Linha 4-7-4 (“Você matou meu filho”)

Praia de acesso restrito a brancos, na Cidade do Cabo, África do Sul

Praia de acesso restrito a brancos, na Cidade do Cabo, África do Sul

“Enquanto você tem medo de ir à praia e perder seu Iphone, eu tenho receio de morrer. Não é justo pra ninguém, correto? Só que durante TODA a vida fui “confundido” com bandido apenas por ser negro. Meu mundo é assim. A toda hora ter que provar que sou honesto. Caso eu morra não terão protestos nas redes”. – depoimento de Ernesto Xavier, morador do Rio de Janeiro.

Dei aula, por menos de um ano, no Cantagalo, comunidade da zona sul do Rio espremida entre alguns dos cartões postais mais caros (pode-se ler no sentido duplo mesmo) da cidade. Do Ciep do morro, que havia sido projetado na década de 1950 para ser um hotel de luxo, avista-se, através de um amplo vidraçal, do extremo direito da paisagem, a imponência tropical e verdejante do maciço da Tijuca. No extremo esquerdo, a vastidão do oceano interrompida apenas pelo pequeno conjunto de ilhas da orla, como as Cagarras. No meio, também espremido, o bairro de Ipanema reduz-se, daquela altura, a uma estreita faixa de terra, entre o mar e a Lagoa que se estende até os pés da floresta. É uma visão, até para quem nasceu e morou a vida inteira em uma cidade de proverbial beleza, surpreendente e deslumbrante.

Meus alunos, no entanto, tinham uma percepção daquele espaço um tanto diferente da minha. Havia um, particularmente, que sempre mereceu minha atenção especial. Era garoto muito pobre, criado por uma tia, pois os pais haviam sido assassinados pelo tráfico. Uma vez, quando conversávamos olhando aquela vista espetacular, ele me lançou, apontando em determinada direção, a seguinte pergunta: “professor, o que é aquele mato ali?” Era o Jardim Botânico. Mais do que revelar um desconhecimento geográfico mínimo do próprio local que ele habita, afinal ele vê aquela vista todos os dias, isso é demonstrativo de outra coisa: a cidade não é para ele. Na verdade, não é para eles. Para todo o conjunto dos meus alunos daquela época, para todos os moradores daquela comunidade, para todos daquela classe e daquela cor, enfim. Com recursos financeiros insuficientes para a maioria das opções de lazer ou cultura disponíveis pela cidade, e também com baixo incentivo para procura por espaços e atividades afins gratuitos, ele, e com certeza muitos outros, não conheciam e nem se arriscavam a uma visita ao Jardim Botânico, mesmo a entrada sendo gratuita. A grande diversão dos jovens daquela comunidade era ir à praia. Essa mesma cujo direito de acesso está sendo restringido pelo poder público.

Como já discutido aqui neste blog semana passada (https://transversos.wordpress.com/2015/09/23/linha-4-7-4-o-arrastao-que-queremos/), as ameaças de limitação das linhas de ônibus vindas de locais distante são um ultraje. E, lamentavelmente, se concretizaram. Em mais uma atitude apartheidista, a prefeitura vai limitar o acesso à zona sul de pelo menos 20 linhas, o que tornará a circulação pela cidade mais morosa e mais custosa. Fim de semana passado, ainda sem a limitação das linhas, a polícia já antecipou a chamada “operação verão”, com reforço do policiamento por toda a orla (dadas as condições meteorológicas adversas – leia-se, choveu – ficamos diante da ridícula situação de uma praia com mais policias do que banhistas). Não é, no entanto, o aumento do policiamento que agride, mas o retorno das blitzen, que, é de se prever, impedirão o acesso às praias de jovens apenas por serem negros.

Enquanto a segurança nas praias da zona sul parece ser a maior preocupação dos meios jornalísticos, na terça-feira um jovem negro (de novo) foi assassinado em uma comunidade (de novo). E a polícia, para ocultar mais esse crime, plantou (de novo) uma arma, com o menino ainda estrebuchando, para forjar um auto de resistência (de novo). Só que, dessa vez, tudo foi filmado em um celular por uma vizinha (segue o link abaixo), mostrando a execução, o tiro à queima-roupa e o “plantio” da arma (aviso: imagens fortes):

https://www.facebook.com/100008733816174/videos/1486064361694677/?pnref=story

A polícia brasileira é a mais assassina do mundo. Isso não é novidade para ninguém que pense. Ou que, pelo menos, se informe. Segundo qualquer levantamento, as vítimas das execuções extrajudiciais, do uso desnecessário de força ou dos autos de resistência (tanto reais como imaginários) são majoritariamente jovens negros, o que levou a Anistia Internacional, que já vem de longa data denunciando esse tipo de abuso de força, a publicar o relatório “Você matou meu filho” (links ao final), tomando como base assassinatos ocorridos em Acari, em 2014. Este ano, infelizmente, tivemos uma piora do que já era ruim, segundo o Instituto de Segurança Pública (ou seja, segundo o próprio governo admite), com 224 mortes provocadas por policiais nos primeiros oito meses do ano, contra 174 no mesmo período do ano passado. Isso não há de surpreender ninguém, depois da onda de violência no Alemão no começo do ano, que além dos mortos, deixou verdadeiras histórias de terror no seu rastro, com filhos testemunhando a morte de mães, mães de filhos, entre outros horrores.

É muita alodoxia discutir linha de ônibus enquanto crianças continuam sendo mortas a tiro por polícias em favelas. A culpa não é dos ônibus, e o roubo de celulares em praias está muito longe de ser o problema mais grave desse país, como a epigrafe deste texto muito bem esclareceu. Não quero repetir argumentos da semana passada, mas o fato é que com os dados da Anistia e do ISP, vê-se que a situação se deteriorou. E as “respostas da sociedade” estão indo pelo caminho de sempre: militarização e apartheid racial e social. Até quando vamos insistir em soluções que só agravam o problema e, portanto, não funcionam? Nada de novo, também, neste país demofóbico e racista. Vemos neste exato momento o congresso chantagear o governo para que este realize um ajuste fiscal nos piores moldes possíveis, cortando gastos sociais e preservando bancos e elites do famoso “corte na carne”. No fundo no fundo, cada vez mais claramente se desenha o “nobre” objetivo da casa: eles querem que o governo, fortemente legitimado por conquistas sociais, corte justamente aquilo que lhe dá base. Dane-se que isso signifique degradação do bem-estar da população, o que interessa é a manobra eleitoreira por trás do discurso tecnocrático do ajuste.

Apresentação do relatório: https://anistia.org.br/direitos-humanos/publicacoes/voce-matou-meu-filho/

O relatório completo: https://anistia.org.br/wp-content/uploads/2015/07/Voce-matou-meu-filho_Anistia-Internacional-2015.pdf

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