Sobre discursos e ódios

Ontem um amigo muito querido, militante de esquerda das antigas, estava triste. Lamentando, meio cabisbaixo, as manifestações de ódio que pululam na sua linha do tempo do feice, narrando as que tem ouvido pelas ruas e botecos. “(…)mas onde estavam todos estes fascistas que agora andam por aí a destilar ódio? Como é que…” e permaneceu com o olhar perdido em algum ponto do asfalto ao longe.

Tentei consolá-lo do tombo como fazem as mães, passando mertiolate. É sempre bom evitar que os micróbios do ressentimento infectem alguma ferida recente. Pior que hematoma passageiro é ferida que gangrena, dizem as mães. Não todas, só as sábias. E o micróbio que vejo rondando as cabeças mais arejadas é a convicção de que foi a emergência de uma nova classe média , a relativa ascensão ao consumo das classes laboriosas e subalternas, como dizem os cientistas sociais, que provocou o rancor dessa gente má ( fascistas, racistas, machistas, homofóbicos, classistas, violentos e boca suja). Será ? Se não, vejamos.

Enquanto tem gente espantada com os chamados “ discursos de ódio”, inclusive na mais alta Câmara Legislativa do país, eu fico é espantada que se espantem. Eu é que pergunto:” onde é que vocês estavam que não perceberam, por aqui, qual a lei maior?”

“ De jeito nenhum! “ , muita gente diz, “ o povo brasileiro é amoroso, cordial!” .

Sei.

Isto já foi explicado por gente que faz isso melhor que eu mas há quem ainda insista, então vale repetir. “ O brasileiro é cordial”. Quando o Sergio Buarque de Holanda escreveu que o povo brasileiro era “ cordial”, ele não quis dizer que era gentil, polido, ora, ora. Pelo contexto do texto integral no “ Raízes do Brasil” dá para entender que ele pretendeu dizer que somos guiados pelo “ coração” e não pelo “ cérebro”. Que na peleja entre “razão” e “ emoção” torcemos em bloco pelas paixões. Temos má vontade para racionalizações, nós queremos é rosetar. Essa palavra ambígua que tanto já foi empregada com o sentido de aplicar as esporas, quanto o de transar.

Hoje é dia dos namorados então vou pegar leve para falar de amor. Só vou dar uma dica: “A cada dia, no Brasil, 11 mulheres são assassinadas. Setenta por cento (70%) por seu marido ou ex-marido, noivo ou ex-noivo, namorado ou ex-namorado .” ( Datasus). São dados de 2009. Este índice baixou?

Já li em algum lugar que aquela história de que índio trocou seu pau por espelhinho é cascata. De sangue. Estimaram por aí que os primeiros 30 anos da recém nascida nação brasileira formaram um rio de sangue de 5 milhões de indígenas. Paramos de matar os indígenas ?

Morte e vida Severina, de Cabral de Melo Neto e Vidas Secas de Graciliano Ramos é literatura fantástica ? Esta violência do clima contra o povo nordestino era um fenômeno natural ? É menos verdade. Foi provocada e permaneceu gerando natimortos e mortos e vivos por séculos e séculos, para preservar o sagrado direito dos colonizadores e seus descendentes extraírem, mesmo aqueles que já eram filhos da terra, todas as riquezas possíveis do chão. Os afetados por barragens, sítios de extração de minério, atividades agrícolas e pecuárias predatórias do meio ambiente e das populações originais do território, estão sendo melhor tratados ?

Nosso repertório humorístico envolvendo o tema do homossexualismo e personagens homossexuais é imenso. Repleto daquele tipo de piada que explora a inclinação humana para rir das falhas, defeitos e esquisitices do próprio ser humano. O mesmo tipo de piada que pretende zombar do personagem negro por ele ter a pele… negra ! Se, por algum motivo bizarro, todos os homossexuais brasileiros lessem “ 50 Tons de Cinza” e passassem a dizer que beijar na boca de quem os maltrata, espanca  e insulta é o máximo da aspiração erótica que qualquer um pode desejar, a aceitação deles, por parte dos leitores de ” 50 tons de cinza”,  passava a ser total ?

Alguns grupos sociais, sobretudo religiosos, defendem que os gays podem ser homossexuais à vontade… da porta para dentro de suas casas, sem que nenhum gesto, palavra ou intenção em suas vidas públicas, denunciem as práticas da sua vida privada. Por acaso já faltou, em algum momento da história brasileira, no senso comum desta nação que adora Deus e Deuses palavras de intimação e intimidação para quem não se interessa ou não cultua seu Deus ou deuses ? Dizer : aquela criança é do diabo ou ela não tem Deus no coração, é fala afetuosa e amorosa? Sequer é rara, pra quem não sabe.

O que acontece, eu disse ao meu amigo, é que a chapa esquentou e tudo virou pipoca. E veja, eu acrescentei, agora que sabemos o que certos indivíduos trazem por dentro, penso que o melhor é aproveitar para dar uma fiscalizada no nosso próprio rabo de palha. Você sabe, eu concluí, sou antiga e pra piorar adorava minha avó que me ensinou a argúcia e a paciência de esperar pela volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar. Isso porque naquele tempo ela já tinha aposentado a cinta de couro. Que, segundo minha mãe, doía pra valer.

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