Da série ” Tantas vidas vivendo por aí”

Voltava para casa no trem vespertino, experiência desconhecida até ontem. Vinha do fim da linha e observava os trabalhadores se amontoando pouco a pouco, tentando imaginar quem eram, de onde vinham e para onde iam. Pensava quantos ali se submetiam a esta rotina de trens superlotados se arrastando a 10 km por hora em muitos trechos, tentando me lembrar de alguma coisa lida sobre bitolas de trilhos e tecnologia superadas quando se anuncia a minha estação de destino.

Levanto e tento chegar à porta, onde se espreme uma grande massa de corpos e rostos ansiosos voltados para fora. Menos mal, penso, me posicionando atrás de um moço que declara intenção de desembarcar. As portas se abrem e outra massa de corpos jovens se lança de fora para dentro, bloqueando a saída. Um homem consegue se soltar, vazar, saltar sobre a plataforma, depois dele dois, mais um e é tudo. A massa se imobiliza. Os de dentro gritam  “ descer, descer” enquanto os de fora fazem coro como uma falange guerreira “ ôooooooo” e forçam seus corpos impedindo que mais alguém saia. À minha frente corpos se inclinam e tentam avançar . O bloco tem alguns jovens mas também homens maduros, velhos e mulheres, corpos quase todos, talhados nos serviços pesados. Parece um jogo de rugby sem bola. Os de fora vencem, as portas se fecham e o trem parte com os que ficaram protestando aos gritos e os vencedores rindo, divertidos, debochados. Examino os rostos. Há desolação em muitos, constrangimento em alguns, risos gaiatos em uns poucos.

Daí acontece o inesperado. A mulher de meia idade, gordinha, bem vestida e um pouco mais alta que a média, levanta a voz. Mansa, a princípio, grandiloquente em seguida, pregadora, ao final. Parece tomada por um sentimento de paixão despropositada. Mira o fundo dos olhos de um dos gaiatos mais salientes e o confronta. Pede contas de seus atos, do seu direito de atrasar a vida de todo mundo, questiona que sentimento é este que o anima. Ele e os colegas riem, zombam, lançam seu grito de guerra, ôoooooo. Ela continua. Ele zomba, ordena que ela desça na próxima estação. Ela responde, como se lhe devesse satisfação, para onde vai, explica que precisa conexão com o metrô e pergunta quantos mais há na mesma situação ali. Tímidas vozes concordam. Ela começa a explicar, em voz alta e compassada, o que fizeram. Que estão nos obrigando a ir até o final da linha, ocupando o lugar de outros que irão se atrasar para escola, para buscar o filho, sabe-se lá para o quê mais. Quer saber se isto os faz feliz. Sóbria, em voz alta o suficiente para ser ouvida, mas calma. Tímidos, alguns passageiros que não desembarcaram se declaram prejudicados, ela advoga suas causas. O grupo organizado ao modo de falange invasora começa a se desmanchar, o coro enfraquece. Agora são apenas 4 ou 5 sorrisos. A mulher prega como um pastor de praça e aprofunda o sermão com voz firme. Fala como se fossem seus filhos, alunos ou iguais. Fala como se confiasse na capacidade deles compreenderem que estão se comportando mal. que estão tentando se divertir fora de hora e lugar, pede depoimentos ao redor. Declara ter certeza de que ao menos dois deles parecem capazes de pensar sobre seu comportamento. Fala, fala e fala sem desviar dos olhos do mais resistente, sem se importar com seu ar de deboche. Pouco a pouco se torna mais petulante que ele, arriscando-se a adivinhar alguns dos seus sofrimentos secretos, sua sensação de impotência, seus sonhos de melhor condição de vida, seus desejos de respeito e dignidade. Confronta-o com sua impotência que ele tenta disfarçar com arrogância quando não passa de covardia. Quer saber se ele sabe o que é impotência, o que quer dizer a palavra impotência. Até que também ele se cala, cabeça baixa, mirando os próprios joelhos, sério. A viagem prossegue em silêncio.  A mulher venceu a disputa verbal mas não comemora, apenas se cala e o encara, com o semblante grave, como a se certificar que ele não tem mais nada a dizer. O trem chega à última parada, todos se preparam para sair. O time que instaurou o tumulto se confunde agora com todos os outros seres deslizando no mar de gente, impacientes mas sem brutalidade.

A mulher era eu, encarnando a palhaça Pastora da Civilidade. Não sei o que me deu, nem tudo que disse. Acho que baixou um espírito da pátria educadora em mim e pegou nos garotos. Todos eles aparentavam ter idade superior à da emancipação, acho que foi isso. Emancipação é complicado.

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Categorias: Sociedade | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Da série ” Tantas vidas vivendo por aí”

  1. Paulo Paterniani

    Uma crônica de um mundo que sofre doença crônica , quiçá … forte , pra gente re-posicionar nossa vida !! Abraços , Ana !!!

  2. lindo, ana! e’ o drama no real, e a realidade da tragedia humana..
    bjs!

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