O médico e o monstro

Dr-Jekyll-y-Mr-Hyde

Mataram um médico na Lagoa Rodrigo de Freitas. Com todas as letras e fonemas, cada sílaba é chocante. Passam-se dias e não parece que fica um medo menor – o medo é democrático. Também mataram uma criança, já não se lembra exatamente onde foi, até porque houve vários casos diferentes. Arrastaram uma mulher pela rua, sumiram com um pedreiro, esfaquearam um turista, balearam um inocente. Traficante, pivete, bandido, policial; sangue, muito sangue derramado.

Mata! Chuta! Bate! Amarra no poste! Tem de ir pra cadeia, tem de sofrer, tem de mofar lá dentro, tem de enfiar a porrada… Tem de mandar matar. Tudo contra a violência. De repente, há um Estado Islâmico dentro de cada um de nós, um torturador dos porões da ditadura que aflora para defender a paz. Verdugos que podemos decidir sobre a vida de quem vale a pena. E qual a pena que vale.

Punir é o que interessa, sem se importar com qualquer coisa que vá além dos próprios atos em si. É a concretização de uma catarse social, a expurgação do mal em praça pública, para regozijo das almas purificadas. Esta sanha pelo derramar do sangue não se importa com as vítimas, apesar de fazer delas, de forma oportunista, o centro de seu discurso, puramente reativo.

Isso ocorre porque, em primeiro lugar, punir não evita que o ato violento aconteça. É necessário morrer alguém para se condenar algum outro pelo assassinato. É quase uma questão física de temporalidade, de causa e efeito. Ainda que vivêssemos em uma sociedade ideal, as mortes continuariam acontecendo, só que agora punidas. Não importa que haja mais vítimas, nem quem sejam, ao fim e ao cabo. Importa somente punir o agressor.

E, em momento algum, a sociedade percebe que tudo o que ocorre é a concretização mais óbvia e perfeita daquilo que ela mesmo projeta e executa. O menor criminoso surge para ocupar o espaço que já existe para ele, que nasce no “lugar de bandidos”, cresce como bandido e deve viver como bandido. O que o indivíduo faz é somente aceitar o papel que se espera dele, simplesmente entregando o “melhor” dentro da expectativa criada. Isso é chocante.

Haverá quem diga que cada caminho é uma escolha do indivíduo, esquecendo-se de que só se pode marcar as alternativas que a prova oferece. E grande parte desses exames não conta com tantas alternativas assim. O local de prova? Lá, bandido mata bandido, policial mata bandido, bandido mata policial e ambos matam inocentes. Tiroteios, mortes, torturas, gente queimada em pneus, partes do corpo decepadas, entre outras barbaridades. Nesse ambiente, a vida é algo banal e não se pode esperar que dali surja uma classe de candidatos ao prêmio Nobel. Não por escolha, mas porque a opção não constava na prova.

Ao ocupar as favelas cariocas, as UPPs – sem aqui entrar na discussão sobre validade ou interesse de sua instalação – modificaram a lógica do tráfico de drogas, que sequestrava aquelas comunidades inteiras. A indústria do tráfico foi posta à surdina, sem a ostentação e a opulência anteriores. O desemprego atingiu também aquele mercado: fogueteiros, aviões, fornecedores de serviços da boca, enfim, toda a sorte de “empregados” baixos na escala do crime foram cortados. E o que se imaginava que fariam? Arrumariam um emprego digno e virariam pessoas respeitáveis pela sociedade?

Isso explica a recente onda do uso de facas como arma e da própria violência contida nesses ataques. Como se constituem na fração mais rasa da organização criminosa, ao serem dispensados, nem sequer acesso às armas de fogo possuem, tomando o utensílio de cozinha como instrumento de ameaça e morte. A crueldade aprendida no tratamento aos inimigos é tão natural, tão arraigada, que recai sobre qualquer vítima de seus atos.

Entretanto, a explicação será tomada como justificativa e, ao mau entendedor, qualquer palavra bastará para vociferar contra direitos humanos, classificando o discurso como “defesa de bandido”. A pergunta “e os direitos humanos da vítima, onde ficam?” será repetida em tom glorioso. Contudo, preocupar-se com a vida das futuras vítimas passa longe da punição exigida, já que só se prende alguém depois da violência já cometida.

O paradoxo consiste em defender que consequências severas mudam as causas. Como se enxugar o chão fizesse parar de chover. O presídio, independentemente da idade de quem o frequente, não traz segurança à sociedade. Basta ver que os próprios locais onde são instalados não são seguros nem mesmo são áreas valorizadas para se morar.

Punições mais duras! Polícia em cima deles! Ora, a periferia sofre constantemente com incursões policiais e pena de morte imediata, nem por isso são localidades seguras. Não há bandido que chegue à velhice e todos nós sabemos disso. Não me parece que a pena de morte estatal soe amendrontadora a ponto de fazê-lo pensar duas vezes antes de entrar para a criminalidade.

