Estelionato à grega, ou, oxi é oxi

"Olha a cobra! É mentira"

“Olha a cobra! É mentira”

Em Atenas, neste exato momento, em bom português, o pau está comendo. Oxi é oxi, diz o povo grego perante a capitulação do Syriza. Que seja ouvido.

O retumbante fracasso da política fiscal de metas de austeridade na Grécia é prova científica mais do que o suficiente de que a tal política não funciona (como se não houvesse antecessores o bastante para já haver deixado isso claro, Argentina e México que o digam). Negar isso significa ou fazer parte da plutocracia que lucra com ela, ou ser um bobo que acredita no discurso muito mal disfarçadamente ideológico escondido por trás do “tecnicismo” neoliberal. Austeridade, não custa repetir, não é o remédio amargo que salva o doente: austeridade é bom para bancos. O problema a que a adoção dessas medidas se propunha a resolver, o pagamento das dívidas, não se resolveu. Pelo contrário, se agravou, e o pacote de austeridade gerou um empobrecimento e uma perda de bem-estar da população sem precedentes e mergulhou o país na pior crise econômica da sua história. Se isso não é um fracasso absoluto, alguém precisa redefinir com urgência essa expressão.

Quanto às mudanças de direção do Syriza, para  Habermas, por enquanto não é seguro afirmar em que medida elas de devem a constrangimentos políticos, inexperiência ou incompetência. Se o referendo foi uma tática do Alexis Tsipras para voltar fortalecido à mesa de negociações com a troika, deu errado. As medidas se tornaram ainda mais duras. Se foi uma espécie de tentativa de agradar o público doméstico, mostrando iniciativa, e ao mesmo tempo agradar a troika, terminando por ceder, o resultado foi uma catástrofe (taí um governo para o qual eu não vejo muito futuro). Tendo a seguir mais a análise do Partido Comunista Grego (linko no fim).

Após o anúncio do novo pacote, os índices de bolsas de valores ao redor do mundo, mas especialmente na Europa, é claro, começaram a subir. São os mercados abrindo champanhe indecentemente às custas do sofrimento de todo um país, na sequência de uma capitulação que o capitalismo claramente vê como vitória. Vitória de mais um exemplo de estelionato eleitoral, semelhante ao que o PT fez aqui no Brasil, quando adotou a política econômica do pior adversário, quando a sua campanha havia sido fortemente construida em cima da negação e do medo da implementação dessa política.

Sou contra o governo Dilma por diversas razões, embora sem histeria e sempre pela esquerda. Sou contra devido à forte cooptação / infiltração / repressão aos movimentos sociais, à política de crescimento com endividamento via entrada de capitais especulativos e do grande incentivo ao setor primário-exportador, leia-se soja e ferro, com as consequentes destruições do Cerrado e da Amazônia, do atropelamento das terras indígenas e etc. (lucra-se agora, no imediatismo, mas se pagará um preço incalculável por isso no futuro). Já disse tudo isso por aqui dezenas de vezes. Não sou contra, por outro lado, programas sociais que garantem condições mínimas de sobrevivência para quem não tinha nem isso. Mas que estamos indo para o fundo do poço, isso estamos, pois os efeitos do ajuste do PT ainda mal se fizeram sentir.

 

XXXXXXX

Transversos também é cultura culinária: o arroz à grega, que rendeu o trocadilho na origem deste artigo, não tem nada de grego. Parece na verdade um desses muitos pratos que surgiram da necessidade do aproveitamento de sobras. Um grego ficaria muito surpreso se o apresentassem como representando a sua cultura.

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