Do inferno nuclear à indústria do medo, e eis que surge o Irã como um novo cavaleiro do apocalipse

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Após anos de tensão, ameaças e uma campanha midiática internacional terrorista, eis que europeus, americanos e iranianos chegaram a um acordo em relação ao programa nuclear destes últimos. A reação conservadora e histérica não se fez esperar, com as previsões cataclismáticas dos suspeitos de sempre: Israel, monarquias do golfo, congresso republicano e que-tais. Mas quem ganha e quem perde com esse acordo? E com o medo?

O acordo em si não faz mais do que garantir um rigoroso e altamente intrusivo sistema de monitoramento das instalações nucleares e militares iranianas, de maneira geral, em troca da retirada das sanções econômicas impostas ao país há décadas. Até aí, nada que a diplomacia brasileira já não viesse há tempos propondo: a formação de um sistema de confiança para retirar o Irã do isolamento e reinseri-lo na sociedade internacional, em troca de que o país abrisse mão da capacidade de se tornar a nona potência nuclear do planeta.

Então, como se dizia na década de 80, qual é o pó? O que vejo faltar em todas as diversas análises que tenho lido, é ressaltar a grande vitória da diplomacia iraniana representada pelo acordo, que soube com habilidade se aproveitar de um desencontro, segundo todas as probabilidades temporário, entre as agendas de Washington e Tel Aviv. O novo desafio às potências ocidentais representado pelo EI reordenou as prioridades dos EUA na região, sem afetar, contudo, as de Israel, para quem o Irã nuclear continua sendo o pior pesadelo. Foi explorando essa brecha, sobretudo, que o Irã conseguiu, de uma vez, realizar dois grandes objetivos da sua política externa: retirar as sanções dos embargos internacionais que estavam sufocando sua economia e sua sociedade, e dar um passo gigantesco na direção da sua afirmação como potência regional.

Mas, ainda assim, haveria de fato algo há se temer da ascensão nuclear iraniana? Uma das profissões mais perigosas do planeta já foi ser cientista nuclear iraniano. Pelo menos quatro cientistas do país morreram em circunstâncias suspeitíssimas e, supostamente, foram assassinados pelo Mossad. Israel e EUA têm capacidade para vaporizar coisa de uns quatro milhões e meio de “irãs” do mapa com facilidade, e os iranianos sabem disso. De novo, os suspeitos de sempre: o medo do Irã justifica gastos militares, o que dá a chance para políticos e militares dos quatro cantos do Oriente Médio se sentarem à frente de polpudos orçamentos de defesa. Sem esse bicho-papão, talvez o likudismo se encontre com menos meios de justificar para o seu povo, e para o mundo, a violência crescente na palestina.

Outra potência bastante insatisfeita com a nova situação é a Arábia Saudita. A diplomacia e a atuação regional (assim como os gastos militares) desse país se pautaram nos últimos anos fortemente pela justificativa da contenção da influência iraniana no mundo árabe. Os sauditas saem visivelmente enfraquecidos desse processo, não apenas pela simples ascensão do Irã como potência concorrente, mas também pelo retorno deste último à Opep e pela entrada de milhões de novos barris de petróleo no mercado mundial, ambas consequências do fim das sanções. Acredito que os EUA, inclusive, tenham colocado isso no balanço, na hora da decisão final sobre o acordo, talvez cansados das ambiguidades sauditas que, mesmo aliados na “guerra contra o terror”, mesmo sendo o país árabe há mais tempo aliado ao ocidente (quando essa aliança começou, ainda era a Inglaterra que mandava no mundo), ainda assim financiam o fanatismo religioso mundo afora, de onde surgiu diretamente, no mínimo, o Talibã no Afeganistão.

Há um círculo de análises particularmente otimista que vê no acordo o início de um tipo de aposta, por parte dos EUA,  em uma maneira mais construtiva de lidar com as relações internacionais. A acreditar no formulador dessa nova política, o próprio Obama, a estratégia estaria inserida na mesma lógica de descongelar as relações com países que os próprios EUA mandaram para o isolamento internacional há décadas, como Cuba e Mianmar. Diz, ainda, o próprio, que soluções negociadas e procura por interesses em comum são mais produtivas do que sanções intermináveis. Talvez Obama tenha resolvido na saída fazer juz aquele Nobel da Paz que ganhou ainda antes de tomar posse, há coisa de 8 anos.

