Linha 4-7-4, o arrastão que queremos

Se é na favela, é "mandado pelo tráfico", se é manifestante, é "vândalo / baderneiro", se é em Copacabana, por que o policial não prende esse vigilante-biduzão?

Se é na favela, é “mandado pelo tráfico”, se é manifestante, é “vândalo / baderneiro”, se é em Copacabana, por que o policial não prende esse vigilante-biduzão?

Uns dez anos atrás, um amigo meu, negro e cabeludo, vários dreads na cabeça, retornou após um longo período para Pernambuco, para visitar a mãe que ele não via há mais, também, de dez anos. Ele havia migrado para o sudeste, bem novo, para morar na casa de uma tia, perseguindo aquela miragem, como tantos, de encontrar um ensino público de melhor qualidade, melhores oportunidades etc. Para grande azar seu, um ou dois dias antes da sua chegada em Recife, uma menor de idade havia sido estuprada na comunidade de periferia onde ele nasceu. Chegando lá, o clima não poderia estar mais pesado. A população, justamente indignada, estava em estado de alerta, e vários “cabras”, de peixeira na cintura, estavam espalhados pelas biroscas da região, tomando doses de cachaça às talagadas. Meu amigo, em uma intuição fácil de entender, percebeu que se algum desses cabras um pouco mais alterado, ou outra pessoa qualquer, olhasse para ele, não o reconhecesse (fazia, como disse, anos que ele deixara aquela comunidade), e estranhasse um desconhecido, jovem e cabeludo, e desse um simples grito do tipo “olha ali o estuprador!”, poderia ser o seu fim. Resultado: meu amigo passou a sua merecida semana de férias entocado na casa da mãe, com medo de pôr a cara na rua e se tornar uma vítima da justiça popular, ou seja, de um linchamento (no mais, muito comum naquela região). Foi, a meu ver, uma sábia decisão, que pode lhe ter salvado a vida. A fúria cega precisa ser direcionada a um objeto qualquer. Se é o objeto certo ou não, é uma questão que vai quase para o segundo plano.

Sou contra lógicas de linchamento, tanto dos físicos quanto dos morais, cada vez mais comuns nos tribunais da internet, mas deixemos estes últimos de lado, para falar dos físicos apenas, bem mais graves. Além de ser contra pelas razões que, creio, são autoevidentes (“essa coisa” de direitos humanos), sou contra também pelo simples e pragmático fato de que não é preciso muita imaginação nem muitos dados para perceber que a justiça de rua, se é que isso existe, atinge indiscriminadamente quem tem culpa e quem NÃO tem culpa. E o que eu vi, nas cenas divulgadas esses dias, foram cenas de quase linchamento em plena Nossa Senhora de Copacabana. Ao que tudo indica, moradores do bairro (e adjacências) estão formando grupos de milícia para “fazer justiça com as próprias mãos”, ou “garantir a segurança” da classe média branca da região, que não precisa pegar dois ônibus para chegar à orla e quer curtir a sua praia. Querer se divertir em segurança é um direito de todos, sem dúvida. O problema é o possessivo “sua”.

Essa briga é velha (além de cansativa e repetitiva). Lembro do ódio que a burguesia carioca voltou contra o Brizola quando ele estabeleceu linhas de ônibus que ligavam a baixada diretamente às praias da zona sul, nos fins de semana. Aquele gesto de democratização da cidade rendeu horrores de aborrecimentos ao então governador, rendeu centenas de reportagens de teor descaradamente racista por parte dos meios de comunicação (a mais notória delas foi um episódio do ultrasensacionalista “Documento especial”, da finada TV Manchete) e rendeu também a simpática música “Nós vamos invadir sua praia”, do Ultraje a rigor, em defesa do direito de acesso para todos, ora bolas, ao bem comum. Lembro também das absurdas obras do metrô de Ipanema, quando o governo Brizola abria os buracos, e o governo Moreira Franco vinha em seguida e tapava, atendendo à demanda da população das áreas nobres da cidade por não se misturar (dinheiro público sendo literalmente jogado no buraco).

