Em dezembro, as mulheres vão poder votar pela primeira vez na Arábia Saudita, e por que isso não é uma boa notícia

Castigo público na Arábia Saudita

Castigo público na Arábia Saudita

Não é de hoje que não tenho paciência para certos tipos de humor. Não tolero, por exemplo, aqueles “comediantes” do “politicamente incorreto”. Todos disfarçam, debaixo desse rótulo, uma vasta incompetência e a incapacidade de fazer humor inteligente, repetindo anedotas racistas e machistas e etc. em nada diferentes do “humor” que, presumivelmente, já faziam os antigos senhores feudais donos de engenho por essas terras. Certa vez, ouvi de um engraçadinho, que ele era “a favor dessa coisa de direitos iguais para as mulheres”, só achando, em sua opinião, haver dois direitos dados excessivamente para elas, o de votar e dirigir. Sugeri, de pronto, que o mesmo se mudasse para a Arábia Saudita, onde de fato essas duas “dádivas” não eram concedidas ao público feminino. Além disso, prontifiquei-me, em caso de falta de dinheiro, a levantar os custos da passagem para o desinfeliz. Naturalmente, só de ida. Vamos então hoje falar sobre um dos piores países para se viver do mundo, sendo você mulher ou não, e sobre o qual as pessoas pouco ouvem falar (há uma razão para isso): a Arábia Saudita.

O reino, assim como a maior parte dos países do atual Oriente Médio, surgiu da desintegração do Império Otomano. No correr da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra, então a grande potência planetária, ao mesmo tempo em que se comprometia publicamente com a criação de um Estado para o povo judeu (a famosa Declaração Balfour), fazia por debaixo dos panos promessas de independência para os povos árabes que a auxiliassem no esforço militar contra os otomanos. Ao fim do conflito, o império “deu o chapéu” em ambos, e partilhou o Oriente Médio com a França em um regime de tutelas autorizado pela Liga das Nações (a malfadada antecessora da ONU). No entanto, devido aos seus méritos militares no conflito (o filme “Lawrence da Arábia” é sobre isso), o país teve sua independência reconhecida no começo da década de 1930. Foi, portanto, dos aliados mais antigos e ferrenhos das potências ocidentais na região.

Com a descoberta das maiores reservas de petróleo do mundo na Península Arábica, tornou-se também área da maior importância geopolítica, um dos países mais ricos do mundo, com uma das maiores rendas per capita e etc. O cartão-postal, no entanto, acaba por aqui. Desde o princípio, organizou-se como uma monarquia absoluta pessoal e completamente alucinada, sob o comando de Idn Saud (sim, é com esse grau de personalismo, o nome do país deriva do nome da família real – o equivalente a eu fundar um país e chamá-lo de “Arábia Paulita”). Não há nada parecido com separação entre os poderes por lá, e o Corão é oficialmente tido como a constituição do reino. Além do Corão, a sharia é a lei, que é ministrada de forma não uniforme pelo clero islâmico. Não existe nada parecido com um poder judiciário independente, e a justiça é utilizada descaradamente para reprimir dissidências, defensores de direitos humanos e os críticos (os poucos que existem) ao poder absoluto da família real dos Saud. Toda essa repressão, que é histórica, recrudesceu ainda mais a partir de 2014, quando uma draconiana lei antiterrorismo (alô Dilma) foi promulgada, teoricamente em decorrência do advento do Estado Islâmico. Mas toda essa hipocrisia é desmascarada pelo fato de que por meio dessa mesma lei antiterror a dissidência interna vem sendo condenada a penas mais severas até mesmo do que os combatentes sauditas que aderiram ao EI.

