Que crise ?!

Uma das alegrias da envelhescência que ninguém vai me furtar nem com o elogio das supostas vantagens da juventude é essa: a memória dos tempos vividos . Meninos, eu vi. Meninas, eu vivi. Já fui jovem, sei como é mas nem todos vocês chegarão à maturidade. E vocês também correm o risco de estacionar numa espécie de limbo que considero o pior lugar para se viver. Este lugar onde se lastima não ter aproveitado todas as oportunidades que o viço da juventude proporciona e não se encontra vantagens na maturidade. Entre elas as que a memória pode proporcionar e a consciência que, penso, toda pessoa precisa adquirir, a de que o ser humano é um animal em vir a ser eterno que um dia morre. O bagulho é doido, o Sistema é lento, e o barato é treta, caros e caras, manas e manos. Tentem não comprar a palavra crise “ de barato” e vejam aí o que acontece.

Palavras não têm apenas significados, têm afetos que acionam memórias. Eu ouço a palavra crise e lembro com carinho de uma amizade há 33 anos com um, naquele tempo, chamado “turquinho”, pessoa muito amável, simples, rica em todos os sentidos que colocava meio corpo pra fora da caminhonete e gritava pro pessoal sentado no boteco tomando cerveja e comendo churrasco :

– Crise? Que crise ?!

E, sendo fiel aos fatos, gargalhava. E o motivo pelo qual ele ria era o seguinte. Enquanto os jornais diziam que a inflação, o cenário internacional e tudo mais ( estávamos em 1982, segundo momento da alta internacional do petróleo, isto é, do ataque do Império por mais poder econômico) eram prova da tremenda CRISE que atravessávamos, ele, empresário e pessoa de boa saúde sem grandes luxos, continuava sua vida de boas. Uma vida que consistia em, além de cuidar de seus negócios, arregimentar verbas e apoio para abrir uma APAE na cidade- o que conseguiu- , apoio político para se tornar presidente de uma associação que promovia o mais importante evento turístico da cidade – o que também conseguiu- e ainda, enquanto levava uma vida confortável, se ocupar pessoalmente de resolver as tretas dos empregados de sua empresa recebendo correspondente gratidão por sua eficiência em aliviar as dores de quem penava no trabalho duro e nas condições precárias. E enquanto chegava às sete em ponto para abrir sua empresa nunca negar ao menos moedas ou uma cesta de mantimentos ao trabalhador desempregado, humílimo, com seu chapéu rodando nervosamente nas mãos pedindo emprego. A vida na província tinha destas coisas e também por isso ainda muita gente acredita que a caridade pode salvar o mundo. Talvez sejam pobres ou filhos de pobres que um dia rodaram o chapéu, se humilhando, pedindo um salário que lhes desse, ao menos, comida para a boca dos filhos.

Tenho saudades deste amigo, que nunca mais vi ou soube notícias. Durante anos tivemos discussões políticas homéricas. Ele, um conservador militante, eu , uma vermelha irredutível. Ao longo da década de 80 ele migrou da Arena para o PMDB e no meio da década seguinte estava afiliado ao PT, partido pelo qual acabou se elegendo vereador. Não, eu não estava no PT e nem sugeriria que fosse para onde não fiquei. De todo modo, sempre achei que seu caráter e personalidade tinham muito mais de alma socialista do que ele imaginava e, conforme foi lendo e estudando, perdeu a conexão política com a direita local e percebeu que seus antigos pares eram movidos por ganância e egoísmos atávicos. Perdeu a ingenuidade assim como a perdemos quase todos.

A vida nos afastou mas nunca esqueci um dos muitos conselhos que me deu, trazido de herança dos antepassados libaneses “ escreve na pedra suas dívidas e na areia o que te devem”. Tremenda vacina contra a decepção. Não esqueci, M., se por acaso um dia ler isso, saiba da minha gratidão por aqueles anos de camaradagem.

Me pergunto se ele ainda estará rindo e perguntando “ crise, que crise?”, passando pelas estradas lotadas de carros a caminho da praia neste feriado ou se, agora um senhor com mais de 60 anos, cedeu aos maus bofes das dores da velhice que afetam a tantos. Me pergunto se recorda que o entusiasmo costuma acompanhar a juventude, sempre ansiosa por tomar o bastão dos velhos e fazer melhor, ou se fica aflito pensando que devemos ser nós, os envelhescentes e velhos, a estancar os descalabros pois nossos pósteros não são capazes. Será que olha para os secundaristas em marcha na Av. Paulista, protestando contra o fechamento de suas escolas e vê ali o futuro, ou lê as coisas abjetas que jovens da mesma idade escrevem em blogs que apoiam e fomentam a violência das polícias contra os negros, pobres e mulheres e teme por suas filhas.

Será que sofre, pensando na situação dos indígenas? Será que se angustia com a guerra na Síria? Será que deseja um país com mais liberdade para os jovens negros circularem nas periferias da cidade e não apenas ou está engajado na campanha por um estado mínimo, a entrega da Petrobras de uma vez para os gringos e a proteção dos lucros e das propriedades dos mais ricos? Ainda está filiado ao PT, ou como Marta Suplicy, migrou de partido para “ combater a corrupção” ? Mas neste caso, fantasio que ainda daríamos boas gargalhadas juntos, ao comentarmos o papel de trouxa que fez Marta, escolhendo posar para a foto de filiação justamente ao lado de Eduardo Cunha.

Não deixa de ser frustrante que eu não consiga responder muitas destas perguntas, embora saiba que ele, como amigo, pai, filho, irmão, patrão e cidadão, sempre se pautou por uma moral rígida de conduta, baseada em valores cristãos, de respeito ao próximo e entusiasmo pelo trabalho, pela solidariedade e pela responsabilidade social. Apenas suspeito, tanto tenho visto por aí, que seus maiores esforços nunca devem ter andado muito longe de seguir à risca outro ditado popular bastante ouvido nestes círculos que eu frequentava naquela época:“Mateus, primeiro os teus”. E paro a pensar quanto isto é o centro irradiador de toda a barbárie brasileira, quiça mundial, desde sempre.

Ainda não viramos uma nação republicana de verdade, onde todos os cidadãos devem ser julgados iguais perante a lei sendo não apenas punidos mas levados a cumprir um programa para sua ressocialização. Ainda não entendemos que a política é a arte da discussão que pode levar a acordos entre os diferentes. Ainda não conseguimos mudar a indecente, medonha, indefensável, injusta e desonesta distribuição de renda no Brasil. E por isto ainda trocamos balas e insultos ao invés de argumentos e processos judiciais. A chantagem ainda é moeda corrente e arma usada com privilégio por uma minoria privilegiada desde sempre.

Crises sempre afetam mais e de maneira mais perversa os mais fracos, os mais pobres os mais fodidos, como se sabe.  Fico a me perguntar se apenas quando os mais fracos aprenderem a se unir- e seres humanos aprendem – se só então os que nunca conheceram a fome, a sede e a vida ao relento, vão entender, na prática, o que é crise de verdade. E pagar por ela talvez com uma nostalgia inútil pelo tempo presente. Este tempo em que ainda podem parar, pensar e se perguntar: qual é a parte que me cabe deste latifúndio chamado crise?

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