Fact Check

A legenda diz, em tradução bem livre,

A legenda diz, em tradução bem livre, “É só um conto de fadas, para de fazer verificações”

Caros colegas de blog e eventuais leitores. Tenho estado bem distante das minhas atividades virtuais, por diversos motivos. Tenho tido tanta dificuldade de tempo e acesso à internet (aquelas coisas que só acontecem com uma em cada 100 milhões de pessoas têm uma tendência sobrenatural a acontecer sempre comigo) que, além de não publicar, não tenho conseguido sequer ler ou compartilhar os textos dos colegas.

Tenho passado por uma série de problemas pessoais desagradáveis e, na verdade, desimportantes, e que, portanto, não vêm muito ao caso, que me impediram de continuar mais ativo na página. Não pretendo abandonar o  Transversos e espero normalizar a situação em breve (aposto que todos ansiosamente se perguntavam se isso iria acontecer, após tanta ausência).

Bem, na verdade, escrever no blog é algo que de maneira geral me exige muito. Talvez os resultados não demonstrem isso, mas raros são os textos que publico aqui que não me demandaram muita pesquisa, elaboração e, principalmente, fact check, o que é, nos nossos tempos da hiperinformação, a parte mais desgastante e chata na produção de qualquer texto do qual se espere um mínimo de respaldo.

Pretendo, portanto, relaxar um pouco da abordagem política, ao menos por um tempo, e passar a uma escrita mais descompromissada, tendendo à crônica talvez, pelo menos até eu reestruturar a minha vida (sempre fui dramático). Enfim, trocarei um pouco da seriedade por uma sorte de leveza beirando a futilidade. Começarei desde já, e vou contar aqui um pouco os desastres da minha semana, um pouco ao estilo daquelas redações de escola de tema “o que eu fiz nas minhas férias” (infelizmente, como não sei o que são férias de verdade ao menos desde 2001 a.d., não tenho nem como abordar esse tema específico). Então vamos à “semana do presidente” (na verdade, do revisor).

Passei esses últimos dias por todos tipos de aborrecimentos, que vão desde a falta de dinheiro para pagar o plano de saúde até coisas mais prosaicas, como o fim do papel higiênico em casa. Problemas banais para a maior parte das pessoas, mas que para quem como eu é pouco prático, mora sozinho há tempo demais, trabalha em casa há tempo demais, mora no alto de ladeira, já teve carro e não tem mais (nem pretendo voltar a ter – mas isso é tema para uma próxima crônica), são barreiras quase intransponíveis, a depender do meu estado de espírito, civil ou etílico. Tive também um pequeno piriquipaque que me levou ao hospital. Mas isso, espero, também poderá ser tema de algum texto no futuro (supondo que eu tenha um).

Moro em uma rua, e é uma ironia grande dizer isso (vocês entenderão por quê), com instalações antediluvianas. Isso significa que, por aqui, quando chove, fico frequentemente sem luz, sem internet e ainda agradeço quando a minha cozinha não alaga (ficar no escuro e desconectado já é ruim o bastante, mas ter de fazer barquinho de papel para chegar até o fogão é muitas vezes pior). Isto dito, esses dias chuvosos me concederam tempo de sobra para terminar de ler (aproveitando a luz natural, é claro) a tão falada biografia de Clarice Lispector, de Benjamin Moser. Ela me impressionou, embora não a ache tão incrível o quanto ela foi incensada no momento do seu lançamento no Brasil, há uns dois anos (acredito, e não vou fazer fact check disso).

A biografia foi muito decantada pela sua reconstituição histórica, concatenada à interpretação das obras da autora. Pois é no primeiro desses aspectos que ela contém alguns erros, sendo um, pelo menos, bem grosseiro. Surpreendentemente, em se tratando de um autor americano, não foi em história do Brasil que encontrei o problema mais grave – nesse campo, que não é o dele, o autor joga um play safe compreensível, ficando nas referências óbvias, como o Boris Fausto, ou em um gringo especialista em estudar a gente, como ele mesmo, o Thomas Skidmore (claro que há muito mais autores). É em história geral que o livro mais falhou. Nos capítulos iniciais, as descrições do que aconteceu na Ucrânia, durante os pogroms, não poderiam ter sido mais vagas. Até onde eu saiba, pogroms foram ataques às comunidades judaicas da Rússia czarista, na passagem do século XIX para o XX. Motivaram a partida em massa de judeus dessas áreas, devido à sua grande violência e à expropriação dos seus bens, tornando a situação deles insustentável, especialmente na região da Podólia, de onde fugiu a família de Clarice. Os pogroms foram, se não promovidos, pelo menos tolerados pelo Estado russo. Tudo muito horrível, mas tudo uma pálida sombra do que ainda estava por vir…

Bem, Moser, nessas passagens, não se dá muito ao trabalho de explicar melhor o que estava acontecendo. Ele situa os pogroms até 1920, ou seja, até depois da Revolução. Ora, insinua, mas sem afirmar, que o Exército Vermelho teria promovido pogroms, coisa da qual nunca ouvi falar (será que não faltou um fact check aí?). Pelo que verifiquei após a leitura (aviso que não fiz nenhuma pesquisa exaustiva), até houve pogroms nesse período (1918-1920), mas promovidos pelo Exército Branco. Mas como Moser não explicita, por exemplo, quem afinal estava matando os judeus naquele momento, fica tudo vago e praticamente indefenestrável para quem não conhece um mínimo sobre o assunto.

No mais, fora algumas pequenas bobagens como qualificar Gilberto Freire como dos maiores intelectuais brasileiros (não é considerado essa coca-cola toda há muito tempo – sua teoria da Democracia Racial não podia estar mais errada – e merecidamente surrada – do que está), é um livro muito bem escrito e cuidadosamente sensível o suficiente para comover sem ser piegas. Chegou a me motivar a ler alguns romances de CL que nunca li, como A Hora da Estrela.

Devo dizer que eu não sou um fã 100% de Clarice Lispector. Isso porque não sou grande apreciador dos seus romances. Aquele hermetismo todo me cansa um pouco, embora eu não a desmereça de maneira nenhuma por isso. Porém, quanto aos seus contos, a história é bem outra. Parte de sua literatura que ela mesma considerava mais simples (talvez eu seja uma pessoa mais simples), desde que li “Feliz aniversário” e “Legião estrangeira” não tive a menor dúvida de que eu estava diante da melhor contista brasileira, desde Machado de Assis (foi algo curioso e que, devo confessar, me encheu de orgulho, saber, a partir da leitura de Moser, que o Erico Verissimo disse exatamente isso para ela, após ler os seus contos). Aquela elegância, aquela sutileza, aquela precisão, aquela, enfim, perfeição, são características dificilmente igualáveis. Não há nada a retocar nesses textos, e até a mais simples vírgula de Clarice Lispector é mais expressiva do que obra completa de muito marmanjo por aí.

Talvez, ao invés de a Hora da estrela, eu releia Legião Estrangeira essa noite. Se não faltar luz.

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