Oxi, ou, está na hora dos bancos fazerem sacrifícios, e não os povos

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Vi esses dias com minha filha o desenho “Bob esponja, um herói fora d’água”. Logo no começo do mesmo, há uma cena muito interessante e ilustrativa da situação da Grécia, e dos endividados de maneira geral. Resumindo a cena: Bob Esponja abre uma barraca de soprar bolas de sabão (ao preço módico de 25 centavos a soprada). Patrick quer soprar uma bola, mas não tem dinheiro. Bob Esponja empresta os 25 centavos. Patrick pega o empréstimo e paga a Bob Esponja, retornando a ele a exata mesma moeda que recebera. Patrick não consegue fazer a bola de sabão. Bob oferece então um curso para aprender a fazer bolas de sabão, ao custo dos mesmos 25 centavos. Patrick pega emprestado e paga pelo curso, e então a mesma moeda volta a circular de Bob a Patrick e uma vez mais a Bob. Patrick, agora, deve 50 centavos a Bob Esponja e não tem nada nas mãos além da lembrança do doce momento em que soprou uma bolha de sabão (a própria imagem da efemeridade).

Mesmo para um desenho afeito aos subtextos como Bob Esponja (referências à literatura são constantes, Allan Poe e Joseph Conrad são “convidados” frequentes), mesmo com todas as piadas inteligentes referenciadas na biologia marinha (a lagosta halterofilista, o plâncton com delírio de grandeza, ou uma simples conversa de uma esponja, uma estrela-do-mar e uma lula – três animais invertebrados – sobre rotação pélvica), deve parecer exagero julgar que essa cena seja uma referência implícita à situação da Grécia, ou mesmo que, mais modestamente, seja uma ilustração da Lei de Say (aquela que diz que a oferta gera a sua própria demanda), mas é claro que, ainda que involuntariamente, o quadro econômico atual do capitalismo altamente financeirizado ficou bem caracterizado.

O que se passa na Grécia, no momento, é exatamente isso: querem que o povo grego pague, na base de (mais) sacrifícios intoleráveis, por uma dívida não feita por eles, da qual eles pouco ou nada se beneficiaram, em benefício dos plutocratas de sempre do sistema financeiro internacional. Teme-se, agora, pelo destino do projeto europeu, consolidado pelo Tratado de Maastricht (1992), que deveria construir uma Europa próspera, solidária e, principalmente, tendo em vista o histórico do continente, pacífica. Essa prosperidade seria garantida, entre outros dispositivos, pela presença de fundos de convergência, por meio dos quais dinheiro dos países mais ricos era canalizado na forma de investimentos para os países mais pobres. Tudo isso, para além de objetivos humanitários, sempre conteve meio disfarcadamente o intuito de deter a migração interna do continente, que levava trabalhadores desses países mais pobres a tentarem a sorte em visinhos menos desafortunados (Portugal sempre foi um grande receptor desses fundos). Funcionou bem ao ponto de alguém, bem espertamente, propor a mesma estratégia para desenvolver os países das antigas colônias europeias, detendo assim também a migração transcontinental, mas, infelizmente, este último objetivo recebeu bem menos atenção do que poderia (afinal, quem migra para a Europa foge da miséria, da guerra civil e etc., e caso os seus países não fossem confrontados por essas situações, ficaria na sua própria casa).

O problema é que, se o projeto europeu é um projeto de solidariedade – ao menos para os próprios europeus – o projeto da zona do euro nunca o foi. Para além das dívidas perdoadas pela Grécia no passado, e hoje tão relembradas no facebook, vale lembrar que a união monetária favoreceu e muito os produtos da poderosa indústria alemã, que sem as diferenças de câmbio em relação ao marco alemão, passaram a ser comerciados nos países ZE a preços competitivos. As regras de austeridade fiscal, prevendo limites estreitos de gasto público e endividamento – aquelas que agora todos enchem a boca para lembrar que a Grécia nunca cumpriu – também foram inobservadas tradicionalmente pela própria Alemanha, nos momentos em que assim lhe conveio. O projeto da ZE do euro é um projeto de austeridade, ou seja, um projeto de conveniência para banqueiros e sistemas financeiros.

