A velha novela dos bobos

bobodacorte

Eduardo Cunha não é o maior vilão do Brasil. Tampouco se aproxima de herói. Nem mesmo Dilma pode ocupar quaisquer desses espaços sem uma boa dose de má intenção para qualquer interpretação. O cenário político brasileiro atual é composto por tantas marionetes, por tantos títeres que não sabemos quem manipulas os condões e interesses de um enredo tão mal escrito.

A canalhice toma conta das páginas de jornal que vendem uma esquizofrenia ideológica à população. A Operação Lava Jato vem sendo o grande sucesso da imprensa há vários meses, com suas fases sucedendo-se como capítulos de uma novela empolgante e emocionante.

Vilões são necessários a uma boa trama rocambolesca. Petralhas! Bradará a audiência. Denúncias de corrupção escorrem pelas linhas dos periódicos a uma velocidade impressionante. E vão fazendo vítimas. Deputado citado. Senador envolvido. Ex-ministro denunciado. O Juiz Moro é o xerife que vai limpar a cidade. O país. O arauto de nosso combate contra a corrupção.

Denunciados se entreolham e as câmeras agem com pistolas que lhes ameaçam qualquer direito possível à defesa. A opinião pública já lhes condenou. Corruptos! Queremos o sangue dos políticos. Contradenúncias! O delator é um indivíduo sem moral para fazer acusações aos outros. Seguem-se falácias que aumentam a audiência e o bafafá dos capítulos.

De repente uma leva de empresários visita a cadeia. Suspense. A história ganha ares de dramaticidade. E então, articuladamente, alguém faz a revelação que serve de chamada ao enredo inteiro: “se eu contar tudo o que sei, não sobrará ninguém em Brasília”.

A claque se deleita. Revistas estampam ilações como verdades, insinuam-se ligações entre o governo, o fulano, o PT, o paraíso fiscal e qualquer outra coisa que equivalha. E tome imagem, perseguição aos condenados, ops, acusados, machetes, reportagens. Ah, que delícia de Ibope.

As outras operações que fujam do enredo são deixadas de lado. Não merecem o horário nobre. Vamos fazer sangrar a presidência, vamos vilanizar o PT. A delação premiada deveria consistir em infratores de menor grau denunciarem aqueles de maior importância no esquema, mas torna-se aqui outras vontades: é o grande corruptor, preso, que recebe vantagem se acusar algum político.

E, como em um erro de gravação, como em um furo do roteiro, o endeusado presidente da Câmara dos deputados, alçado a protagonista da luta contra o PT – apoiado midiaticamente por um sem número de maus roteiristas de imprensa tupiniquim – cai na mesma armadilha criada para pegar as moscas do Governo Federal.

Daí, o discurso fica louco. Chegou-se a falar que Lava-Jato havia sido orquestrada pelo Governo Federal para pegar Eduardo Cunha! Impressionante como subiu à cabeça do rapaz o pseudoprotagonismo que a mídia lhe deu.

Por outro lado, em um contra-ataque tão louco quanto cômico, a turma do PT passa dar crédito ao até então desacreditado delator. Ou simplesmente perceberam que dá para não cair sozinhos e fazer um bom estrago consigo.

A revista de ficção semanal tenta ainda salvar seu herói de momento, mas Cunha é indefensável. Não por suas acusações, essas são tão sérias e graves quanto todas as outras, ainda que possam repercutir menos, mas pelo papel de bufão que sobrou ao presidente da Câmara: um demagogo de ocasião que trazia consigo a mídia para apoiar causas “populares”, como na questão da maioridade penal; e outras bem particulares – contra as mesmas pesquisas de opinião – como no financiamento privado de campanha, necessário à manutenção dos cordões que lhe dão a vida no Congresso.

De forma atrasada, águas de março vão fechando um verão de acusações. Collor e seus automóveis, Cunha e suas doações, o PT e seus esquemas. Uma novela mal-feita, sem heróis e repleta de vítimas: o contribuinte, a população e a imbecilidade dos que acusam apenas um lado de corrupção. Ratos de partidos de “oposição” se escondem e torcem para que não haja divulgação nem de outras operações – encabeçadas por eles –, nem de outros depoimentos – vai que… –, ou sobre relações com governos anteriores – cruzes, nem pensar!

É o fundo do poço, é o fim do caminho. O bobo da corte está nu. Mas estava crente (com trocadilho, por favor) que seria ele a fazer isso com o rei. Não faz. Esbraveja como se fosse o protagonista. Não passa de um coadjuvante ocasional que ganhou algumas falas a mais.

Eis uma história onde só há vilões. Magos em sumir com dinheiro público. E um bando de trouxas que acredita apenas em partes de fatos. De coração fechado. Prego, pé, estepe. Águas imundas que inundam.

É a lama, é a lama.

