Da comédia humana meu tempo é quando

Eu acho que toda vez que alguém dissesse  “tempo é dinheiro” devíamos comer a pessoa. À moda tupinambá. Digo isso porque banqueiros não costumam circular por aí falando essas coisas então dá para ter certeza que é alguém com algum poder especial. E os tupinambás devoravam as pessoas para incorporar suas qualidades.

Agora vamos à crônica pândega. Comprei um fogão. Simplão. Primeiro que não sou de luxo. Segundo porque apaixonei por um exemplar de 3 bocas com um queimador daqueles grandões que aquecem uma chaleira em segundos. Fetiche de tempo. O fogão chegou rápido. Tão súbito que eu nem tinha organizado a instalação. Algumas horas depois, colocado fora da caixa, a surpresa. A famosa mesa de trabalho, que eu, ignorante, chamava de “ a parte de cima” veio toda amassada. Ligo para o SAC da Loja de Cacarecos e sem surpresa. Gravação, burocracia, o de sempre – em que posso ajuda-la, vamos estar transferindo, protocolo, etc.etc. – mas, enfim, mais surpresa. Não podiam repor a mercadoria porque esgotada. Escolhesse outro, claro: eventual diferença de preço, por sua conta, senhora. Flws, vlws, bora engolir a sacanagem senão a vida não anda! Mas olha só, no site não tem mais nenhum modelo magro com um queimador grandão daqueles. É, diz a moça, então a senhora vai ter de ligar na fábrica para ver se assistência técnica troca a peça. Claro, eu concordo, comprei direto da fábrica então nada mais justo reclamar lá. Peço desculpas pela dúvida: mas e a tal garantia de troca? A senhora comprou nosso “ garantia de troca” à parte ? Lamento não ter comprado mas e o nosso “direito do consumidor” embutido? Não tem este acessório no script. Então ela recita devagar: as opções que eu tenho senhora, são: volte ao site, ou então escolha outro, se for mais caro… repete. Coloco meu chapéu de burra e, ainda movida pela paixão ao queimador e pelo amor à Humanidade, ligo para a fábrica a milhares de km. Me dão outro número de telefone na cidade. Ligo. De volta à fábrica. De novo à loja. Ok, vou resumir. Cerca de 8 emails, fotos do cacareco, 6 telefonemas para a loja, outros tantos para a fábrica, suas assistências técnicas e quase dois meses depois, apesar de pagar pela reposição da peça na esperança de abreviar o calvário, descubro que o acendedor do forno também está avariado e veja a que ponto chegamos. O de dividir com vocês meu mico-experiência de consumo mesmo sabendo que, tirando eu ser otária nível ninja , não é tão extraordinário assim.

Pra quê falar disso? Bem, seis semanas é bastante tempo, ainda mais com uma caixa de fogão no meio da casa, conversas por telefone e e-mails surreais, encaminhamentos deste para aquele outro, descrições e fotos do óbvio, respostas sem sentido, cópias de códigos, tolices sem fim, até que eu finalmente me tocasse: eles não querem resolver, querem que eu desista. Ocorre que infelizmente herdei uma maldição, digo, um conselho da avó : “ Só perde quem desiste e se perdeu não perca a lição”. Deveria desistir? Ou o que deveria aprender com esta oportunidade educativa? Pensei, pensei, pensei e concluí. Organização. Esta é grande lição que me ofereceram. Como são bem organizadas estas empresas. Economizam na estocagem, no treinamento e na contratação de funcionários, podem entregar sucatas, prestar serviços medonhos e ainda assim nos chantagear a trabalhar para elas de graça para ajudar a economia do país crescer. Fiz as contas. Pelos meus cálculos, entre telefonar, escrever email, tempo gasto e comida fora de casa, fiz girar a roda da fortuna nacional em valor monetário superior ao preço do fogão. Sensacional. Parabéns a todos os envolvidos. Que pessoa gênia esta que bolou esse jeito de usar meu tempo para papar seus lucros. Se pudesse, comê-la-ia.

