O príncipe

Nicolau Maquiavel, editor-chefe, presidente da Câmara, do Senado, deputado, senador e juiz de várias instâncias.

Nicolau Maquiavel, editor-chefe, presidente da Câmara, do Senado, deputado, senador e juiz.

O príncipe deseja o poder. E quanto maior seu desejo, maior os desvios de caminho que está disposto a tomar. Mais ainda: nem mesmo enxerga que haja qualquer desvio, pois traça-o de maneira reta, como a via mais curta para seu objetivo. Pouco lhe importa o como, assim como pouco lhe afeta a crítica ou a reprovação.

Ainda assim, o príncipe faz do absurdo uma bandeira agitada pelos muitos. Sabe que tem a seu lado uma máquina de produzir concordâncias, um leviatã em forma de mídia. E, não mais que de repente, a democracia vira a ditadura da maioria.

Vox populi, vox Dei. Dane-se que o estado seja laico, a democracia é, senão, divina. Pensar na média do que todos pensam é, de alguma forma, não pensar. Um senso comum sem qualquer bom senso. A aceitação das verdades, das versões e das posições que um deus qualquer anuncia por manchetes de jornal ou por chamadas televisivas submete o pensar aos subterrâneos da dominação.

O príncipe sabe da necessidade de estar ao lado da vontade do povo, por isso mesmo trabalha para que os interesses da nação estejam sempre de acordo com aquilo que ele mesmo quer. E é dessa maneira que surgem as máscaras de legalidade, interpretações regimentais e outros equilibrismos legalistas para justificar quaisquer práticas. No fundo, sabe o príncipe e seus aduladores que tudo aquilo era, de fato, desnecessário: os fins já fundamentam quaisquer meios.

E Goebbels age livremente. Outros tantos já foram adorados por milhões, não seria mais difícil aqui que em qualquer outro lugar. Heróis e vilões são feitos pelo lado da pena que escreve a história. A sociedade, sentindo-se atendida em sua necessidade imposta, aplaude e agradece.

É desta triste forma que acabará nos próximos meses o governo petista. Não por ser vítima de um plano maléfico, mas por tentar fazer parte dele e comandá-lo. Os espertos sempre acabam derrotados pelos mais espertos.

Maquiavel avisava que “os príncipes inteligentes tiveram cuidado de não reduzir a nobreza ao desespero, nem o povo ao descontentamento”. Lição ignorada no Planalto. A princesa, isolada, tornou-se nobre da mesma forma que sua corte há mais de uma década: traindo suas origens de plebeia. Pois bem, perdeu o lugar de onde veio, sem conseguir ser aceita naquele em que pretendia. A elite sempre foi elitista na escolha de suas companhias. É o epílogo: ei-la princesa sem reino, sem súditos, reduzida apenas àquilo que construiu enquanto teve a coroa: nada.

É impossível agradar a todos, já diriam alguns. Mas a nobreza encastelada em suas próprias estrelas provam que é possível desagradar ao conjunto completo de uma só vez. E é por conta disso, revestido com toda a legalidade fornecida pelo TCE, TSE e por tantos outros T – essa nobreza descuidada permitiu que toda sorte de saques fossem realizadas à dignidade do Estado –  que 2016 raiará com um príncipe diferente, tenham certeza. E nada mudará, apesar de que as manchetes dirão o contrário.

Por tudo isso, os príncipes pelejam entre si para ter suas imagens eternizadas. Uns brigarão por novas eleições, outros por herdar a faixa. Tudo dentro da legalidade, um tecido elástico que se estica até caber as vontades de quem o manipula.

O combustível do ódio injetado excessivamente na sociedade justificará tiranias democráticas e democracias tiranas. Mas, como a cólera não se controla (coincidentemente, o coléra também não e ambos matam rapidamente os mais pobres), o rancor se espalha em onda por todos os laços sociais. A Idade Média nos surge à frente como futuro promissor.

Persigam-se os diferentes. Recolham-se os miseráveis. Prendam-se as ameaças. Os apupos da massa mostram que o círculo completou-se e que tudo é permitido. Em nome do bem. Em nome de quem? Saqueadores da moral podem colocar-se como benfeitores da ética: “os preconceitos têm mais raízes que os princípios”, como em outro trecho confidenciou-nos Maquiavel.

Mesmo que haja o perigo de tanto ódio voltar-se contra os seus, os candidatos a príncipe e seus apoiadores minimizam a possibilidade. O poder é tanto e tamanho que o prejuízo vira lucro. A moça do tempo do novo todo-poderoso clero midiático foi vítima do ódio. Camisas e hashtags, vamos defendê-la. Não mexam com nossos negros!

É interessante notar que a mesma organização que escala negros em papéis secundários em sua programação e que propaga a cultura do ódio para dividir a população em seus telejornais, repudia a ação patrocinada por si quando dela torna-se vítima. É a “patroa” defendendo a criada da casa, já quase da família. Tanto que é a única a não ter nome completo entre os “jornalistas sérios” (tive dúvidas se punha as aspas em sérios ou em jornalistas) da emissora. A ela, basta ser Maju.

Conspirações à parte, o ódio venceu. A rainha está nua e à mercê da rua. O partido partiu-se e partirá. Fez por merecer, é certo, mas o problema é que cairá pelas mãos dos que imporão a austeridade grega ao exótico Pindorama. Poucos governando para bem poucos, mas aplaudido por muitos. O que importa? “ A ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela.” Maquiavel adverte e o príncipe leva em conta tais ensinamentos. Talvez por isso – e por tudo o mais – reinará ao final.

Para a desgraça de tudo, mas felicidade geral da nação.

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Categorias: Política | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “O príncipe

  1. Eduardo Felipe

    Interessante e intrigante.

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