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Categorias: Política | 5 Comentários

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5 opiniões sobre “A velha novela dos bobos

  1. Equívoco Humano

    Pois é, interessante, cada um tem seus heróis. Tem blogs que serviram de cabo eleitoral da atual presidente, pregando o “mal menor”, e só começam a falar da Lava Jato agora que envolveu o presidente da Câmara, estranho né?? Tão isento quanto a Veja… Por mim que a delação renda punições de verdade aos entes políticos de todos os partidos. não apenas tapas leves, como aconteceu no mensalão. Afinal na cadeia hoje, só quem não era amigo do rei, Marcus Valério o operador, foi muito mais penalizado que os mandantes, só no Brasil mesmo.

    • Walace Cestari

      Você deve andar por muitos outros blogues… Por aqui, defendi voto nulo e coloquei o PT como traidor da classe trabalhadora. Mais que isso, descobrir a Lava-Jato é também descobrir o HSBC ou a Zelotes. O combate que o próprio sistema dá à corrupção é mera acomodação de interesses. A corrupção é inerente ao capital e, por diversas vezes, isso desfilou diante de seus olhos de leitor.

      Só para deixar claro algo que você não parece ter entendido na infeliz comparação com a Veja: não faço jornalismo, não tenho compromisso algum com a isenção. Eu tenho lado e deixo claro qual é. Não recebo nada de ninguém para afirmar o que penso. E talvez isso deixe muita gente chateada: nem sempre se tem a coragem de assumir o verdadeiro discurso que possui.

      Amplexos

      • Equívoco Humano

        Não é só tu que escreve para este blog, ou é, mas sim leio muitos blogs. Também critíco e acho louvável a tua preocupação quanto ao HSBC ou Zelotes, casos flagrantes de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Porém o que é insuportável é o tratamento dado ao corrupção inerente ao sistema. Pois só aceita a tal “corrupção inerente” quem é corrupto por natureza. Se procedes exatamente como a Veja, qual o teu direito de criticá-la? A Veja claramente tem um lado, assim como a Carta Capital,e sinceramente, não existe jornalista completamente isento, aliás nenhum ser humano totalmente isento, todos temos convicções e interesses. Em todas as vezes que li teus escritos, nunca vi uma crítica real, sempre algo como “o PT traiu, mas seria ainda pior” ou “o PT está passando a conta para os trabalhadores, nada diferente do que oposição faria”. Ou seja defesa através de acusação no futuro do pretérito???? É possível???
        Infelizmente eu também tenho um lado, é aquele que paga a maior carga de impostos no mundo e sou desprovido da contrapartida. Aquele que olha para os números e não entende como pode sermos a sétima economia do mundo, estarmos além da posição 70 no IDHM e termos a carga fiscal que temos. Isto que estamos com um governo dito pelo social.
        Estabelecemos então as nossas semelhanças e diferenças, não recebemos nada para escrever. E um de nós não aceita corrupção… De qualquer forma gostaria da tua opinião sobre os números como PIB, dívida pública, carga tributária, IDHM, inflação, variação cambial, juros… Talvez assim tu enxergue as minha preocupações e eu possa escrever um comentário dizendo: “Ótimo texto, orgulho de ser teu leitor”, mas por enquanto ficamos por aí.
        P.s.: Podes não acreditar, mas teria prazer em fazê-lo.

        Reflexos

      • Walace Cestari

        Realmente não estamos preocupados com a mesma coisa. Você busca uma solução dentro do que está aí, dentro do tamanho de PIB ou de inúmeros números.

        Não, eu não defendo o PT. Aliás, nunca votei em nenhum desses governantes petistas que passaram por Brasília. Eu não acredito na democracia representativa, muito menos no PT.

        De fato, acho outras correntes bem piores, por não ter nelas nenhuma contradição a se apontar: falam e agem pela classe que é dona dos meios de produção.

        A corrupção não está só no governo… Desvia dinheiro público o que não faz chegar aos cofres públicos o que deveria. A corrupção está no sistema, está no empresário, está no cidadão. Ouso dizer que há muito mais de corrupção particular que aquela com dinheiro público. Afinal, não existe capitalismo sem uma base sólida de corrupção.

        Talvez por isso fique evidente quem de nós não aceita corrupção e quem de nós quer apenas diminuir a corrupção do outro.

        Quanto à Veja, ou você não lê a revista ou o blogue. Não sou jornalista, novamente, não procedo igual a Veja. Simples assim. Acuse a Carta Capital, a Exame ou sei lá que veículo. Não compare coisas distintas com o mesmo padrão.

  2. Equívoco Humano

    Ah bom, quando tu falas não acredito na democracia representativa, muitas coisas se explicam, tem uma alternativa falida a muito tempo onde a violência, os racionamentos, e o favorecimento de membros de partido, foram a regra, sem nenhuma exceção. Quantos aos números, não adianta discutir números com quem não sabe lê-los, Tens razão, não és jornalista, não és economista, não és cientista político, por isso teus escritos são sem conteúdo só carregados de credos e ideologias, ou seja raso como um pires. Nunca existiu sistema perfeito, o Brasil que o diga, mas sem democracia representaiva e economia planificada??? Vai estudar, por que tu não leio mais…Até porque quem defende direitos humanos obrigatoriamente defende a democracia.
    Felipe Marques
    Economista desde 1997.

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