Agradeço também pela oportunidade de pensar outras situações que o atraso leva ao lucro. Há pouco tempo me contaram que havia treinamento em “habilidades negociais” para compradores de supermercados que incluía esta recomendação: servir chá de cadeira ao fornecedor para aumentar sua insegurança e flexibilidade negocial. Vejo que não é coisa nova, apenas foi incorporada às práticas de atendimento do consumidor final. Tem gente que diz que nada disto acontecia se vivêssemos em uma sociedade capitalista fofa de verdade. Reza a lenda que numa dessas, a livre concorrência levaria a loja de cacarecos à máxima preocupação com minha satisfação consumidora por medo de ver meus pixulés ir parar no caixa do concorrente. Neste capitalismo de fadas cancelar a autorização do meu cartão de crédito seria fácil como dar dois cliques no mouse para encomendar o produto. Minha indenização cobriria o tempo de reclamar no Procon, não exigiria meu deslocamento, impressão de documento, formulário, enfrentar fila e os advogados desapareceriam. Além disso, em país com 210 milhões de habitantes haveria mais que meia dúzia de empresas loteando o mercado e nenhuma suspeita de acordos por debaixo dos panos para manter a oferta, o preço e as condições do jeitinho que é melhor para elas. Se houvesse possibilidade do livre mercado existir, talvez se pudesse castigar cartéis de empresas malfeitoras importando tudo sem impostos, sem quebrar a balança comercial e sem provocar desemprego no país. O que me leva a concluir que é melhor eu perder a esperança de ver a rede de cacarecos que me enganou esmagada por alguma corporação gigante internacional, falida, destruída, arrasada, justiçada amarrada num poste, me vingando do fogão amassado. Que pena.

Pelo menos não estou num país socialista –bolivarianista-cubano-norte coreano por isso a minha liberdade é gloriosa. Lá eu não teria opção de escolher o modelo que mais me agradasse, talvez tivesse que esperar dois meses por um simples fogão, funcionários públicos, má organização e um incompetente chefe do Partido Comunista, safado, vivendo no luxo, nos obrigaria todos a trabalhar para ele, que horror, ainda bem que não. Então, mesmo que o telefone seja caro e apenas 4 conglomerados tenham loteado as bocas, olhos e orelha nacionais, prestem idêntico serviço ruim e que, por isto mesmo, nos deixem sem rede à vontade e ir ao Procon seja correlato a obrigar a espancada participar da reconstituição do crime de espancamento e mesmo que tudo isto coincida com qualquer outro eventual desastre em minha vida, posso usar aquela camiseta escrita freedom e gozo da orgástica liberdade de xingar qualquer empresa ou governo à vontade sem que nada aconteça. Nada mesmo. Com eles, claro, que sequer sabem o que acontece comigo bem debaixo dos seus altos negócios. Eles lidam com números e os números acusam lucro. Há altos lucros e quando há altos lucros, está tudo bem. O que não estiver vai ficar, pedimos desculpas pelo atraso.

O curioso é que num país que a maioria vive de vender suas horas de trabalho, o atraso não torne esta maioria rica. O serviço atrasado significa mais horas vendidas para fazer o trabalho, não? Lógico que não. Mas suspeito que pelas contas da Loja de Cacarecos a economia da área de estoque, a contratação de funcionários a baixos salários, a falta de planejamento eficiente de transporte, a embalagem ruim das mercadorias, a falta de treinamento e os obstáculos às reclamações possam gerar lucros. Já que o fato dos cacarecos não durarem nada ou quebrarem à toa, como sabemos, são a alma do lucro da sociedade de consumo.

Parênteses. Na minha particularíssima experiência há evidência de alguma desinteligência extra pois um acidente daqueles com o produto embalado deixaria marcas na caixa. Como não havia, é razoável supor que alguém, para não ter de responder pela avaria, meteu-o numa caixa nova atrasando a minha percepção do logro. A funcionária da Loja não tem esta hipótese no seu script, alguém dentro da empresa transportadora teria dado esse jeitinho caso o acidente acontecesse lá? Seria o caso de alguma das empresas ter funcionários insuficientes para seu bom funcionamento mas exigir que o funcionário pague por algum acidente destes? Não importa. A fábrica lucrou, a transportadora lucrou, a loja lucrou. E, como se sabe, os lucros chegam pontualmente aos donos dos lucros. O atraso da minha vida é o lucro deles.

O atraso de muitos adianta bem o lado de alguns. E gera quase paradoxos.

