Crise! Crise! Crise!

crise

Os relatos da atualidade soam aterradores. Andando pelas ruas, vê-se o comércio vazio, empresas fechando, a pobreza multiplicando-se como um câncer em metástase. Um cenário apocalíptico vendido com o o rótulo da crise. É a crise. E o comentário basta-se a si mesmo, sem justificativas ou maiores aprofundamentos.

Mais que tudo isso, a crise, na visão estreita dos repetidores automáticos, é solitária, é única e faz do Brasil uma verdadeira ilha de problemas em um oceano de bonança. O problema, portanto, é só a comandante, ela e seu staff são os únicos responsáveis pela desgraça atroz que vitimiza toda a população.

Tais reflexões não duram uma centelha de tempo diante dos fatos. Seja pela imprecisão, pelo reducionismo ou mesmo pela ignorância. Isso não significa dizer, de forma alguma, que a economia vai bem e que a população vive os melhores dias da história do país. Longe disso.

O Brasil não está em crise. Ou melhor, está, mas não é dono do conceito. A crise é do capital e possibilita a confusão entre oportunismos políticos diversos e uma real discussão e solução dos problemas para quem realmente interessa.

O capital está em crise há algum tempo. Os Estados Unidos passaram há poucos anos por sua fase mais aguda, a Europa ainda não conseguiu fazer com que sua receita de austeridade devolva vigor à Zona do Euro.

Em Nova Iorque, há mais moradores de rua hoje do que na Crise de 1929. Talvez os indicadores econômicos não demonstrem as consequências sociais das políticas para aquecer a economia – apesar de que o Banco Central estadunidense venha reiteradamente diminuindo as previsões de crescimento e sinalizando aumentos de juros de sua taxa básica –, mas a realidade evidencia bolsões de pobreza e uma tensão sócio-racial alarmante.

Na Europa, a Alemanha tem a maior desigualdade desde sua reunificação. O desemprego em alta na Zona do Euro continua aumentando e já deixa mais de 26 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho. Na Grécia e na Espanha, 27% da população ativa não têm emprego. A crise engessa países que, não tendo como desvalorizar a moeda, sofrem com o sufocamento de suas economias.

Quando o capital está em crise, quem sente verdadeiramente são os trabalhadores. Os empresários, para manter seus lucros demitem e cortam custos, com a anuência do governo que flexibiliza direitos trabalhistas para garantir o ganho dos donos dos meios de produção. Em recente entrevista, o presidente do Carrefour minimizou a crise econômica brasileira e apresentou lucros bem acima daqueles esperados pela mídia e obtidos na matriz francesa.

Basta procurar a expressão “apesar da crise” em um buscador de internet, para encontrar uma série de exemplos de quem não está perdendo com o momento econômico. Os bancos, por sua vez, anunciaram crescimento nos lucros de mais de 10%… Bilhões e mais bilhões. É crise.

Toda a série de medidas adotadas pelo governo petista tem a clara intenção de salvaguardar os ganhos do capital no país. O remédio amargo vem para os trabalhadores, situação que possibilita o oportunismo político de quem tem sede de poder. A tresloucada gente que não superou as eleições compra imagens ridículas da crise pintadas em cores fauvistas: a classe média não pode mais jantar fora, não pode mais viajar para o exterior, é maior crise de todos os tempos. Uma afronta a qualquer bom senso.

E assim, filhos de uma direita raivosa aliam-se a Eduardo Cunha em seu projeto pessoal. A irresponsabilidade parlamentar quer, a todo custo, maximizar uma crise política e gerar o caos na governabilidade. Corruptos! Nunca houve tanta corrupção! Esquecem-se de que a corrupção é inerente ao sistema e é a mesma que nos assola desde o tempo de Colônia. Passe-se a limpo as coroas, os uniformes verde-oliva, os ternos bem cortados ou os vestidos vermelhos e veremos que estão todos operando um mesmo esquema.

E é por isso que soa idiota a solução de trocar a raposa que toma conta das galinhas pelas raposas que querem tomar conta das mesmas galinhas. Um discurso tão vazio e tão perigoso que a própria Rede Globo e os empresários já resolveram cair fora do barco. Afinal, o governo que aí está já realiza todas as medidas para proteger a propriedade e o lucro de quem lhes interessa. Uma crise institucional geraria mais prejuízos ao bolso dos poderosos.

Os peixes pequenos vociferam nas redes sociais, culpam o Estado pela crise e exigem sua deposição. Falta-lhes coerência, já que criticavam toda a ação do Estado em auxiliar grupos sociais, defendendo o mérito e o esforço individual. A crise, segundo a história liberal, é o momento de oportunidade. Portanto, não lhes cabe falar mal do governo, mas se esforçar individualmente para ter méritos e vencer as dificuldades.

Diante do quadro, fica evidente que a questão não se resolve mudando a sigla no poder. O problema está no próprio sistema. Se a crise é do capital, há de se buscar uma solução contra a sua real causa. PT, PSDB, PMDB, DEM e outros são representantes de uma institucionalidade que serve apenas à defesa de seu próprio poder.

Unificar a luta de trabalhadores em uma frente de esquerda responsável contra a direita petista e os fascistas de ocasião. Este é o único benefício que o momento pode proporcionar. Sejamos responsáveis para construir um campo de oposição forte, mas que não de espaços para que aventureiros de discurso fácil tomem o país para seus ideias tortos. Olhemos bem para quem anda a nossos lados nas ruas. Nem todo inimigo do meu inimigo é necessariamente meu amigo. Esquecer isso é arriscar-se a mais uma crise: de consciência.

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