Mickey Mouse e a Telefunken

mickey

As reminiscências sobre minha educação estão nos escaninhos da memória afetiva de uma casa no final da rua onde eu morava, no subúrbio do Rio de Janeiro. Eram três irmãs amigas de minha mãe. Não me lembro bem, mas acho que elas eram uma espécie de explicadoras. Certamente não havia cobrança. Minha família não tinha condições financeiras para pagar por esse tipo de serviço. Ficávamos eu e minhas duas irmãs naquela casa, com aquelas pessoas simpáticas e acolhedoras. Tenho uma vaga lembrança de cobrir letras e fazer desenhos coloridos num papel. Havia desenhos de personagens do Walt Disney pela casa. Lembro-me tentando desenhar o Mickey Mouse. Gostava do sorriso daquele ratinho.

No cantinho do corredor de minha casa, havia um pequeno buraco na parede. Eu ficava imaginando o Mickey morando naquele buraco. Colocava pedacinhos de miolo de pão na saída daquela fresta, na esperança de vê-lo e pedir para ele brincar comigo. Toda aquela atmosfera  de criação de uma outra realidade trazia-me contentamento. Eu descia a rua, ansioso para chegar àquela casa que me embalava num mundo de sonho e fantasia.

Quando pela primeira vez assisti a um filme da Disney na televisão, causou-me muita estranheza o fato de os personagens não serem coloridos. Não entendia que o aparelho lá de casa é que era preto e branco. Isso fez com que eu pintasse compulsivamente todos os desenhos que me vinham à mão. Como se minha missão fosse colorir o mundo à minha volta.

Acho que de tanto a gente reclamar da televisão, meu pai arranjou uma película de três cores para tentar apaziguar o motim. No início, o jeitinho que meu pai pode arrumar surtiu efeito. Eu mesmo achava que havia algo de errado em ver pessoas de cores diferentes na mesma cena. Entretanto, alguma ordem interior dizia para não reclamar mais. Creio que essa mesma ordem foi dada a minhas irmãs, pois elas também pararam de maldizer o infortúnio do preto e branco ou da esquisitice tricolor da televisão.

Quem nunca se conformou mesmo com a vida desbotada foi minha mãe. Quando a vizinha comprou uma TV em cores, ela tratou logo de assistir sua novela preferida por lá. O bom é que éramos arrastados por esse ato de rebeldia materna. O orgulho ferido de meu pai deixava-o sozinho em casa. Eu sabia que minha mãe usava essa correlação de forças para pressioná-lo a comprar uma TV nova. E funcionou.  Não demorou muito e um caminhão deixou uma Telefunken lá em casa. Com o tempo fui entendendo melhor a estratégia de minha mãe: evitar o confronto direto, mas bater fundo no orgulho tolo do marido. O conhecimento da psicologia masculina fez com que ela tirasse meu pai do conformismo cotidiano de uma vida em família.

Voltemos à Telefunken. Talvez tenha sido o dia mais feliz de minha vida. Ver um filme colorido, no sofá de casa, bebendo kisuco e comendo bolinho de chuva.

Talvez tenha sido o dia mais triste da minha vida. Trocar a casa acolhedora das letras e dos desenhos da Disney pelo entretenimento da Telefunken. Tempos depois, a televisão já não tinha a mesma graça.  Logo veio o entendimento infantil de que, ao se ganhar um brinquedo novo, o antigo fica jogado pelos cantos, esquecido e abandonado. Sem nenhum agradecimento pelos momentos felizes proporcionados. A vida também era isso.

Televisões passaram em minha vida, até o dia em que encontrei Dulcimar na rua, uma das três irmãs da Disneylândia de minha infância. Ela me reconheceu e me deu uma passagem para os momentos encantadores daquela casa que me proporcionou as primeiras lições. Ao chegar em casa, narrei o encontro para minha esposa. Demonstrei saudade daquela época. Ela então disse: ― Você não está com saudade daquele tempo, você está com saudade de si mesmo.

Essas palavras ficaram tatuadas na minha mente.

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