Sangue e giz

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Eu sou professor.

Não moro no Paraná. Não estive na manifestação.

Mas aquelas bombas explodiram em minha sala de aula. Aquelas balas de borracha atingiram-me o coração. O gás de pimenta ainda me deixa sem fôlego.

Esse não foi um caso isolado, mas a representação em guerra do que se transformou não só a educação, mas as relações de trabalho no Brasil. Existe uma censura prática ao que se pode ou não dizer, a quem, onde e quando falar (por que falar? Emudecer é a ordem). A mídia se cala para o que não lhe interessa e fomenta o ódio. Estamos em uma terra sem lei, onde o poder em qualquer esfera torna-se absoluto e coloca-se a serviço dos interesses pessoais dos pequenos imperadores que se sentam nas correspondentes cadeiras.

Estes impérios individuais reproduzem-se aos montes e apossam-se de vozes que dizem representar. O judiciário solta empresários, mas mantém presos quem foi às ruas protestar contra o poder. O desinfetante na mão do indigente é razão suficiente para encarcerá-lo por toda a vida. Só se vê o que se quer e quando quer.

Do outro lado, multidões patrocinadas pedem intervenções de violência. Em paz, é claro. O apoio à truculência, a mentira e o eufemismo tomam conta das manchetes e de comentários. Chamam massacres de confronto. Buscam razões para a barbárie. Como se qualquer coisa que se inventasse pudesse justificar o uso das bombas contra as pessoas mais valiosas de uma sociedade.

Lendo tais ficções em forma de notícia, penso que são os professores paranaenses os seres mais corajosos de que já tive notícia: desarmados, em condições desfavoráveis e desorganizados, resolveram atacar uma treinada guarnição policial equipada com bombas, pistolas, fuzis, escudos, capacetes, cassetetes, balas de borracha, carros blindados… Só os produtos de uma educação sucateada como a nossa poderiam acreditar em algo assim descrito no noticiário da tevê.

Os black blocs tornam-se a desculpa esfarrapada da hora, ainda que não se tenha notícia de nenhum integrante do movimento entre os presos ou mesmo nas imagens da selvageria. Culpados, não importa a verdade, importa acusar alguém. Ou diluir a notícia. A mídia, quando percebe alguma comoção, inventa heróis improváveis, como os policiais que se recusaram a participar da carnificina e foram presos. Seus nomes, onde estão presos e outras questões são mistérios. É a tentativa de desviar o foco pulverizando assuntos.

As greves da educação são reiteradamente ignoradas pela imprensa. Mais que isso, a própria educação é ignorada solenemente neste país. Tomem-se campanhas como voluntariados e televisores no lugar de professores como exemplos de como alguns meios de comunicação dão “importância” ao tema. Pensa-se em educação como uma sala de aula abarrotada de crianças, onde “sacerdotes do ensino”, abnegados e filantropos do saber, ensinar-lhes-ão tudo o que é necessário para que a sociedade funcione exatamente do jeito como está.

Professor não é sacerdote! Escola não é depósito de crianças! Um basta ao modelo educacional que não ensina, não forma e permite, inclusive, que pessoas que um dia foram seres humanos, tornem-se policiais, agentes da violência contra quem lhes educa os filhos.

Precisamos de uma escola que deixe de ensinar somente respostas prontas e servis, mas a formular perguntas desafiantes e engrandecedoras. Ainda que o preço hoje cobrado a quem questione seja altíssimo, pago em sangue e em lágrimas como provou o ato de Curitiba. Entretanto, não há dúvidas de que é esse o caminho.

Nota zero para Richa e sua corja de apoiadores. Esse é mais um daqueles casos em que devem cair secretário de segurança, comandante da polícia e enseja ao governador a reflexão sobre sua renúncia. Mais violência, menos atenção: ainda que variem em quantidade, é o tratamento dado aos professores em greve hoje não só no Paraná, mas em São Paulo, Santa Catarina, Pará e Pernambuco. Movimentos que não ganham, na mídia, um décimo do espaço que qualquer coxinhaço sem sentido recebem na cobertura jornalística. Mais professores, menos coxinhas, por favor.

Valorizar o professor e a educação é um discurso repetido por políticos e por boa parte da sociedade. Chega de slogans, é hora de exigir de fato um investimento real na área. Não dá para reclamar do tamanho do Estado, quando faltam professores em sala, quando se paga uma miséria para o profissional mais importante da sociedade ou quando se vê a total falta de infraestrutura das escolas brasileiras.

O país gasta 978 bilhões de reais pagando o serviço da dívida, enquanto aplica 80 bi na educação. São doze vezes mais dinheiro para juro que para futuro! A conta é simples para entender que o banqueiro é mais importante que a educação de nossos filhos. E, se alguém se levanta contra isso ou parte disso, porrada. Bombas e balas de borracha que custam mais que o que é pago ao próprio professor que é vítima desse paradoxo estúpido.

O agravante da situação é que os professores paranaenses manifestavam-se não para receber mais – o que seria algo perfeitamente cabível –, mas para não perder direitos. O apetite do poder jogou trabalhadores nas cordas, onde não se luta para ganhar, mas para evitar maiores derrotas. A vitória de hoje é sair com ferimentos leves – tanto na carreira quanto no corpo.

Quebraram o nosso giz. Destruíram nossa lousa. Castigaram nossos corpos. Mas não mataram nossos sonhos. Não há força que nos faça parar. Lecionaremos, não como sacerdócio, mas como a afirmação de uma profissão indispensável que deve ter sua relevância reconhecida. Temos orgulho do que somos e do que podemos construir. Estamos de luto. Estamos em luta. Passam por nós todos os médicos, engenheiros, economistas e jornalistas da nação. Mas nossos inimigos não passarão.

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Categorias: Política | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “Sangue e giz

  1. Simone faria freire

    Seu texto está perfeito e vc o fecha lindamente! “Não há força que nos faça parar. Lecionaremos, não como sacerdócio, mas como a afirmação de uma profissão indispensável que deve ter sua relevância reconhecida. Temos orgulho do que somos e do que podemos construir. Estamos de luto. Estamos em luta.”

  2. Fabiane Gomes

    Muito bem escrito!
    Professor é profissional formado com dedicação como qualquer outro profissional, e assim, como todos os merece salários dignos, direitos já conquistados e principalmente respeito.
    A educação tem que deixar de ser promessa de candidato na época da propaganda política.

  3. Eliane

    Parabéns! Lindo texto, excelente análise.

  4. Patricia

    Emocionante! Excelente texto! Parabéns, estava sentindo falta de uma análise mais politizada.

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