A escravidão foi formalmente abolida em 1962, mas, segundo a Anistia Internacional, ela ainda é corriqueira no país. Com uma das maiores rendas do planeta, a Arábia Saudita é um polo atrativo de imigração, tanto islâmica quanto não islâmica, de países africanos próximos, como a Somália, mas também de países mais distantes, como Filipinas e Indonésia. Estima-se que perto de 9 milhões de imigrantes (legais e ilegais) trabalhem no país, e, desses, 500.000 são mulheres jovens que fazem serviços domésticos, e é aí que a coisa fica feia mesmo. Pela lei saudita, para que um desses trabalhadores imigrantes possa deixar o país, uma autorização dos seus patrões é necessária. Desnecessário dizer que esse detalhe, por si só, torna as condições de trabalho análogas às da escravidão. E dá margem a todas as formas de abuso: escravidão sexual, tortura, estupro, retenção de documentos, não pagamento etc.

Não há direito de manifestação ou reunião. A tortura é banal, e nunca nenhuma autoridade foi julgada por causa disso. Não há liberdade religiosa, as minorias são violentamente reprimidas, e a há uma tendência sobrenatural à pena de morte ser aplicada majoritariamente à minoria xiita (assim como a polícia brasileira tem uma tendência sobrenatural a executar jovens negros de maneira muito desproporcional à sua representação no todo da população).

O homossexualismo ainda é considerado crime em 78 países. Neles, as punições variam de castigos físicos à prisão ou banimento, mas apenas seis países do mundo condenem homossexuais à morte. Com tudo que vimos até aqui, é óbvio que a Arábia saudita não poderia ficar de fora de uma coisa “tão boa”. Por lá, as execuções são feitas por decapitação. Embora não haja dados confiáveis para estabelecer quantas pessoas foram executadas por essa razão  (no fundo, até eles sabem que isso é uma vergonha), a Arábia está sempre na lista dos cinco países que mais executam no mundo, então, presume-se que sejam muitos (este ano, so far, ela está em um nada honroso terceiro lugar, perdendo apensa para China e Irã). Na base de toda essa loucura, está a opção religiosa imposta pela dinastia Saud ao país, que é o wahabismo. Esta última denominação é um ramo purista e ultraconservador do sunismo, que faz (como todos os fundamentalismos fazem) uma leitura literal e tarada dos seus textos religiosos. Nunca cessarei de me impressionar com o parcialismo da mídia ocidental, que trata até hoje o termo “xiita” como sinônimo de fanatismo, devido ao fato do Irã ser um inimigo declarado dos EUA, mesmo ignorando o fato de Bin Laden ser sunita, o EI ser sunita e, é claro, a própria Arábia.

Troca de turnos no imperialismo. Encontro entre Roosvelt e Ibn Saud, em 1944, marcaria a passagem de bastão da Inglaterra para os EUA na condução da geopolítica do petróleo

Troca de turnos no imperialismo. Encontro entre Roosevelt e Ibn Saud, em 1944, marcaria a passagem de bastão da Inglaterra para os EUA na condução da geopolítica do petróleo

Agora, em dezembro, as mulheres poderão votar e ser votadas nas próximas eleições do país. Trata-se de uma promessa feita pelo recém falecido rei Abdullah Saud, e implementada pelo seu sucessor e atual rei, Salaman. As últimas eleições foram realizadas em 2005, e depois suspensas pelo rei. Nelas, elegem-se pessoas para conselhos municipais, mas apenas um terço dos membros. Os outros dois terços são indicados, e os conselhos, na verdade, têm bem poucos poderes. Mesmo com o pouco que isso representa em termos de ganhos reais de poder decisório, as mulheres do país estão comemorando. Segundo Hatoon al-Fassi, que é uma militante de longa data pelo direito da mulher saudita ao voto, isso significa “muito empoderamento”. Mas, em um país onde a mistura de homens e mulheres não casados é proibida e rigidamente controlada por uma polícia religiosa (sim, parece pesadelo, mas isso existe), as candidatas mulheres partem em desvantagem, pois só podem se comunicar com o seu eleitorado via VT.

