Sancta Simplicitas!

sancta simplicitas

Jan Hus era um teólogo do Sacro Império Romano, na virada do séc. XIV. Como reformador é considerado um dos precursores da Reforma Protestante.  Pregava contra a corrupção na Igreja e a ostentação no alto clero. Sua principal conclusão era baseada em Cristo como o líder da Igreja e não o papa e os cardeais. Este papel foi fundamental para o despertar da Igreja Protestante.

O papado não gostava daquelas ideias de Hus. Deram logo um jeito de condená-lo por heresia.  Em 06 de julho de 1415, meteram-no na fogueira e, antes de arder em chamas, uma inocente senhora, sem mesmo entender seus motivos, colocou mais um pedaço de madeira embaixo do mártir.

Foi então que ele disse: ― Sancta simplicitas! (Santa ingenuidade!)

Seiscentos anos depois, o Papa Francisco realizou uma “liturgia de reconciliação” para marcar a morte de Jan Hus, em conjunto com representantes da Igreja Hussite da Checoslováquia .  Disse o papa: “A morte de Jan Hus feriu gravemente toda a Igreja Católica e se deveria pedir desculpas por isso”

Há alguns anos, um garoto furtou um celular no bairro onde eu morava. Os moradores capturaram o rapaz. Enquanto muitos davam socos e pontapés, um senhor, já com idade avançada, saiu de casa com uma garrafa de álcool na mão. Aquele velhinho, que tinha por hábito varrer a calçada todas as manhãs, queria atear fogo num ser humano pelo fato deste ter furtado um celular. Morreria um ladrão, nasceria um assassino.

Nas manifestações de ontem contra o governo, entre tantas bisonhices, dois cartazes me chamaram atenção em especial. Tanto pela mensagem insana quanto por quem sustentava os dizeres.  O primeiro vomitava: “Por que não mataram todos em 1964?”; o segundo seguia o horror: “Dilma, pena que não te enforcaram no DOI/CODI”. Além do conteúdo bizarro da tortura e execução, outro fato em comum é que os cartazes eram suavemente segurados por duas senhoras com carinha de vovó simpática daquelas que fazem propaganda na televisão.  Certamente essas senhoras orgulham-se por terem criado e educado cidadãos de bem, assim como fazem um belo almoço de domingo para reunir a família à mesa. Amam seus netos e netas e fazem de tudo para agradar a todos. Qual seria a razão se serem incapazes de  julgamentos morais e defenderem o extermínio de seres humanos? Elas não podem ser olhadas como monstros, mas como mães zelosas, ainda que incapazes de resistir ao ódio. Um ódio que nunca tiveram, nem alimentaram. Mesmo sem conhecê-las, veríamos que não possuem histórico ou traços fascistas. Também não apresentariam caráter distorcido ou doentio. Agem segundo o que acreditam ser o seu dever, movidas pelo desejo de participar do processo político? Cumprem ordens internas sem questioná-las, com o maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o bem ou o mal que podem causar?

A trivialização do extermínio corresponde ao vazio do pensamento onde a serpente faz seu ninho.

Para o jovem morto no linchamento fiz esse poema. Para aquelas senhoras ainda não tenho palavras.

sancta simplicitas

passa veloz

na gralhada do dia.

furta-se e foge

o suposto maldito.

na praça de cores extintas,

vasto presídio.

entoando benditos

olhares piedosos

praticam o caloroso

arbítrio das contas em dia:

delícias do necrológio popular.

adesões, participações,

fiel assistência.

um benefício de fêmures cruzados.

abrindo caminho,

mãos que rezam

ateiam fogo

num ato de boa-fé.

o manequim vergado

lança um surdo gasnar.

logo o encobre a assepsia

de um sudário em chamas.

antes de seguirem para seus lares,

cumpre fazer o pelo-sinal.

no chão,

mingau vermelho esmaltado.

no termo da jornada,

centenas de igrejas

tocam a Ave Maria.

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Sancta Simplicitas!

  1. Zé cum Fome Sombra

    Santa Hanna Arendt…

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