A quantas perdas você sobreviveu?

Os amigos de infância já não o são, os da adolescência a vida distanciou. Na maturidade, sobram grupos por quem se nutre imenso carinho, mas são demais as angústias dessa vida. Rastros revelam diferenças. No fundo, o caminho é solitário, único e inescapável.

Por quantas separações você já passou? Dor dilacerante, insônia, medo. A impressão de ter esquecido a porta aberta. Era preciso se proteger. Era preciso ter certeza de que estava seguro. Ninguém está. Nunca está. Nem com as trancas a postos.

A mãe doente, o pai doente, o hospital constante. Vai-não-vai-foi. Nem tempo de adeus. Teriam aprendido a conviver melhor se eles estivessem aqui. Mais uma ficção das relações. Mais uma forma de tentar exercitar o controle sobre o que não se controla.

O filho perdido, a dor, o vazio, os sonhos desfeitos. O filho nascido, o prazer e a dor, os sonhos… desfeitos? Trajetória ímpar. Pessoa única. Qualquer previsão será falha. Você amaria seu filho ou sua filha da mesma maneira se ele não torcesse para o seu time do coração, não gostasse do mesmo estilo musical que você, se ele subvertesse o que você concebe como ordem, se ele fosse dependente químico?

No fundo, em cada uma dessas situações, há um projeto não concluído, mas um projeto idealizado para a vida e também para a morte do outro. No segundo caso, o projeto é adiar tanto quanto impossível.

Tenho aprendido a renomear perdas. Se todas as transformações por que passamos ao longo da vida forem entendidas como perdas, seremos apenas portadores de um buraco jamais preenchido, fadados a uma vida de tristezas profundas.

Prefiro ficar com o verso camoniano adaptado do poema Sete anos de pastor: Mais faria se não fosse para tão longos amores tão curta a vida.

transformacao

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Categorias: Reflexões, Verso & Prosa | Tags: , , | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “A quantas perdas você sobreviveu?

  1. Andrea Carvalho Stark

    Difícil será obedecer ao não-consenso da descrição do blog, nao serei bem- vinda,portanto. Mas… esse texto ME TOCOU profundamente.

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