E tudo vai acabar em pó

Fila da sopa, durante a crise de 29

Fila da sopa, durante a crise de 29

A bolsa de valores da China sofreu essa semana uma queda de níveis de crise de 29. Terminamos o mês com mercados em pânico e, infelizmente, até nós que não temos nada a ver com isso (pois não temos dinheiro em bolsa nem inclinação para investimentos no mercado financeiro) também temos razões para temer. Estima-se que entre 3 e 5 trilhões de dólares viraram pó da noite para o dia (nessas crises de mercado financeiro, eu sempre me pergunto aonde vai parar essa grana que evapora: não existe lei de Lavoisier para dinheiro?).

Crises financeiras frequentemente afetam a economia real, ou seja, o meu e o seu emprego. Verdade que da bolsa da China é pequena, principalmente se comparada à enormidade do seu PIB e ao dinamismo da sua economia (hoje a segunda do mundo), o que talvez signifique que não haja razão para todo esse pânico, mas tendo em vista a história das crises econômicas, de qualquer forma a perspectiva não é animadora. Durante a crise de 29, após sinais de ligeira recuperação, lá pelo meio da década de 1930, veio um segundo tombo, que dizem ter sido ainda pior do que o primeiro. Foi a partir daí que começaram as famigeradas marchas da fome, nos EUA. Por hora, não há razão para dormir tranquilo…

Por aqui, continuamos naufragando, tanto economicamente quanto no mar de bobagens do nosso Fla x Flu político. Gregório Duvivier causou espécie entre os petistas recentemente escrevendo um texto criticando o governo (“Por que odiar o PT”, publicado na Folha). Foi chamado de esquerda caviar, entre outras coisas. O texto de Gregório estava, na realidade, até bem informado. Tive até a impressão que ele andou lendo artigos de camaradas aqui no Transversos. Ele reclamou, por exemplo, da catástrofe ambiental dos governos do PT, que só fazem flexibilizar legislação ambiental, enfraquecer a Funai e o Ibama. Se reclamar do pior governo para povos indígenas desde a ditadura militar é ser esquerda caviar, então eu sou isso também, e com orgulho. No mais, esse modelo agrário exportador fortemente dependente das exportações de soja e de minério de ferro para se sustentar (com destruição do cerrado e da Amazônia e atropelamento de terras indígenas), além de ser uma catástrofe ambiental irrecuperável é também responsável, em grande medida, pela encrenca econômica em que estamos. Países com “vocação agrícola” são tomadores de preço no mercado mundial e suscetíveis às suas variações. Se a economia chinesa despenca, nós despencamos junto. Simples assim. Faltou acrescentar, ao texto de Gregório, a pesada cooptação aos movimentos sociais, e a pesada repressão aos recalcitrantes, como podemos ver no Rio de Janeiro, onde Rafael Braga continua preso, sem ter feito absolutamente nada, 23 ativistas continuam enfrentando processos e um sem número de militantes segue investigados pela DRCI.

E, sim, pode piorar. A tal da Agenda Brasil proposta por ninguém mais, ninguém menos, do que o Renan “rouba mais devolve” Calheiros deveria ser logo alcunhada de Agenda “afunda” Brasil. Ou Agenda “mata índio”. Ou Agenda “f…” aposentado. Continuo, mesmo a despeito de todos, sustentando que o PT ainda é um mal menor do que o PSDB (e afins). Mesmo em ambiente de ajuste fiscal, acreditem, saco de maldades da direita assumida ainda é pior do que maldades de esquerda meia-boca. Explicando a diferença entre o ruim e o pior: proposta do governo para conter a crise – redução de até 15% dos salários dos trabalhadores (isso é ruim) – emenda do Aécio Neves – ampliar a redução até 30% (isso é ainda pior). Mesmo assim, como já disse por aqui antes, para um partido como o PT, que se legitimou nos últimos anos pelo aumento do bem-estar da população, com aumento de renda e consumo (via ganhos reais do salário mínimo e programas de transferência de renda), esse ajuste é um tiro no próprio pé. Se os ganhos dos trabalhadores nos últimos anos foram inegáveis, é muito de se estranhar que isso seja posto em risco por decisões econômicas desse mesmo partido. Ao que tudo indica, com ou sem Aécio, tudo vai acabar em pó.

A solução, sem dúvida não vem daí. Não vem de reformas políticas etéreas que nunca vão dar certo, uma vez que os únicos que têm o poder de realiza-las são os próprios interessados em que tudo permaneça do jeito que está. A solução vem das ruas, da organização por bairros, por círculos, por ação direta. Da construção, enfim, de alternativas que sejam, de fato, alternativas, e não mais do mesmo.

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