Nem fiz nada: como os assédios nos roubam de nós mesmas diariamente

Da primeira vez,  eu devia ter uns 7, 8 anos. Ele, uns 17. Trabalhava no bar frequentado pelo meu pai. Tínhamos uma conta lá e eu precisava comprar muitas coisas fiado. Vivia me elogiando, dizendo o quanto eu era bonita e que iria se casar comigo. Eu dizia: mas eu não quero casar com você. Ele insistia. Dizia que o que importava era o que ele queria, que ia casar e ponto. Falava isso na frente de muita gente. Falava isso na frente do meu pai. Eu chorava. As pessoas em redor me chamavam de boba. Ele só estava brincando.

Aos 9, 10, o marido de uma tia tentou me beijar. Eu estava sentada no sofá da minha casa vendo sessão de desenho animado. Algum tempo depois contei para a minha avó. Ela implorou silêncio. Disse que meu pai matava um.

Episódios pontuais antes dos 13. Um homem num carro se aproximou. Pensei que queria informação. Estava se masturbando. Vi algo brilhar no banco do carona. Corri. Até hoje não sei se era uma arma, uma faca. Outra rua, outra história? Um homem num carro se aproximou. Pediu informação. Depois ofereceu carona, insistiu de novo, falou uma terceira. Corri. Com o tempo, isso se tornou um hábito quando carros paravam.

Na época da faculdade, voltei do shopping de táxi com alguns amigos e amigas. Rachando a conta, valia a pena. Eu ficaria por último. Achei pedante ficar no banco de trás. Fiquei ao lado do motorista. Ele perguntou se eu não queria fazer um programa com ele. Gelei. Me infantilizei: que isso, moço? Sou disso não. Ele insistiu. Perguntou minha idade. Menti: 17. Ah, tá. Dimenor. Dimenor dá problema. Antes de sair aos prantos, ouvi: viu como sou um cavalheiro? Nem fiz nada.

Dava aula em Acari de manhã muito cedo. Seguia a R. Costa Lobo para pegar o metrô em Triagem. Rua deserta. Um cara passou a mão no meu peito. Não reagi.  Tive medo de apanhar.

E as cantadas grosseiras? As línguas obscenas antes da menarca, numa época em que tomar sorvete de casquinha era deixar o doce escorrer pelos dedos. Puxões de cabelo na balada, beliscões nos braços. Os comentários sobre meus seios, minha boca, minha bunda, minha vulva. A coragem de andar sozinha substituída pelo medo de andar no escuro.

Aos 9 anos, ouvi que era muito madura para minha idade. Aos 10, que era muito madura para minha idade. Aos 11, 12, 13, muito madura. Aos 14, muito…

No carro do amigo de uma amiga, acompanhado dela e do namorado, o cara passou a mão na minha perna quando trocava de marcha. Falei: não te dei essa intimidade. Que isso, benzinho? Não gostou?  Tinha aceitado a carona por insistência da amiga. Iríamos a uma festa de rua em Pilares ou Del Castilho. Ele estava desviando o caminho: Rodovia Washington Luís. A amiga aos beijos com o namorado. Ocupada demais para perceber. Falei com ela, reclamei com ele, que resolveu voltar. Eu estava sem grana. Na altura de Quintino, ela resolve descer para dormir na casa do namorado. Paralisei. Segui com ele. Me senti sem escolha. Na Marechal Rondon, imbicou o carro para um motel. Tentei abrir a porta e o vidro. Tudo travado. Gritei, esperneei. Ele deu meia volta e me levou para uma rua deserta. Eu chorava, gritava, dizia que queria ir embora. E ele continuava tentando me convencer a mudar de ideia. Por fim, me deixou em casa. Ouvi uma frase já conhecida: tá vendo como sou um cavalheiro? Nem fiz nada.

Fonte: Nem fiz nada: como os assédios nos roubam de nós mesmas diariamente , no blogue FeminAGEM.

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Categorias: Cultura, Reflexões, Sociedade

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