Sobre a Arábia Saudita, há pouco a se comemorar no campo dos direitos humanos. Escravidão abolida há pouquíssimos anos, e na prática ainda existente, mulheres oprimidas demais até para os baixos padrões da região, uma monarquia absoluta alucinada que só olha para os próprios interesses (leia-se, vender petróleo) e vive nababescamente (a fortuna da família do Bin Laden – eram todos arquitetos – veio da construção de suntuosos palácios para os mais de mil membros da família real saudita) enquanto a população, miserável e analfabeta, sofre. Insatisfeitos com tudo isso, o país ainda é um grande exportador do seu modelo. Os sauditas, que tanto acusam o Irã de promover o xiismo pelo Oriente Médio, financiam escolas para ensinar o wahabismo mundo à fora. Foi assim que surgiu o Talibã, por exemplo. E é assim que a intolerância entre sunitas e xiitas está sendo exportada para lugares onde ela nunca existiu, como na Índia, por exemplo, que é o mais novo destino dos missionários do wahabismo. Talvez por ser, devido à questão energética, um dos aliados mais importantes do ocidente. Talvez porque o braço dos petrodólares vá longe. Ou talvez simplesmente porque os problemas do país não passem pelo crivo da imprensa, na hora em que ela define o que é de interesse público e o que não é, o fato é que pouco ouvimos falar dessas atrocidades por aqui.

Seja como for, como outras monarquias do Golfo estão seguindo o exemplo e “abrindo” seus sistemas políticos, como Omã e Emirados Árabes Unidos (embora isso não signifique necessariamente abrir voto para as mulheres), parece-me que estas pequenas concessões são uma resposta à primavera árabe, e refletem o medo desses déspotas de que a insatisfação popular bata na porta dos seus palácios, e não alguma preocupação legítima pelo bem-estar de quem quer que seja. Termino esse texto com três histórias bem sauditas de repressão a movimentos políticos.

Páginas da repressão:

– “Tomemos o caso de Suliaman al-Rashudi, um ex-juiz de 80 anos preso em dezembro de 2012, dois dias depois de ter uma conversa particular sobre a legalidade de protestos pacíficos na lei da Sharia. Ele foi levado sem um mandado de prisão para cumprir uma pena de 15 anos que ele não sabia ter sido confirmada por um tribunal de recurso. Para alguém de sua idade, isso era equivalente a uma sentença de morte. Ele não está sozinho. Dez outros membros fundadores do grupo de direitos humanos de al-Rashudi, a Associação de Direitos Civis e Políticos Saudita (ACPRA, sigla em inglês), foram levados um a um para a prisão em todo o país depois de julgamentos grosseiramente injustos e sentenças mais pesadas do que as emitidas contra combatentes sauditas que se uniram ao Estado Islâmico.” (tirado da página da Anistia Internacional – https://anistia.org.br/raif-badawi-segredo-arbitrariedade-e-suspense-todas-marcas-da-justica-na-arabia-saudita/).

– “Na última sexta-feira (12/06), como muitas pessoas em todo o mundo, eu aguardei para saber se Raif Badawi seria retirado de sua cela na prisão e chicoteado sem piedade 50 vezes em uma praça pública em Jeddah.”

Badawi é um blogueiro condenado a mil chicotadas por insultar o islã – mas seu crime “real” foi a criação e o gerenciamento de um fórum on-line para debate político. Para não matar o desgraçado, as mil chibatadas serão distribuídas em 20 sessões de 50 açoites, toda sexta-feira. No momento, a sentença foi suspensa, embora ninguém saiba por quê.

– A Arábia Saudita é o único país do mundo onde as mulheres são proibidas de dirigir. O movimento feminista saudita de vez em quando organiza protestos, em que mulheres pegam carros e saem dirigindo pela cidade. O problema é que, se pegas, elas acabam no pelourinho, como a coitada da imagem que ilustra este texto.

Esse blog fez considerações interessantes e originais sobre a escravidão moderna na Arábia Saudita, e sobre a hipocrisia das agências de rating que definem que países são bons para se fazer negócios. Recomendo a leitura: http://caderno.allanpatrick.net/2011/06/26/arabia-saudita-paraiso-da-escravidao-moderna/#comment-30163

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