Refração e reflexões

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Newton refletindo sobre a refração: seria um raio boticarizador?

A refração é um fenômeno físico que ocorre quando a luz se propaga para um meio diferente, alterando sua velocidade de propagação, decompondo-se em raios com comprimentos diferentes e percebidos como cores distintas. Além deste efeito físico, a refração tem como consequência provocar a reflexão.

A bandeira colorida, em remissão ao arco-íris, é símbolo da luta dos homossexuais pela igualdade de direitos civis, mas suas cores têm revelado o cinza de toda uma sociedade.

As reações diversas a uma simples campanha de manifestação de apoio por meio de um filtro que colore a foto do perfil do indivíduo na rede social demonstra claramente o quanto o pensamento crítico ainda engatinha em solo brasileiro.

Já disse em outra ocasião que o ódio está na moda e continua. A ingenuidade do pensar médio do senso comum nacional consegue apenas enxergar disputas e lados em qualquer circunstância. São sempre “eles contra nós” e vice-versa. É assim que opera a estupidez: o ódio tem nacionalidade, tem cor e tem orientação sexual. O ódio se faz com certo e errado e nada há entre um e outro.

Percebamos que não é nova essa ideia de adereçar-se física ou virtualmente em apoio a qualquer causa. Há diversas fitas coloridas de luta contra doenças graves, colocamos fitas vermelhas nos automóveis em apoio à greve de bombeiros, vestimos preto em solidariedade aos professores, saiu-se às ruas com a camisa da CBF para apoiar a investigação contra o PT, colocam-se bandeiras brasileiras em apoio à seleção de futebol, criam-se hashtags e camisas em suporte a estrelas do futebol vítimas de bananas arremessadas em campo, entre outras incontáveis manifestações similares.

Sobram críticas, como sempre sobraram. Mas, o que preocupa é que críticas são essas, pois, por muitas vezes, são discursos de ódio e de construção falaciosa que quer apenas salvaguardar um pensamento que não se tem coragem de assumir, buscando ridicularizar aqueles que, engajadamente ou não, declaram seu posicionamento.

A primeira crítica conservadora idiota é afirmar que uma campanha é estúpida por ser modinha. Ora, a sociedade de consumo que o conservadorismo-liberal defende é a sociedade das modinhas!

Moda é um conceito matemático aplicado aos estudos estatísticos que indica o elemento mais frequente em um conjunto, daí sua extensão aos outros ramos da vida.  Usar a internet, o Facebook, vestir-se com calça jeans e tênis, comer feijão com arroz,  assistir às novelas da Globo, ler a Veja, tudo isso está na moda em nossa sociedade. Criticar algo porque “virou moda” é principalmente estúpido quando se defende o meio de produção que depende da moda – a frequência de consumo – para existir.

Depois, o absurdo de comparar lutas diferentes tomadas como excludentes, típico do pensamento maniqueísta, em que só há dois lados: se você é a favor dos gays, logo é contra a luta pela fome. De onde as pessoas tiram isso? Como se consegue um raciocínio tão burro depois de milhões de anos de evolução da espécie?

O pior não é a falácia que se propõe, mas o fato de que é o próprio conservadorismo o primeiro a criticar qualquer ação contra a fome! Bolsa-Família? “Tem de ensinar a pescar, não dar o peixe”. É o conservadorismo que chama os famintos de vagabundos, que lhes culpa pela pobreza na medida em que têm muitos filhos e por aí vai. Argumentar desta forma revela apenas mau-caratismo.

Há aqueles que, por viés contrário, mas ainda na mesma modinha – aquela canção típica que se repete para a diversão –, vão criticar a manifestação porque é uma demonstração de submissão ao imperialismo ianque. “O Brasil já permite a união homossexual desde 2013 e ninguém falou nada!”

Como assim ninguém falou nada? Houve comemorações, textos, apoios, passeatas e casamentos conjuntos. Agora o “Ministério da Verdade” de Orwell quer alterar o passado e dizer que por aqui passou despercebido o fato? Inclusive as reações foram violentas, como o incêndio em um Centro de Tradições Gaúchas onde haveria uma celebração coletiva de união entre casais do mesmo sexo.

Novamente, a divisão é o que marca esse duplipensar. Não comemorou a decisão daqui, não pode comemorar a decisão lá fora. Ainda mais quando é algo dos Estados Unidos! É interessante a contradição de se perceber que não fazia uma semana, falar que os EUA eram um exemplo de democracia, que o preço do automóvel lá é mais baixo, que lá a justiça funciona, entre um monte de outras coisas era absolutamente válido. Mas agora não pode mais. Tá anotado.

Por outro lado, há aqueles que, insistindo na divisão rasa que enxerga apenas inimigo em qualquer outro lado, vão falar da submissão aos interesses imperialistas. São os “anti-EUA”. Como se os gays, os negros, os pobres e os trabalhadores estadunidenses, fossem nossos inimigos. O ódio divide. A liberdade unifica.

Não foram os homossexuais que conseguiram um direito. Fomos todos nós que ganhamos o direito a ser menos estúpidos, menos intolerantes, menos divisionistas. Não quero mais direitos para os gays, para os negros ou para quem quer que seja. Quero direitos para todos. Não tê-los iguais nos revela o quanto estamos ainda na era da imbecilidade.

Que o mundo tenha todas as cores, que não tenha fome, que não tenha países, que não tenha religião. Que as pessoas possam discutir com honestidade, que possam se assumir por conta do que pensam, que possam ir além de mudar suas fotos – não adianta colorir a foto e continuar fazendo a piada que ridiculariza o gay, né? – e que as contradições sejam construtivas.

Enfim, que refração das cores nos permita a reflexão, que nada mais é do que o fato de a luz voltar ao meio do qual proveio. Assim, refletir é olhar para nós mesmos e ver que temos o ruim que tanto acusamos no outro. Vociferamos contra tudo, queremos que tudo mude. Passemos à necessária reflexão inicial sobre mudar a nós mesmos, só assim daremos outras cores ao mundo. Ainda que isso já saibamos de cor.

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