O Conto do Mendigo – a dramaturgia transversa de M.Hink

 

 

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Há 16 anos, quando ainda era vivo, M. Hinke escreveu um texto dirigido pela saudosa Lala Schneider, primeira-dama do teatro paranaense, para o Festival de Teatro de Curitiba. Nascia de maneira irresponsável O Conto do Mendigo, ainda sem seu despretensioso subtítulo O Manual Prático de Bazófias, Fanfarronices, Patifarias e Demais Coisas Anárquicas.

O livro passou a infância e boa parte da adolescência adormecido numa gaveta, pois o autor era obrigado a ocupar a maior parte do seu tempo contando histórias para sobreviver. A despeito dos protestos de amigos que exigiam conhecer este ilustríssimo morador de rua, o Mendigo, sempre com artigo definido e M maiúsculo, só ganharia notoriedade muitos anos depois quando a Chiado Editora de Portugal o despertou com um beijo à moda principesca.

Lala sempre cobrou a publicação da peça, mas o autor, ocupado em ganhar a vida honestamente, tarefa que exige muita criatividade, dedicação e invencionice, sempre postergava esta empresa. O Mendigo, entretanto, ser historicamente marginalizado, insistia em não abandonar a companhia do seu criador. Lala, lá de cima, sentada em alguma bela nuvem, apontou seu dedo na direção do autor e, dando uma de suas inconfundíveis e deliciosas gargalhadas, gritou: “que se faça livro!” E a obra se fez.

Senhores, leitores, deliciem-se com estes pequenos aperitivos literários das aventuras do Mendigo espertalhão.


A moça, que na verdade fora moça nos tempos da avó de Judas, buscou desagravar o insulto recebido pelo indiscreto sacerdote pela via mais célere e, portanto, menos burocrática e corrupta da justiça dos homens: simplesmente enfiando a mão na cara de dom abade. O primeiro bofetão, indefensável, entrou que foi ligeiro, encontrando na face do religioso o prazeroso ressarcimento que a mulher buscava ao ser tratada por aquilo que muitos imaginavam que ela era, mas que na realidade era para ser só para seu amante, o falcatrueiro sacristão. O sacerdote, apesar de cristão, não era Jesus, e, portanto, não ofereceu a segunda bochecha para reafirmar sua fé. O sacristão, aturdido, tentava servir de barreira entre a companheira endiabrada e o sovado abade, o qual se esquivava não apenas dos vitupérios lançados pela ofendida, que doíam na alma, mas não no corpo, como também de novas investidas, chutes e pontapés, estes sim, que deixavam equimoses na carne; mas não no espírito. A vitória, momentânea, daquele impensável feminismo radical deixara o superior atordoado.


O MENDIGO:

Bom dia, autoridade! O que lhe traz por estas bandas?

SOLDADO: (azedume)

Bom dia só se for para os outros, porque para mim e para você não está nada bom! Esta praça está sob tutela militar e não pode ficar sendo frequentada por civis!

O MENDIGO:

Está certo, patrão! Simpatizo com a sua ocupação! Acoimar, coagir, obrigar, prender, supliciar! Invejável! (aplaude)

SOLDADO: (envaidecido)

Não precisa me bajular!

O MENDIGO:

É doce e honroso morrer pela pátria! (consigo) Embora o poeta que escreveu esta latinidade não tenha experimentado tal destino açucarado!


Vocês podem acompanhar muito mais dessas deliciosas aventuras pelo site mhinke.com e marcando sua presença no lançamento do livro, no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa de Botafogo, no dia 25 de junho às 19h.

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