“Oitenta por cento de ferro nas almas”

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Minas: tua desgraça e tua vocação vêm no teu nome. Acidentes acontecem. No mundo industrial do capitalismo financeiro, a tragédia de Mariana será apenas mais uma no rol dos grandes acidentes industriais da história, junto com as usinas de Chernobyl e Fukushima, o desastre de Bhopal (vazamento de gases tóxicos de uma usina da Union Carbide) e o vazamento de petróleo da Deepwater Horizon no golfo do México. Uns dirão que a culpa é do PT (aquele partido que inventou a corrupção e tudo que há de ruim, lembram?), outros, que é do PSDB (afinal, quem privatizou a Vale a preço de banana foi o FHC, não é mesmo?). Os mais atentos, mas igualmente errados, dirão que a culpa é do PMDB, partido que, segundo dizem, é o que manda de fato no país, e controla, na figura de Edson Lobão, o ministério responsável por esse tipo de concessão e fiscalização, a saber, o das Minas e Energia. Estão todos certos e errados ao mesmo tempo.

Samarco é o caralho, meu nome é Vale do Rio Doce, porra!

Uma empresa que mata o rio que lhe dá o nome é uma alegoria perfeita para um sistema que destrói o único planeta habitável disponível enquanto permanecermos fora do reino da ficção científica. Jogar a culpa desse desastre em um suposto tremor é para fazer japonês rir, e é muita má vontade para com a nossa posição de centro de placa tectônica. Mais ridículo ainda é a campanha do abafa feita pela imprensa, que está, a olhos vistos, aliviando a Vale, que é uma das maiores anunciantes de qualquer jornal e revista de grande circulação, e jogando a culpa na Samarco (que nada mais é do que uma sociedade da Vale com uma mineradora gringa). É claro que a investigação mal começou, mas já passou da hora de colocar todas as empresas envolvidas sob severo escrutínio, e a Vale do Rio Doce não tem bons antecedentes. A mineradora foi eleita em 2013 a pior empresa do mundo, em uma votação realizada pelo Public Eye Awards, por provocar danos aos seres humanos e ao meio ambiente em 36 países, bem como por acusações de evasão fiscal bilionária (ela superou até mesmo a Tepco, que administrava Fukushima). Trata-se, em termos de lógica policial, de um suspeito evidente. A imprensa só não está caindo de pau em cima da Vale porque ela não é mais uma empresa pública. A imprensa brasileira não fiscaliza grandes empresas. Ela só fiscaliza governos e, ainda assim, de maneira parcial e descaradamente enviesada.

Na verdade, a apuração de responsabilidades é importante para saber quem vai pagar por isso tudo. Mas como é o próprio modelo que está errado, isso não passa de um remendo (que não trará de volta os mortos nem recuperará os danos ambientais que, segundo alguns especialistas, demorarão cem anos para serem sanados). Temos neste momento no congresso a tramitação da PEC 215, que leva para o congresso a palavra final sobre a demarcação de terras indígenas, e um projeto de código de mineração que, entre outras coisas, permite a extração mineral também em terras indígenas. A primeira, evidentemente, é de interesse da bancada ruralista, capitaneada na sua atual encarnação pela Kátia Abreu. O segundo é de interesse direto da Vale e demais mineradoras. Enquanto TODOS os grandes partidos, assim como a quase totalidade dos pequenos, continuarem a dar sustentação para esse modelo capitalista e primário exportador suicida, e enquanto mineradoras, assim como empreiteiras, encharcarem qualquer eleição com dinheiro, tudo isso permanecerá igual. E não são multas e indenizações que vão mudar isso.

Confidência do itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.

Principalmente nasci em Itabira.

Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.

Noventa por cento de ferro nas calçadas.

Oitenta por cento de ferro nas almas.

E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,

vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,

é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:

esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,

este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;

este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;

este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!

– Carlos Drummond de Andrade

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