Rolas, pedras e perfumes: cruzes!

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Ódio. Essa é a palavra da moda. Sucedem-se demonstrações explícitas de ódio político, religioso, racial, sexual, clubístico, de gênero e tantos outros mais. Isso porque o ódio necessariamente tem nacionalidade, tem crença, tem cor, tem orientação sexual. O ódio torce por algum símbolo, o ódio tem órgão sexual reprimido. O ódio é parcial, tem distintivo. A solidariedade e o amor, não. Esses são universais. E falta universalidade na visão de quem enxerga pouco além do que a ponta do nariz.

E o ódio produz absurdos diante da compreensão do bom senso. Apedrejar uma criança é algo bizarro e que não possui nenhuma possibilidade de justificativa: seja por expressar um aspecto cultural, religioso ou mesmo se fosse um infrator que houvesse cometido o pior dos crimes. Apedrejamento parece-me ser algo um pouco diferente do ideal que se construiu ao longo dos séculos como “civilização”.

Aliás, a criança em questão é vítima de duas violências: a primeira, óbvia, advinda do grupo rival, punindo-a pela ousadia de professar a crença em um deus diferente. A segunda, mais sutil, é o próprio fato de um indivíduo em tão tenra idade já estar submetido aos dogmas de uma religião qualquer. No geral, a religião é uma droga ideológica que deveria ser administrada apenas aos maiores de idade (dezoito ou dezesseis, como queiram definir).

Sem capacidade de discernimento ou conhecimentos suficientes que lhe proporcionem autonomia, a infância é pressionada e obrigada a seguir ritos e preceitos que seus pais escolheram. Nada contra quem queira professar a fé no que quer que seja, mas que seja de forma consciente e responsável. O contrário disso, seja em qualquer religião, é uma violência contra as crianças.

E assim vão se sucedendo em filas os pequenos intolerantes. Que se tornam grandes. Que se tornam chefes de rebanhos diversos. Que criam suas regras e decidem impô-las a toda a sociedade. Religiões são intolerantes por natureza: em todas elas há alguma espécie de condenação por não seguir suas regras ou não crer em seus princípios.

E como se mata em nome de deus! Cruzadas, inquisições, perseguições, tudo é comum na história. Cristãos perseguidos por politeístas romanos e por judeus, judeus perseguidos por nazistas cristãos, muçulmanos perseguidos por cristãos e atacados por judeus, judeus e cristãos perseguidos por muçulmanos. Bruxas, ciganos, feiticeiros e mais um sem número de religiosos implacavelmente agredidos, mortos e martirizados por conta do amor religioso.

Quem chega até essa parte do texto já está me mandando ao inferno (mais uma das “tolerâncias” da misericórdia divina) e, antes que possa hostilizar-me ainda mais, é fundamental perceber que o problema não está na fé, mas exatamente no contrário. Religião – em especial aquelas de massa e que brigam pelo poder na sociedade – tem muito pouco a ver com fé.

Senão vejamos: se você acredita piamente na existência de um ser supremo, com poderes inimagináveis e que, por isso, deve seguir as regras prescritas por ele a qualquer humano que ele tenha escolhido como porta-voz, você pode ficar tranquilo quanto à não observância das suas regras no mundo.

Afinal, os pecadores em geral terão seu julgamento no dia do juízo. Por que querer adiantar a pena? Apedrejar a criança da outra religião ou agredir o homossexual só demonstra que você não acredita de verdade no que diz acreditar! Você não confia que deus fará um julgamento justo daquela pessoa ou mesmo não acredita que haverá julgamento! Falta fé a quem persegue.

Ainda que se busque justificar tal comportamento como “a vontade de deus”, basta tomar como exemplo a mitologia cristã: por diversas vezes cidades e civilizações foram destruídas por deus porque se comportaram mal. Deus encheu o planeta de água para acabar com sua criação que desviava-se do “caminho”. Portanto, irmão, fique tranquilo: se a sociedade chegar a um ponto de “degradação moral” que não agrade a deus, ele dará o jeito dele, tenha fé. Se ele precisa que um humano vestido de terno e gravata monte um exército para combater a conduta da sociedade, alguma coisa está errada… Você está dizendo, portanto, que ele não é tão poderoso assim.

Há séculos, Martinho Lutero protestava contra a conduta da Igreja Católica. Corrupção, desvios de comportamento… A igreja vendia a fé a seus fiéis. Séculos se passaram e os herdeiros do protestantismo repetem-se nos mesmos erros da igreja de Paulo. A liberdade respirada nos locais onde, naquela época, as ideias de Lutero prosperaram não existe mais. Paradoxalmente, é o papa quem se posiciona de maneira mais lúcida. Mas não se enganem: é o deus-mercado das almas agindo com sua mão invisível.

A ocupação na vida social dessas várias crenças coloca em risco direitos e garantias fundamentais dos cidadãos. Só preciso me associar a alguma organização se eu quiser, não posso estar obrigado a seguir as regras dos clubes dos quais não quero fazer parte. Aliás, muitos direitos e poucos deveres: as igrejas gozam de liberdades e proteções para se intrometer nas próprias leis da nação; deviam, no mínimo, pagar impostos sobre a arrecadação milionária que têm.

E tudo isso enche o saco. É o perfume que apodrece o ar na condenação do amor entre as pessoas. Fé demais não cheira bem. Cruzes por todos os lados. Contudo, o instrumento romano de tortura e condenação não pode servir à arte quando o artista mostra-se dissonante com o gênero da carcaça que deus lhe deu. A reação religiosa é a confirmação exata da metáfora exibida em público.

Falta respeito? Claro que falta. Respeito à laicidade do Estado, falta respeito com o dinheiro dos fiéis, falta respeito na condenação diária do pensamento diferente. A cruz não é propriedade religiosa, mas parece que querem ser eles os únicos a ter o direito de crucificar alguém.

A preocupação com a moral alheia impede que sejam vistas as próprias mazelas éticas de que padecem. A imposição de sua visão do bem aos outros é de violência sem par. Bancadas no Congresso fazem de deus um parlamentar medieval, preconceituoso e preocupado em garantir apenas sua fatia de poder. Enquanto a saúde de verdade padece, pipocam propostas para curar os gays! Pela lógica de atuação desses parlamentares, se a cura gay vier pelo SUS, morrerão todos homossexuais.

Por isso a rola de Boechat é a catarse dos excluídos. Não que a rola seja cura para qualquer mal – a frase, tomada sem contexto é ícone machista –, mas serviu de ironia exata a quem prega o ódio, supondo esconder o desejo reprimido sobre o qual nos falava Freud. Assim, advém dos céus a rola salvadora, a que vai nos redimir – e, tal qual Geni, será sempre maldita –, não por ser falo, mas pelo dever de calar a falta de fé daqueles que falam em nome de qualquer deus.

Vejamo-nos como seres humanos. Brinquemos uns com os outros como os cães brincam, sem se importar com raça, cor ou latido. Deixe as condenações para quem você acredita que é poderoso para fazê-las. Chega de transformar crenças em negócios para ganhar mais adeptos. Chega de programas na televisão. Chega de olhar o cu alheio sem olhar o próprio coração.

Sorriam, alegrem-se, corram pelos campos, abracem-se, chorem, emocionem-se, perfumem-se, vivam de verdade. Em tempos de reforma ortográfica, altere-se a acentuação para ficar como lição no final: amem.

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