O naufrágio da humanidade

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Grécia. Ilha de Kos. Um campo de refugiados, erguido há coisa de ano e meio, recebe pessoas desesperadas fugindo da guerra na Síria e no Iraque, mas também do Afeganistão, em condições que a Anistia Internacional descreveu como “infernais”. Lá, da forma mais precária, eles aguardam registro das autoridades gregas, passando semanas a fio debaixo de um sol de lascar. Esperando, esperando. Esperando. Na noite de ontem, para demonstrar que nenhum sofrimento é tão ruim que não possa ser propositalmente piorado, um grupo de 20 a 30 pessoas invadiu o campo com bastões e para espancar as pessoas, aos gritos de “voltem para as suas terras”. O pessoal de ajuda humanitária presente no local, basicamente o Médicos sem Fronteiras e a Anistia, também apanhou.

O número de refugiados procurando segurança no continente europeu pelo menos quadruplicou em relação ao ano passado, instalando o que já está em vias de se tornar a maior crise humanitária da região desde a Segunda Guerra. Cenários de pesadelo, como pessoas se afogando no Mediterrâneo devido ao naufrágio de embarcações precárias e mulheres e crianças sendo submetidas a todas as formas de abusos por polícias de fronteiras, já comuns, multiplicam-se rapidamente. O grosso desses refugiados vem da Síria, onde a conjugação da repressão política do regime do Assad, intervenção militar estrangeira e o horror surrealista do Estado Islâmico tornaram até a perspectiva de afogamento no Mediterrâneo atraente (estima-se que 2.600 morreram, apenas esse ano, ao tentar a travessia).

Parte da prosperidade atual da Europa deve-se, e isso está além de qualquer questionamento, aos séculos de domínio colonial e imperial sobre as regiões que constituem hoje a Ásia e a África. Há uma dívida histórica aí. Diante dessa crise, alguns países parecem perceber isso mais, outros menos. A Alemanha facilitou leis de imigração para receber refugiados Sírios, e estão se preparando para receber 800.000 pessoas fugindo daquela guerra, mas a Hungria, além de se fechar ainda mais, enrijeceu as leis de imigração de diversas formas, por exemplo, tornando crime, punível com três anos de prisão, danificar as cercas de arame-farpado das suas fronteiras. Como, para chegar na Alemanha, os refugiados têm que passar por países como Grécia e Hungria, não me parece muito evidente que a flexibilização alemã trará muitos benefícios práticos, se eles precisarem atravessar um verdadeiro campo minado de países hostis e determinados a levar as severas regras anti-imigração da União Europeia ao pé da letra.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) fez apelos, no sentido de que a “União Europeia não tem outra escolha a não ser mobilizar o máximo de forças para enfrentar esta crise. A única maneira de resolver este problema é a implementação, por parte da UE e dos seus países membros, de uma estratégia comum baseada em responsabilidade, solidariedade e confiança”. A Acnur deveria lembrar também, creio eu, que Turquia, Grécia e Hungria, quando mandam muitos desses refugiados de volta para os seus países, onde eles certamente serão mortos, estão violando o princípio internacional do non-refoulement. Este texto aqui é um apelo humanitário. Não se trata aqui de fazer acusações a regimes pós-coloniais, que, muitas vezes, são imprecisas e incorretas (embora nem sempre). É claro que existe uma divisão internacional do trabalho, e é claro que as potências do dito “capitalismo avançado” têm muita responsabilidade na miséria e na infelicidade espalhada pelos quatro cantos da Terra, mas desgraça da vida, digamos, na Arábia Saudita (falarei sobre esse país semana que vem) deve-se antes de tudo à exploração local do homem pelo homem e à dominação de uma monarquia absoluta enlouquecida, ultrarreligiosa e completamente misógina, por exemplo.

Porém, se a Europa não quer mais refugiados, poderia ser uma boa ideia estudar formas inteligentes e elegantes de contê-los, via o auxílio ao desenvolvimento e ao fim dos conflitos nos países de origens dos refugiados. Perdão de eventuais dívidas desses países pode ser um começo bom e generoso. Criar fundos de solidariedade, voltados para transferências de tecnologia, criação de empregos e desenvolvimento social, também (já existem iniciativas nesse sentido, mas, ao que tudo indica, até agora, elas foram insuficientes). Parar de incentivar ou participar abertamente de conflitos nesses países por causa de commodities também pode ser um passo bem construtivo.

Observação final: aqui no Brasil também temos um total despreparo para receber pessoas oriundas de zonas de conflitos ou fugindo de regimes opressores. Muitos refugiados, ao chegarem pelos caminhos tortuosos do tráfico de pessoas, têm seu passaporte confiscado e acabam trabalhando em regime de escravidão, nos subsolos de São Paulo, por exemplo. A Polícia Federal volta e meia estoura um reduto de escravidão moderna desses, mas o problema permanece invisível para a maior parte dos brasileiros. Não temos nenhuma lição para dar, e talvez tenhamos algo a aprender com tudo isso.

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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