Os esforços tanto da primeira quanto da segunda guerra mundiais foram realizados a custa de alto endividamento, assim como os esforços para reconstrução, pagos com os recursos do plano Marshall, também. Boa parte da prosperidade posterior da Europa deve-se ao perdão de dívidas, ou a reescalonamentos generosos para o pagamento das mesmas (no caso, “generosos” significa sem maiores traumas para a população). Ou como disse Piketty recentemente, “a Europa foi fundada na ideia de que o perdão das dívidas é um investimento no futuro”, e que, portanto, é “hipocrisia” a insistência alemã em escorchar a Grécia, ainda mais quando um estudo do próprio FMI divulgado semana passada admitiu que a dívida grega é impagável, indiferentemente ao grau de sofrimento extra a ser imposto ao conjunto da sua população.

O default grego está muito longe de se tornar o epicentro de alguma (nova) crise global. A economia grega é muito pequena e muito marginal para colocar qualquer sistema em risco, mesmo o europeu, e, a despeito de todo esse estardalhaço, na verdade o Siriza se guia por uma agenda quase centrista, eu diria. A pauta deles é um simples reescalonamento da dívida, com prazos maiores, juros menores, e sem mais sacrifícios para o povo grego. É muita vela para pouco defunto.

O que, então, motiva todo esse terrorismo (termo muito bem escolhido por Yanis Varoufakis para definir o que a Troika está fazendo)? Na visão deles, será necessário um castigo exemplar, para desincentivar outros devedores a seguirem o mesmo caminho. Vão colocar muito abutre a roer aquele fígado, e já vislumbro futuras campanhas internacionais de solidariedade aos gregos. A Grécia e o povo grego pagarão um preço alto pelo seu heroísmo digno de Homero: o sistema financeiro internacional, concretizado na figura da Troica, não deixará isso barato, e sendo a moeda do país impressa fora dele, a capacidade de fustigar é muito elevada. A generosidade, ou “generosidade”, faz parte de um passado cada vez mais distante.

Quando o assunto é Grécia, eu sempre digo que se alguém se endividou irresponsavelmente, é porque alguém emprestou irresponsavelmente. Os bancos americanos sabem para quem (e quanto) os bancos ingleses estão emprestando, que sabem, por sua, vez para quem os bancos alemães estão emprestando, os bancos franceses…, e por aí vai. O mundo se tornou uma verdadeira promiscuidade bancária planetária. E mais. Ninguém nesse mundo é besta. Todos os credores que agora do alto da sua superioridade moral criticam a corrupção e a ineficiência dos governos gregos (principalmente os do partido da Nova Democracia) são os mesmos que financiaram estes mesmos governos, dando a sustentação em cima da qual essa ineficiência se perpetuou. Por que, então, emprestaram, em primeiro lugar?

A resposta para tudo isso é simples: dívida é o melhor negócio. Sangrar lentamente um país por anos torna esse país uma verdadeira galinha dos ovos de ouro para o sistema, e ninguém quer que a Grécia pague: querem que ela sangre. Uma das citações mais surradas da nossa época é aquela ao poema de Charles Baudelaire que diz que o maior truque do diabo e fingir que ele não existe. No processo de desregulamentação global do capitalismo posto em operação nos últimos 30 anos (Reagan nos EUA, Thatcher no RU, consenso de Washington e Basileia II foram os instrumentos mais importantes desse processo, e já falei muito deles por aqui), o discurso neoliberal fez a mágica de se travestir de um cientificismo e de uma objetividade que ele na verdade não tem. A partir do discurso do economês, transformou em “verdade” aquilo que é ideologia por definição: a visão e os objetivos de classe dos donos do capital internacional. E a UE do Euro, infelizmente, se tornou uma aliança de plutocratas e tecnocratas que vendem a sua procura por lucro como objetividade e metas de superávit primário.