Não se trata aqui, é evidente, de minimizar os transtornos de quem foi agredido ou teve os pertences roubados. Vamos lembrar que quem faz esses arrastões não são apenas “vítimas da sociedade”. Na verdade, os maiores alvos desses incidentes também são pobres, que também percorreram longas distâncias de ônibus em busca de refresco no litoral (a elite de verdade está em Angra, ou nas suas residências de inverno, em Araras). E, mesmo que isso se tratasse de revolta social, seria daquele tipo que, por mal direcionada e sem orientação política, acaba mais cedo ou mais tarde se voltando contra quem a pratica (que termina preso ou morto). Mas o risco maior está em outro lugar. Parece que uma nova leva de “justiceiros” se está formando pelas redes sociais, e que das vinte academias de luta de Copa, dez já se comprometeram a colocar quadros à disposição para realizar “patrulhamentos” de fim de semana: ou seja, as cenas de ônibus sendo depredados e pessoas desesperadas fugindo pelas saídas de emergência tendem a se repetir nos próximos dias de verão (sim, para efeitos práticos, já estamos no verão, embora hoje seja o primeiro dia de primavera). E, claro, muitos jovens negros vindos de longe querendo apenas curtir a praia vão apanhar sem ter feito nada.

Pior ainda são as falsas soluções apresentadas pelo poder público, que pretende cortar as linhas de ônibus que dão acesso às praias para os moradores de localidades distantes. A linha mais atacada do momento é a 474, que liga o Jacaré ao Leblon. Essa está tão odiada que tem até comunidade no Facebook contra ela. Eu mesmo já fui uma vítima da violência da linha 474. Quando eu era adolescente, uma vez, de madrugada, sofri um arrastão dentro do ônibus – o que se chamava de arrastão naqueles dias era um grupo cercar, bater e roubar alguém que estivesse “dando sopa” sozinho. E foi o que me aconteceu. Fui cercado por uns seis. Não tive um grande prejuízo: me levaram meio maço de cigarro, celulares não existiam naquela época, dinheiro eu nunca tinha muito mesmo. O que me incomodou mais até do que os vários sopapos foi a perda de um chapéu que eu usava muito e que constituía, afinal eu tinha só uns 16 anos, uma espécie de construção frágil de identidade juvenil. Fiquei espumando de ódio, mas nem por isso desci do ônibus (na verdade, quase tive meio que me jogar para fora dele para conseguir escapar) fazendo campanha a favor da pena de morte, ou defendendo a formação de bantustões na cidade, ou qualquer outra estupidez do gênero.

Na ordem da “pausa para as lições da história”, devemos lembrar que na África do Sul, o regime segregacionista, em termos de frequência a locais públicos, excluía os negros das bibliotecas, de bares e restaurantes e das praias. Impedir os ônibus de circular é uma solução apartheidista e que se revelará, com o tempo, mais um desses tiros que a sociedade dá no próprio pé. Excluir, ainda mais do que as distâncias e o preço das passagens já o fazem, as pessoas de um dos poucos divertimentos relativamente baratos e democráticos que a cidade oferece só vai piorar o problema, aumentar ressentimentos mais do que justos e alimentar o ódio racial e social, também compreensível e justificável. Vai tornar, por fim, a cidade ainda mais desumana do que ela já é, pois o problema por aqui, como sempre, não é o assalto, mas o racismo muito mal disfarçado e o classismo descarado, o autoritarismo das classes dirigentes e do poder público habituados a soluções excludentes e não cidadãs, que não têm pudor algum em gerir o país e, no caso, a cidade, para uns poucos, a custa de muitos.

O arrastão que queremos

Rio, 40 graus, em algum lugar na praia. Coloque o Cabral, o Pezão, o Paspalho, os Baratas, todas as famílias de máfias de transporte, de especulação, de comunicações, de um lado, e de outro, o povo. Retire a polícia. “Que comecem os jogos”.

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Categorias: Sociedade | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Linha 4-7-4, o arrastão que queremos

  1. Música esta do Roger, com participação do Lobão nos backing vocals. Como os tempos mudam…

  2. Pingback: Linha 4-7-4, o arrastão que queremos | BLOG DO MARCVIN

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