Sobre Lolitas e Valentinas

A Valentina, de Guido Crepax. Os quadrinhos adultos europeus tiveram o mérito de inovar a linguagem do gênero e criar personagens femininas fortes e alternativas ao moralismo puritano que o cinema de Hollywood se esmerava conscientemente em difundir pelo ocidente. Pelo lado negativo, esses quadrinhos também exploraram a erotização da mulher e abusaram da combinação sexo e violência. A revista Heavy Metal, em seus derradeiros anos, chegava a ter cinco histórias diferentes contendo estupros em um mesmo número

A Valentina, de Guido Crepax. Os quadrinhos adultos europeus tiveram o mérito de inovar a linguagem do gênero e criar personagens femininas fortes e alternativas ao moralismo puritano que o cinema de Hollywood se esmerava conscientemente em difundir pelo ocidente. Pelo lado negativo, esses quadrinhos também exploraram a erotização da mulher e abusaram da combinação sexo e violência. A revista Heavy Metal, em seus derradeiros anos, chegava a ter cinco histórias diferentes contendo estupros em um mesmo número

O Brasil é um país ao qual não faltaram alcunhas. Do “país do futuro”, de Stefan Zweig, passando pelo “Brasil potência”, dos militares, até chegar à “pátria educadora”, de Dilma Vana Rousseff. Porém, tendo em vista esta semana que, graças aos céus, termina, talvez a melhor forma de se referir a este país seja “país do retrocesso e do analfabetismo sexual”.

De todos os absurdos que testemunhamos, o maior foi com certeza os comentários agressivos / sexuais / ameaçadores em relação a uma menina de 12 anos participante de um programa de televisão. Não vou dar especificidades para não a expor ainda mais, mesmo sabendo que ela já foi superexposta. Não farei parte disso. No entanto, não se trata de um episódio corriqueiro que possa ser ignorado. Começo pelos comentários, que tiveram ampla repercussão, de um músico fracassado de segunda categoria, chamado Roger (ou Rogê, sei lá, não interessa e não faz a menor diferença). Não que ele tenha qualquer importância ou relevância. Ele não tem. Mas o comentário é em si uma daquelas falas socialmente muito mais reveladoras do que o seu próprio emissor tem QI para avaliar. O caso foi o seguinte: após as agressões pedófilas sofridas pela menina, o coletivo ThinkOlga lançou uma campanha para que mulheres rompessem o silêncio e se manifestassem, lembrando, corajosa e dolorosamente, do primeiro assédio de que se lembram (a campanha ficou conhecida pelo hashtag #primeiroassedio). Um ou dois dias depois dos relatos estarrecedores inundarem as redes (a ideia era essa, conscientizar a partir da massificação de denúncias de traumas pessoais), o (ex) músico achou que ele se tornaria uma pessoa mais interessante debochando da iniciativa. Para tanto, ele compartilhou com o mundo o seu relato de como teria sido gostoso um suposto abuso que ele sofrera de uma empregada doméstica (esse fetiche da escrava domesticada que a nossa sociedade de Casas Grandes não consegue superar) durante a sua infância burguesa.

Ele está certo, pela lógica patriarcal, pois segundo a mesma o homem é o caçador / predador, e mulher é troféu. Não interessa se ela é mais velha ou mais nova. Contrariamente à situação da mulher, diferenças de idade para o homem não constituem deméritos (às vezes, podem até ser consideradas bônus). O que interessa é “marcar mais um risco na parede”. Pela mesma lógica, também não interessam “detalhes”, por exemplo, se a “presa” está acordada. O pior é que, ao que tudo indica, esse cara se acha inteligente e superior por fazer esse tipo de comentário. Como se referendar e reforçar preconceitos que a maioria das pessoas já tem de qualquer forma fosse algo de transgressor e de positivo (a idealização do politicamente incorreto). Como se reivindicar respeito e direitos fosse algo “careta”, ou sei lá o quê. Essa inversão de valores parece atingir, além de ex-músicos, muitos comediantes medíocres. O que escapa a esses “rebeldes” é o fato consternante de que TODAS as mulheres já sofreram algum tipo de abuso em algum momento da vida, e que não há nada de engraçado, muito menos de transgressor, em rir disso. Isso apenas reforça a opressão, da forma como ela já existe. Isso apenas torna “a vida como ela é”.

Ellen Page, em Menina má.com. Se eu fosse uma menina de 14 anos, eu queria ser ela

Ellen Page, em Menina má.com. Se eu fosse uma menina de 14 anos, eu queria ser ela

Mas deram um jeito de piorar ainda mais as coisas. Não faltaram defensores da pedofilia para entrar em campo justificando o imponderável (sim, você leu certo, tem gente defendendo isso). Nessa linha, em defesa dos achacadores, um blog intitulado “Foco cristão” se referiu à menina como “uma adulta de doze anos”, para elaborar um precioso raciocínio segundo o qual, uma vez que ela já atingiu a “maturidade sexual” (definida em termos de pelos pubianos – mais uma, você leu certo), ela já pode ser exposta a esse tipo de assedio. Raciocínio errado sob todos os ângulos imagináveis, uma vez que ninguém “merece” ser assediada dessa forma, não importa a idade, fora o completo desconhecimento do Código Penal Brasileiro e da figura do “estupro presumido” (sinto informar, mas com 12 anos, mesmo consentido, sexo é considerado estupro). Não importa se uma menina dessa idade se veste como mulher, ou aparente ser mulher, porque não interessa o quão precoce ela seja em um ou dois aspectos de sua vida (e nem esse era o caso aqui). O que determina a maturidade é o acúmulo de experiência, então, globalmente, na nossa sociedade, ela ainda é uma criança e, portanto, estará sempre em desvantagem em relação a um adulto. E crianças têm que ser defendidas de adultos. É essa mesma lógica que leva muitos países a adotar fortes regulamentações para a publicidade voltada para o público infantil, pois o marketing tem condições de pagar os melhores cérebros (gente com phd e expertise em diversas áreas do conhecimento) para desenvolver formas de empurrar o consumo para as crianças (sim, eu estou comparando publicidade com estupro). E nada disso é moralismo. Sexo não precisa de muita regra. Na verdade, só precisa de duas: tem que ser entre adultos e tem que ser consentido.

