Quando começamos a defender a morte, ao invés da vida.

*Por Mariângela Marques

Do ponto de vista de uma internacionalista de formação e atuação, observando a banalização dos crimes de eugenia e limpeza social que nunca foram pautados como deveriam, crimes que muitos disseram preferir esquecer. Mas como esquecer se ele se prolifera há mais de um século?

Três adolescentes esfaquearam um médico de 55 anos de idade para roubarem a bicicleta. O crime ocorreu na Lagoa Rodrigo de Freitas, zona sul do Rio, e como consequência do esfaqueamento, o médico morreu. Ele morreu no hospital.

Em menos de 24 horas foi a vez de uma mulher de 31 anos,, em São Conrado, levar facadas nas pernas, com cortes superficiais. Ela pegou um táxi até uma UPA, mas não quis esperar atendimento. Ela passa bem.

Três dias depois noticiaram que uma chilena amante do Rio,  estudante, paisagista conhecida na sua cidade de origem, foi esfaqueada quando, passeando de bicicleta, na Glória, algum rapaz anunciou o assalto. Ela também passa bem.

Esse casos se assemelham por um motivo: a morte.

Não porque o primeiro morreu ou a segunda e terceira poderiam ter morrido, mas porque os brasileiros, mais especificamente os fluminenses e, apertando um pouquinho mais, os cariocas, estão declarando-se favoráveis à morte de quem comete crimes como os acima citados. Não estariam eles, os defensores da morte dos criminosos, também cometendo um crime?

Vejamos.

Nas redes sociais, assim como nos jornais de maior circulação, o perfil dos crimes que são manchetes de capa é específico, Zona Sul, chamariz turístico do Rio de Janeiro, levando seus leitores à defesa inconteste de punição exemplar aos praticantes de tais crimes, só vermos como o caso do falecido médico foi noticiado: esfaqueado por supostos menores.

Supostos menores exatamente no momento em que o Brasil parou, de novo, para discutir redução da maioridade penal!

Esses ataques apresentam a face mais cruel do país que, em 13 de maio de 1888, aboliu a escravidão, mas não aboliu a servidão. Os supostos menores são negros, moradores de favelas, devem ser punidos, se possível, com a morte, mas e o Thor Batista? Parece-me que ele foi absolvido… e ninguém falou disso, só protestou contra os crimes cometidos pelos pobres, que na dimensão das perdas reais no Brasil, nem se compara com os roubos das licitações públicas, licitações, essas, superfaturadas desde antes do Collor.

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Mas para que falar de algo mais complexo se a bola da vez é acabar com o crime?

Para acabar com o crime é necessário muita coisa, inclusive aceitarmos que somos gentrificadores, seres abomináveis que desconhecemos os discursos de ódio naturalizados em nossas defesas esbravejantes, tais como os crimes de ódio cometidos na limpeza social do Rio de Janeiro de Pereira Passos, Lacerda e Eduardo Paes, ou então a limpeza social cometida pelo holocausto brasileiro contra nordestinos, tem também a limpeza social manicomial.

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Não estão satisfeitos?

Temos a naturalização do crime de ódio da eugenia, assim como o crime de ódio julgado no Tribunal de Nuremberg contra o nazifascismo, mais especificamente o nazismo, um tribunal que deixou de lado a origem radical da eugenia do Reich, ou seja, o fascismo de Mussolini; ou a limpeza étnica praticada por Israel; os crimes de soberania cometidos pelos Estados Unidos da América… isso tudo pode, só não pode mexer com o meu lar?

Façam-me o favor!

O perfil do ódio contra o crime no Brasil é declaradamente de limpeza social: volta dos mercenários, punição extrema sem respeitar os direitos humanos, levar para casa o preto pobre que foi preso ao poste como negro pronto para o açoite. Justiceiros da Zona Sul, salve a minha integridade torpe enquanto grito “Fora PT”, compro passagens para morar em Miami e viro as costas para a desigualdade social por mim perpetuada… infelizmente, justiceiros, eu sou incapaz de reconhecer o fosso social que insisto em manter.

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Não, realmente, pedir proteção redobrada à minha vida, não importando o resultado desta defesa, não importando o assassinato dos meninos da Candelária, não importando as mortes nas favelas cariocas e da baixada fluminense, não importando a proliferação do tráfico de drogas e armas não é crime porque sou livre para pedir isso, mas o conteúdo do meu pedido, sim, é criminoso.

Está na hora de mudar o foco: a vida não deve ser banalizada; a maconha que eu consumo deve ser legalizada; a falta de perspectiva desses “criminosos” deve ser avaliada… quando banalizamos a vida do outro, banalizamos a nossa própria vida.

E para quem tiver curiosidade, o Brasil, em 2002, promulgou o Decreto n. 4.388, Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, que declara em seu Artigo 5o

 Crimes da Competência do Tribunal

1. A competência do Tribunal restringir-se-á aos crimes mais graves, que afetam a comunidade internacional no seu conjunto. Nos termos do presente Estatuto, o Tribunal terá competência para julgar os seguintes crimes:

a) O crime de genocídio;

b) Crimes contra a humanidade;

c) Crimes de guerra;

d) O crime de agressão.

Mas enquanto o capitalismo brasileiro continuar sendo desconhecido internacionalmente, enquanto não houver deflagração de guerra, enquanto ajustes fiscais forem prioritários para as organizações internacionais financeiras, direitos humanos serão, realmente, acessório de alardes xenófobos.

Eis a nossa realidade.

 

Tristan Mari

Mariângela Marques

Mariângela Marques publicou como convidada do Transversos, pela primeira vez, em 15/04/2014, e é, atualmente, colunista do blog FeminAGEM.

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Categorias: Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , , , , , | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Quando começamos a defender a morte, ao invés da vida.

  1. Equivoco Humano

    É triste quando partidarização sutilmente é introduzida em assunto diverso, todo aquele que grita “fora PT”, compra passagens para Miami, e vira as costas para desigualdade social perpetrada. Parece que não estamos a 12 anos sob administração petista. Parece que a administração petista é inatacável, mas na verdade vemos um país empobrecendo como um todo, taí o PIB que não nos deixa mentir, taí nossa posição no IDHM que demonstra o quanto a sexta economia mundial e uma das maiores cargas tributárias mundial não evoluiu socialmente. Sim é verdade que nossos tribunais, fazem diferença entre o Thor Batista e o favelado, assim como faz diferença entre José Dirceu(dito cabeça do Mensalão) e Marcos Valério(mero executor do Mensalão) a diferença é dinheiro na conta ou estrela na lapela. Infelizmente este é um assunto importante, mas tratado de forma mediocre. Mais importante para combater a criminalidade é educação, saúde e emprego, um PIB crescente ajudaria bastante. Mas o que estamos vendo é que estes 12 anos estão nos levando para o caminho inverso, mudanças no seguro desemprego, retração no FIES, e o PIB caindo. Não adianta querer propor uma solução mágica, ao longo da história, muitos povos já demonstraram isso, Alemanha pela direita, Russia pela esquerda, por exemplo. Crescimento, seriedadade e transparência na administração pública. Infelizmente nossos políticos são como fraldas usadas, só tem m…

  2. David Luiz

    Texto bom!

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