Enquanto isso, em Pindorama…

Que príncipes, que raciocínios terão convencido Dilma a acorrentar o povo brasileiro ao mesmo rochedo ao qual os gregos, agora, alegremente, dão as costas? Não consigo entender como ela e o seu partido cederam a tal chantagem, e caíram em tal armadilha. Em breve, quando os efeitos desse ajuste se fizerem sentir em sua plenitude (desemprego, principalmente, que já está atingindo até o comércio popular), quando tudo desmoronar, veremos muito provavelmente o povo nas ruas. E a dita oposição (que nunca deixou de ser situação, na verdade), vai poder dar ares de legitimidade aos seus gritos histéricos de impeachment, abrindo o caminho para algum Aécio da vida. E Dilma terá merecido. Pena que o igual que virá depois será pior, pois esse igual virá reforçado e reforçando a pauta ultraconservadora do pior legislativo dos últimos trinta anos. Os projetos de Cunha, para depois da redução da maioridade penal, não ficam a dever a este último em termos de retrocesso medieval. Há projetos que vão desde aumento de penas para médicos que realizarem cirurgias de aborto até a definição clara, nos códigos competentes, de que casamento é entre um homem e uma mulher.

Essa estranha oposição que jamais deixou de ser situação vai acusar o governo (na verdade já acusa) por tudo de ruim que ela mesma pressionou para que acontecesse. O ridículo de creditar os problemas atuais da economia brasileira a uma suposta incompetência daquilo que eles chamam de “lulopetismo”, ignorando uma crise mundial que ainda está longe de ter acabado e as próprias dificuldades estruturais de corrigir uma desigualdade social histórica e profundamente anticidadã construída ao longo de séculos. Termino cedendo três links de textos que considerei os mais relevantes, de todas as análises que li essa semana sobre Grécia. Não fui nas revistas especializadas, pois cansei-me delas um pouco. Todavia, seguem:

Links: este artigo é do Zizek, como sempre brilhante, mas do qual discordo em parte aqui. Ele diminui a importância do medo do capitalismo de que o exemplo grego seja seguido por outros países à beira da insolvência (leia-se Itália, Espanha, Irlanda e até mesmo a França). Não consigo concordar com isso. As perdas com a Grécia serão sempre modestas, caso qualquer um desses outros países seguir o caminho, e para mim isso está no centro da explicação da inflexibilidade da Troika. http://analyzegreece.gr/topics/greece-europe/item/270-slavoj-zizek-on-greece-the-greeks-are-correct/

Esse artigo do Gardian também está muito bom. É uma visão bem britânica, e tem alguns equívocos na parte histórica, e exageros, mas as suas virtudes sobressaem-se com folga aos defeitos: http://www.theguardian.com/commentisfree/2015/jul/07/greece-financial-elite-democracy-liassez-faire-neoliberalism?CMP=share_btn_fb

Esse terceiro é o único em português e na verdade o melhor deles. Vai mais diretamente ao ponto, que tangencio apenas no meu artigo, da questão da plutocracia e da dissimulação da luta de classes: http://cartamaior.com.br/?%2FEditorial%2FO-golpe-em-marcha-mirem-se-no-exemplo-das-liderancas-de-Atenas-%2F33909

Observação final: duas semanas atrás, prometi passar a tratar de temas mais leves e que não me exigissem tanto, aqui no Transversos. Disse que passaria a escrever crônicas contando o meu cotidiano desinfeliz ou coisas que o valham. Como podem ver, falhei miseravelmente com as minhas promessas. Inclusive, ninguém sequer leu o compartilhou as pobres das croniquetas. Não sei se eu sou muito ruim nisso, ou se as pessoas que acompanham o blog já esperam de mim um outro tipo de texto. Seja como for, decidi manter os textos “sérios” por aqui, e procurar outra forma de expressar as minhas angustias existenciais, artísticas, criativas, ou o que seja. Sugestões?

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Categorias: Sociedade | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Oxi, ou, está na hora dos bancos fazerem sacrifícios, e não os povos

  1. Perfeito seu texto. Os bancos estão acostumados a se aproveitar das pessoas ao redor do mundo faz tempo. E ainda quando se dão mal são ajudados pelos governos. E nós, somos ajudados por quem?

  2. Pergunta:

    Porque os bancos aproveitam-se mais de uns povos do que de outros?

    ou seja,

    Como – e, de novo, porque – os bancos escolhem seus povos-presas segundo a Ciência da Vitimologia exposta por Vs. Sas. ?

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