Vivemos em uma sociedade que incentiva a sexualização o tempo inteiro, via novelas e todos os meios. Depois, a mesma sociedade recrimina a mulher por seguir a orientação anterior, ou seja, seguir o desejo, que cada vez mais cedo é despertado. É muita dupla leitura, e é ao mesmo tempo a fórmula certa para infelicidade e a doença. Essas foram apenas algumas das muitas e infelizmente previsíveis reações de revirar o estômago. Previsíveis, pois tudo isso remete e muito às reações à campanha do “eu não mereço ser estuprada”. Mas ainda não acabou. Nesse exato momento, há uma bancada no Congresso Nacional, composta em sua maioria por homens, muitos dos quais fazem parte de religiões completamente retardadas, e alguns com graves acusações criminais nas costas, inclusive de violência contra a mulher, decidindo o que as mulheres podem ou não fazer em casos de estupro. Enquanto a mídia parece sobrepreocupada com os escândalos de corrupção, forças piores do que o PT loteiam o governo, e a pauta conservadora avança em todas as direções. É de chorar a passagem da PL do estupro pela Comissão de Constituição e Justiça. Essa PL (5.069/2013) dificulta o aborto em caso de violência sexual e criminaliza os médicos que oferecerem a pílula do dia seguinte em tais situações. Lá vamos nós ter que fazer campanha “veta Dilma” de novo. Além de conservador, o Brasil está ficando chato e repetitivo.

Ao que tudo indica, a tribo dos caçadores-coletores, aos quais o nosso ex-músico cujo nome nunca entendi muito bem qual é e tantos outros deram voz recentemente, está tão apavorada que precisa de leis para se proteger e preservar o seu status. Não há nada mais frágil do que esse modelo de masculinidade que pinta riscos na parede. Meninas, se quiserem sacanear um cara desse tipo, experimentem após o sexo comentar algo como “você é que tem o menor pau entre os seus amigos”, para assistir ao desmoronamento de uma identidade tão “duramente” construída. Sem piadas e sem trocadilhos, o que esperar de gente que, apropriando-me um pouco da linguagem do sexismo, “não é homem o suficiente” nem para “pegar uma mulher” sem ter uma relação de poder envolvida, que não consegue olhar uma mulher de igual para igual, seja essa relação de poder devida à idade, seja a alguma hierarquia real ou imaginária.

Enquanto vivermos em uma sociedade patriarcal na qual ideais completamente insensatos de beleza e de culto à juventude forem vendidos como os únicos nirvanas, as Lolitas só vão mudar de nome. Enquanto posturas como as dos “transgressores” supramencionados forem toleradas (e ainda por cima incentivadas), mulher não estarão seguras em nenhum lugar, e em nenhuma idade, e aparecer na televisão apenas multiplicará esses riscos. Como já escreveu Ana Souto, aqui mesmo no Transversos, cada direito da mulher foi uma conquista duramente arrancada ao patriarcado. Parabéns a todas as mulheres que pegaram o caco de vidro da dor e expuseram as suas vísceras. Parabéns também àquelas que, por muitos motivos, não puderam fazer o mesmo, mas se solidarizaram. Vocês estão no caminho certo. Tem que denunciar e expor esses babacas mesmo. Quero acreditar, em função da “criminalização da heterofobia” (isso sim uma piada), que esse modelo está refluindo. Esse mundo, onde mulher tem medo de andar na rua e uma menina não pode aparecer na televisão sem se tornar alvo do fetiche de gente medíocre e covarde, era o mundo dos babacas, mas esse mundo está sendo tomado de assalto por todos os lados. E os babacas estão desesperados.

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Male tears, ou, “nem todo o homem é assim”. Queridos, páginas feministas já estão careca de serem informadas de que “nem todo homem é assim”. Eu com certeza não diria que todo homem é. Talvez nem seja certo dizer que a maioria seja. Mas com certeza muitos são. Muitos o suficiente para colocar em risco a vida e a integridade de todas as mulheres do planeta. Isso já é assustador o suficiente.

Altamente recomendo que o link desse filme seja postado nos perfis de quem está assediando ou apoiando o assédio:

https://www.youtube.com/watch?v=J7jkLEhVvDI

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Categorias: Sociedade | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “Sobre Lolitas e Valentinas

  1. Paulo Paterniani

    Bravo !!

    Lembrei-me de um dado científico : http://www.unicamp.br/nipe/maca.htm

    A gente precisa aprender a evoluir com os bonobos !!!

  2. Meg

    Muito bom Paulo! Eu cada vez mais constato que o Brasil supera qualquer ficção! Essa bancada por exemplo é tão caricata que chega a ser inverossímil, creio que essa seja uma tática – porque enquanto ficamos boquiabertos – eles enfiam goelam abaixo o que bem entendem! Infelizmente, acho que não apenas o Brasil, mas o mundo encaretou, involuiu! Tomara mesmo que suas palavras sejam proféticas – que esse “mundo de babacas” seja “tomado de assalto”. abraços

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