 

Mas, afinal, o acordo é bom?

 

Considerando que Bush havia formalmente colocado o Irã na lista de países “invadíveis” (o eixo do mal), considerando as disposições dos falcões de Washington e a história dos EUA, que raramente passam dez anos sem entrar em alguma guerra ou invadir algum país, este acordo pode ser considerado sim uma vitória da pomba branca (pelo menos temporária), uma vez que adiou o problema por pelo menos dez, e uma derrota para a ala mais militarista do partido republicano, que já está esperneando por causa do acordo. Porém, por outro lado, ele em si não significa de maneira nenhuma a panacéia para os problemas da região, como os mais entusiastas parecem acreditar.

Ele não significa, por exemplo, o abandono do compromisso americano com a manutenção do estado apartheidista de Israel. O próprio Obama se comprometeu publicamente em não deixar Israel perder a ampla vantagem militar que possui em relação ao restante da região (garantida em grande parte por financiamento militar americano).

A abertura do regime iraniano também não é um subproduto garantido do acordo, como seus elaboradores anunciam. Se o Irã, por um lado, é vítima de muita propaganda negativa (desde a Revolução Verde), por outro, ele de fato não é um país bonito. É um dos seis países do mundo nos quais há pena de morte para homossexualismo. As execuções são bárbaras (mulheres adúlteras, por exemplo, são mortas por apedrejamento – que falta que não faz um cadafalso ou uma boa guilhotina). Para piorar, em ternos per capita, é o país que mais executa a pena capital no mundo (em termos absolutos, o país que mais a executa é a China).

No entanto, vejo ao menos um ganho evidente. Para além das teorias, tenho tentado desenvolver análises que coloquem o sofrimento humano no centro. Trata-se de, em um situação específica, tentar entender de que maneira as pessoas sofreriam menos. Neste caso, o fim das sanções trarão alívio imediato para o povo iraniano (nunca são os manganos dos palácios que sofrem com as sanções econômicas aplicadas internacionalmente a torto e a direito, mas sim as pessoas comuns, para quem falta sabonete, fralda descartável, pasta de dentes…).

O pragmatismo sempre vence

Além das críticas conservadoras esperadas, o governo Obama tem sido muito elogiado pelo acordo, nas bases do que está sendo chamado de Smart Power, ou seja, a capacidade do governo de agir por procuração e de manipular adversários para que eles ocupem os lugares que os americanos querem que eles ocupem no tabuleiro (o que tornaria Obama, nesse caso, um enxadrista exemplar). Isso se traduziria na necessidade americana de lançar mão das forças xiitas iraquianas e iranianas já em campo e em conflito direto contra o Estado Islâmico no Iraque. O que eles esperam, presumivelmente, no fundo, é manipular o Irã para que ele cumpra um papel militar na guerra contra o EI, que Obama não está disposto a cumprir, qual seja, o envio de tropas para as muitas batalhas que ainda virão. Isso tudo não deixa ter a sua dose de ironia, quando lembramos que foi a invasão da embaixada americana em Teerã, em 1979, que alimentou muito a então falsa percepção dos EUA como uma potência declinante…

Contudo, ainda é cedo para abrir o champanhe (ou comprar as passagens para o próximo voo tripulado para a lua, dependendo da sua perspectiva). O acordo ainda tem que ser ratificado pelo conservador congresso americano (onde o lobby pró-israelense é forte) e por diversas e sortidas instâncias de poder no Irã, como o congresso, o conselho de guardiões e, é evidente, pelo seu líder supremo, Ali Khamenei (o sistema político iraniano é uma loucura – dia ainda escrevo sobre ele). Estas três últimas instâncias já manifestaram um relativo descontentamento com os termos do acordo, considerado muito intrusivo – em especial na área militar, sempre muito sensível. Eu não veria com muita surpresa o congresso dos EUA ratificarem o acordo e ser o Irã, no fim das contas, a recusá-lo.

Seja como for, talvez os EUA estejam esquecendo rápido demais que o hino revolucionário do Irã, até hoje, carrega em seu refrão o lema “Morte à América”. Seus objetivos quase confessos, ou seja, de não abrir mão da capacidade de intervenção imperialista quando e onde necessário, mas de delegação pontual de poder, ainda que para um inimigo histórico, no fundo têm tudo para dar errado. Vide Sadan Hussein, Talibã, Al-Quaeda, Iraque e etc.

 

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