Vejamos o caso da redução penal. Atrasaram qualquer discussão séria sobre a delinquência juvenil e as razões de seu recrutamento para o tráfico de drogas num caso claro de atraso que adianta. Adianta o quê e para quem? Adianta o lado dos ricos senhores de terno e gravata que na TV ou no rádio, no jornal ou no púlpito, na escola ou no parlamento fabricam sua vara de pescar dinheiro público. Sabe quanto se pode pescar dentro de um cofre público por cada cabeça de preso em uma penitenciária privatizada? Ou seja, quanto dinheiro do Estado se pode recolher para virar patrão de uma empresa que explora encarcerados? Dois mil e setecentos reais em média. E sabe como são os contratos de destas empresas com os governos ? O governo se compromete a manter 90% das vagas ocupadas, pagando por elas. Que tal hem? Abre uma pastelaria e tenta fazer a vizinhança assinar um contrato de que vão comprar 90% dos seus pastéis, chova ou faça sol. Difícil, eu sei. Mas para se tornar dono, patrão e senhor deste grande negócio de encarceramento, não . Basta convencer gente cheia de medo ou raiva que há uma solução fácil, rápida e indolor para o problema da criminalidade que as assusta ou atinge. E fazê-las papagaios de sua publicidade. Para isso não precisa muito mais que reproduzir ideias atrasadas que os atrasados não têm dificuldade de falar nem entender. Atrasada a discussão do que adiantaria pra valer, atrasa-se a solução verdadeira, aquela que podia enfrentar e até reverter o atraso. Mas como é que ficariam os lucros sem o atraso?

Há muitas formas de usar, fomentar, sistematizar o atraso e colher lucros.

O Presidente da Câmara, se apressou a propor a reforma política à moda do cunha para quê? Para o processo eleitoral permanecer para sempre esse atraso da vida democrática que é financiamento privado de campanha.

Os ônibus atrasam por quê? Quanto mais cabeças dentro do mesmo transporte coletivo mais lucro por viagem para os donos das empresas.

O trânsito nas grandes cidades está congestionado por quê ? Porque há um atraso no aumento de linhas transporte coletivo para preservar os lucros das empresas, então as pessoas tentam adiantar seu lado no conforto de um carro particular e assim saem todas com máquinas de dois mil kilos com um ser de oitenta kilos dentro e todo mundo atrasa todo mundo.

No metrô de São Paulo, cada km de obra entregue atrasada sustenta o lucro de famílias que não usam, usaram ou pretendem usar nosso transporte coletivo. Adendos e mais adendos em contratos. Lucro para os consórcios.

O atraso em consertar as tubulações da Sabesp apressou o esvaziamento da Cantareira e justificou obras emergenciais. Nós pagamos com impostos as obras e a conta da água mais cara mas acionistas e empreiteiros colherão lucros do atraso.

O atraso é tão coisa nossa que a gente nem repara quando reproduz. Serviços e empresas terceirizadas, um prodígio do atraso trabalhista, são ótimos para demonstrar. No mundo de Oz dizem que é o pé no acelerador, eficiência, fim do atraso trabalhista. Mas no mundo real o que produzem é atraso de vida para os trabalhadores pior remunerados. Organizações Sociais pagam altos salários a diretores, espremem gerentes e arroxam funcionários da base e os contratam como temporários. Colocam os manos todos na correria, todos precarizados, sem garantias ou horizonte à vista. Empresas se abrem e fecham num piscar de olhos. Donos que somem com capital de giro e deixam o capital humano à deriva num mar de necessidades, prontos a abraçar qualquer tronco. E, dadas as condições, jovens trabalhadores inseguros ao ponto de criarem pouco apego ao trabalho. Ou sem parar de procurar uma colocação mais segura e uns cobres a mais, pulando de galho em galho. Desculpaí o atraso, chefe. Desculpo nada, vai pra rua. Quem se importa ? E com estas moças presas 8 horas nas baias do telemarketing sem poder trocar o absorvente higiênico porque ganham por produtividade mas não levam bônus por infecções urinárias, quem se importa ? Se a infecção for grave o INSS paga os dias parados. INSS é aquele Instituto de Segurança Social cujo desconto em folha parece feito sob medida para provocar insultos à nossa inteligência: a culpa da mixaria que os patrões pagam aos empregados é dele, viu? Vagas de trabalho se abrem por mérito dos empresários, uns heróis, tem uns que posam de mártires. Mas quando eles despedem, está provado, a culpa é do governo. Se não tivesse salário desemprego queria ver quantos iam recusar trabalhar a troco de comida. Culpa do governo. Não aquela parte do governo que é dono de latifúndios, de Tvs, Rádios, empresas e vive sacando dinheiro na boca do caixa do governo. Culpa daquela outra parte do governo querendo dar aos miseráveis o dinheiro que só os empresários deviam ter direito a retirar dos cofres públicos. E os esquerdistas, então, querendo aumentar o imposto dos ricos? Só porque os pobres pagam mais que eles? Uns populistas. Que fique tudo como sempre foi, no atraso.

