um protesto ainda maior. Foi um movimento vigorosíssimo.  Então, no epicentro operário norte-americano a polícia, em defesa dos interesses do poderoso patronato, abriu fogo. Dezenas e dezenas e dezenas de feridos, mais de dez mortos. Os oito tomados por líderes do movimento presos. Destes, cinco foram condenados aa morte e outros três aa prisão perpétua. Três anos depois, no Congresso na 2ª Internacional Socialista, em Paris, se iniciaria a jornada de lutas pelo reconhecimento do 1º de maio como dia internacional de luta dos trabalhadores, em referência aaquele início de jornadas de lutas, em Chicago.

os-martires-de-chicago-1 Até hoje, tal data é ignorada oficialmente nos EUA (também no Canadá), sendo o Labour Day lembrado na primeira segunda-feira de setembro.

E é sempre bom e necessário lembrar: o dia é do Trabalhador; não do trabalho!

É impressionante que, mais de um século após esses acontecimentos, no Brasil, ponto nevrálgico do capitalismo na América Latina, estejamos aas voltas com o fantasma da terceirização em larga escala como parâmetro de organização do mundo do trabalho brasileiro para o séc. XXI. Não deve ser aa toa que, por vezes, na Europa, relações de precarização de trabalho são chamadas de “brasileiração”. Já não é fácil ser trabalhador neste país. O PL 4330/04, atualmente, no Senado,  PLC 30/2015, pode tornar ser trabalhador, mesmo da forma que hoje conhecemos, situação de privilégio.

É o sanguinário neoliberalismo, versão mais selvagem e ainda menos escrupulosa do velho e nada bom liberalismo, a revogar suas concessões de tempos de Guerra Fria, num mundo hoje, infelizmente, sem contraponto socialista. É hora de retomar os anéis que ficaram esquecidos por aí, pensa o velho capital.

Coincidente e ironicamente, o 1º de maio aqui é o dia seguinte ao limite da declaração de imposto de “renda”, afinal, no Brasil, trabalhador tem renda e não vencimentos. Muito menos salário, coisa do Império Romulano (descendentes que são dos mal humorados vulcanos); sim, porque salário é coisa doutro mundo, em que pese o leão a remeter aa antiga Roma e seus coliseus, permanente metáfora dos que assistem a injustiças e opressões como cúmplices, em silêncio ou intoxicados de pão e circo.

Sou um homem de grande fé, convicta e resoluta. A historicidade é minha fé! Me choca cotidianamente que as pessoas não se deem conta que, não fossem as lutas dos trabalhadores viveríamos num mundo ainda mais infernal, sem qualquer direito, a não ser o de, no dia seguinte, trabalharmos (semi)escravizados para enriquecer alguém que nos daria migalhas defectíveis. Me espanta que a maioria não se dê conta de que o capitalismo existe cotidianamente em concretude muito dura e árdua. Ele existe nos patrões, nas legislações, no judiciário, nas “verdades” que pairam (aí, obviamente, incluída a mídia). Existe em nós! De tanta mais-valia, cada vez, menos valemos.

trabalho

Foto de Lewis Hine.

 

“Os quebradores de pedras (II)”, por Gustave Courbet: a arte naturalista há mais de um século retratava a precariedade do mundo do trabalho.

 

Claro que, em meio aa sanha de revogação de direitos do mundo do capital, a repressão há de ser enérgica, afinal, aí o capitalismo existe tenazmente, nu, cru e cruel. Por isso, não me sinto surpreso, embora me sinta chocado, com o nível de truculência aos trabalhadores em educação do Paraná, nesta semana, sob o comando do governador do PSDB Beto Richa, senão Hitler. As imagens falam mais do que é possível dizer por palavras. Centenas de feridos. Agora, no Paraná. Em 2013, no Rio de Janeiro. Recentemente, em São Paulo, em Pernambuco… Nos espaços em que for necessário, pra garantir a violência do roubo de direitos dos trabalhadores, haverá a violência que se fizer necessária. Não tenhamos ilusões. Isso sem falar no fato de que, no fim das contas, são reles professores. Quem liga?!

prof paraná 10

Desculpo-me com os retratados pela divulgação não autorizada, mas necessária, de suas imagens.

Discurso padrão de nossa mídia "oficial".

Discurso padrão de nossa mídia “oficial”. Não é necessário explicar mais, né?

No fim das contas, ainda se trata da mesma questão e das mesmas atitudes de maio de 1886. É preciso enxergar com historicidade.

Em que pesem todos os muitos pesares, VIVA OS TRABALHADORES! E VIVAM OS TRABALHADORES!

 

Não há vagas (Ferreira Gullar)

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

 

P.S.: enquanto isso, o 1º de maio ontem em Havana. Que ditadura é essa, hein?!

P GRANMA

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3 opiniões sobre “Dia do trabalhador: aproveite enquanto ainda dá…

  1. Que bom poder ouvir Plebe Rude! Que bom poder ler o poema do Gullar onde não cabem muitos… nem eu… embora não seja um dos citados… não sei dizer se estou melhor ou pior que os trabalhadores citados no poema… sou mãe (24h), sou dona de casa em jornadas que às vezes parecem não terminar nunca, entre “otras cositas” necessárias pra “ganhar” ou perder a vida, nem sei… lembrei de quando o encontrei (o F. Gullar, que coisa!) comprando pão (e eu feijão) na fila do mercado… ele atrás de mim, não o reconheci, mas, devido a seus cabelos brancos e rosto cansado, pedi que passasse na minha frente… foi só diante da recusa do poeta que olhei bem seu rosto e o vi… só consegui dizer “obrigada”, além de ficar uns 4 segundos olhando boquiaberta, mais nada… mas tive a sensação de que ele entendeu, mesmo não fazendo o menos sentido na situação… queria agradecer a todos os poetas… queria agradecer a Deus por colocar poetas em minha vida, que às vezes me faz pensar que só há vida de fato na poesia, espaço raro pros que tem as mãos cheias de calos, seja por pegar em vassouras, seja por pegar em maquinários pesados das fábricas da vida… ou da morte em vida… sou privilegiada porque posso, ao menos às vezes, encontrar um tempo pra vir à tona respirar palavras que me permitem pensar e viver… OBRIGADA POETAS!!!! Aos vivos, aos mortos… MUITO OBRIGADA! Sem vocês… muitos seriam apenas cadáveres adiados que procriam… ou nem mais isso… e ainda bem…

  2. Sem poesia, não valeria a pena a vida. Seria só existência, penso.Encontrei o Gullar duas vezes quando trabalhava em Copa. Da primeira, passei encarando e acho que ele sacou. Da segunda, agradeci a ele por seus poemas! 😀

    Obrigado pela leitura sempre carinhosa, querida!

  3. Aline Silva

    Faf Bel, você fala sobre vir à tona respirar palavras e penso que há potencial para sua inspiração e expiração das ideias. Senti pulsar poesia ali na sua escrita e achei tudo isso muito bom: as reflexões de Anderson pulsantes de historicidade e crítica e suas observações (a de Faf Bel) repletas de sensibilidade. Grata pelo texto do amigo. Grata pelo seu comentário.

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