Prender serve para retirar aquele indivíduo da sociedade, excluí-lo e satisfazer ao desejo de vingança da sociedade. Essa exclusão não previne quaisquer atos violentos, pois não modifica as condições que transformam pessoas em criminosos. Afinal, bandidagem não é questão genética, bebês não nascem bandidos, tornam-se, em algum momento, párias sociais. Insiste-se no investimento para prender bandidos, mas não em deixar de produzi-los.

O Direito Penal não se importa com quem sofreu a violência, um mero apêndice processual: basta ver que a vítima – ou as pessoas afetadas pelo crime – não tem voz no processo penal. A sociedade já tem sua vingança estabelecida e ela será executada de maneira única, sem a opinião de quase ninguém.

A outra razão apontada para prender pessoas é reabilitá-las ao convívio social. Como “ressocializar” quem nunca foi socializado? Isso não ocorre em praticamente lugar algum do mundo. O castigo não faz a criança menos travessa! Coloque alguém quinze anos trancafiado – ainda que em condições melhores que as masmorras feudais brasileiras – e espere que esse indivíduo vá refletir por maiêutica, meditar e encontrar a revelação, vivenciar epifanias, mudar de vida e ser útil à sociedade. Ainda que, por uma dessas exceções, algo assim aconteça, a sociedade já o estigmatizou como ex-presidiário, limitando-lhe o papel que pode desempenhar.

Construir mais presídios é como comprar um armário desnecessário: o simples fato de tê-lo em algum cômodo da casa vai fazer que, com o tempo, encha-se de coisas. Construam-se mais presídios e teremos mais presos. E assim a violência acaba, não é? O Brasil tem a terceira maior população carcerária do planeta, com 400% de aumento no número de detentos nos últimos vinte anos. E aí, por que você não se sente mais seguro?

Mais polícia, mais militarismo, mais guerra. Já não está mais do que a olhos vistos que esse modelo fracassou? Enquanto nos EUA – pátria mãe dos exemplos do que há de bom no discurso conservador – o presidente Obama proibiu o uso de blindados, armas de grosso calibre, lançadores de bombas e até uniformes camuflados, aqui, em terras tupiniquins, cobra-se mais sangue derramado. Talvez para que depois se possa transformar alguns em tragédia e vender jornais.

O remédio não surte efeito há décadas, mas multiplicam-se ensurdecedoras vozes cegas que tentam convencer a todos de que a solução é aumentar a dose. Mal percebem que é este o veneno que cria os monstros. Não sou contra a polícia, não sou contra presídio, não sou contra penas mais duras. Sou contra ideias que não funcionam. E essas já não funcionaram. Por isso sou contra tudo o que se propaga por aí como “solução”.

Proteger a vida e evitar que qualquer outra seja a próxima vítima. Para isso, deve-se atuar contra a produção de “criminosos”, a favor das pessoas. De todas as classes, de todas as cores. É necessário diminuir a violência da sociedade, não aumentá-la para combatê-la (quando dito assim, a ideia não lhe soa idiota?). Somos todos alguma coisa. Agora, somos todos médicos. Amanhã, seremos todos você. Infelizmente, a fórmula usada para resolver os problemas transforma Dr. Jekyl em uma sociedade repleta de cópias de Mr. Hyde.

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Categorias: Reflexões, Sociedade | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “O médico e o monstro

  1. Eduardo Felipe

    O mal da humanidade não é a solidão como disse Lennon, muito menos a violência como vocifera a sociedade. O mal da humanidade é a hipocrisia, demagogia, fazendo que não consigamos ‘curar’ esses outros males.

  2. Jordan Michel Muniz

    Muito bom, Walace, parabéns. Ao fazer referência às UPPs (que não são o foco do seu argumento) deve-se lembrar que o modo como funcionam constitui aguda violência: nelas não vigoram as garantias constitucionais. A força de ocupação é a lei, decide o que pode e o que não pode, invade casas, atira quando quer, prende por mera suspeita ou para investigar, numa situação que mistura Estado de Exceção com estado de guerra. UPPs são berçários de revolta e mais violência.

  3. Equivoco Humano

    Concordo com quase tudo, mas deixar de produzir tantos criminosos leva tempo, te diria na melhor das hipóteses décadas. O que fazer até lá? Pois é muito fácil criticar algo que realmente não funciona. Solucionar já é uma história completamente diferente. Combater violência com mais violência não é idiota, mas é extremamente perigoso, uma vez ligado o moedor de carne, é bem difícil de pará-lo. è um preço que pessoas de bom senso nunca estarão prontas a pagar.

  4. Karina

    Ótimo texto… Nos faz refletir que tipo de paz é essa que todos querem! Procurar essa tal “paz” com violência não é um bom começo

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