Neste estado que já foi chamado locomotiva do Brasil a Educação Pública anda em marcha ré, naturalmente. Como é natural que durante dois meses ao ano os professores estaduais hibernem, já que não recebem salários. E sem greve ou cara feia. Que peguem um bico a qualquer remuneração, como faziam os escravos de antigamente tentando juntar dinheiro para a alforria. Nós atrasamos o relógio de São Paulo só um pouco e vejam como privar de dois salários ao ano cada cabeça de professor dá lucro.

Afinal estou entendendo melhor como o atraso é lucrativo. Valeu vó. Não é bom negócio para mim, claro, que só tenho de meu a dívida contraída por nascer, pagando juros de contratos que nunca assinei, mesmo sem vínculo ou segurança trabalhista, sem colher lucros de ações de empresas privadas ou dos títulos públicos . Ao contrário dos banqueiros, ah, estes sim, verdadeiros campeões que adoram o atraso porque gera lucro, os melhores em fazer lucro gerar lucro, encomendando programas de computadores que substituem trabalhadores e crescendo. Atrasando a vida de muitos com a extinção de postos de trabalho e lucrando.

Paciência. Se o lucro está acima de todas as coisas, por ele devemos sacrificar a vida. Devemos, se necessário, permuta-los pela vida. E se, ao fim e ao cabo, o atraso gera mais lucro, então mais lucro = mais vida!

O que me leva a confirmar uma percepção recorrente. A vida de quem, de um jeito ou de outro, está em luta constante contra o atraso é muito dura. Para lucrar é muito mais negócio reproduzir o atraso, qualquer atraso ao seu alcance, como bem sabe a elite da minha pátria.

Afinal fantasio: fosse da elite ou, ao menos, cúmplice dela podia viver com muito mais conforto e ainda encher a boca pra falar: que- nojo- da- corrupção. Deliro que se tivesse capital ou vocação empresarial podia abrir uma empresa ou uma OS, pegar uma concessão pública contratar uns terceirizados e até coloca-los a gritar: País de bosta! Fora Dilma! Ui. Estou quase me sentindo o Rastignac em pessoa, olhando Paris do alto e declarando: Agora é com nós dois! Posso até me ver no mirante do alto de Santana, de binóculos, mirando gotham city, a planejar em quem aplicar minha piada mortal. A que ponto cheguei.

Mas é muito tarde para me converter ao culto ou ao consórcio do atraso. Apagado o fogo da fúria tenho de admitir que não vejo saída para o atraso e seus cultuadores. Afinal, quando um Papa sai andando pelo mundo empenhado em dizer o que um mundo em que o lucro está acima de tudo não é viável, tal qual o Cristo, chicote em punho denunciando os fariseus, se o Armagedom não estiver próximo, pelo menos não deve andar longe. Brincadeira. Mas que o Sistemão não se aguenta mais nas pernas é fato. Muitas análises já chegaram a esta conclusão: o Sistema Financeiro Mundial desapegou da economia real faz tempo e seus operadores não estão nem aí se estão destruindo a capacidade humana de trabalhar e trabalhando resolver seus problemas. O objetivo deles é manter uma minoria, de boas, vivendo no luxo e que o poder político continue sob domínio dos mais ricos conglomerados empresariais legais e ilegais do Planeta. Quase nada de novo sob o sol, além do elemento complicador : o poderio bélico nuclear. Estamos no bico do corvo mas nutrimos grandes esperanças, parodiando o amado poeta Drummond.

Mas enquanto o teatro geopolítico mundial segue seu curso cada um de nós e cada país vai tocando a sua vida como pode. Ouvi dizer que a Presidente vai pisar no acelerador de investimentos em infraestrutura, os juros bancários vão cair e a torneira do dinheiro fácil vai secar. Somada a esta devassa promovida pela PF e pelo MP não vai haver revolução mas pode ser um golpe e tanto na organização desta velha colônia que há séculos funciona como aquela Paris que corrompeu Rastignac. Se este ciclo Dilma de governo conseguir desarmar ao menos parte da máquina de exploração e corrupção, inaugurando nossa primeira República com povo e com letra maiúscula, a nação já estará no lucro. Não sei se será possível mas se a Dilma conseguir essa proeza, durmam de botina. Estes nossos B.O.s de consumidores vão parecer picolé de chocolate. Os trutas locais que sempre dormiram à sombra das laranjeiras em berço esplêndido vão sacudir a árvore feito criança mal educada no supermercado, derrubando a prateleira quando a mãe diz que hoje não vai ter todinho. Oremos. Ubuntu. Namastê. Axé. Shabat Shalom. Amém.

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