Civilização e barbárie

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O mundo anda dividido e todo mundo dividindo-se ainda mais enquanto anda. As divisões ora servem para afirmar uma posição, ora revelam desejos de pura segregação. Nosso tempo nos revela menos humanos, menos capazes de uma empatia que, natural e saudavelmente, fizesse-nos ver no outro um pouco do que somos e, com ele, compartilhar seus sentimentos.

O século XXI surge com a cara do XVI. A sucessão de ocorrências bélicas e econômicas, ambas violentas e gananciosas, assustam tanto quanto a reação dos indivíduos que formam a sociedade. Porque, no final, é disso que tudo se trata. De gente.

Civilização é algo que só pode ser definido a partir da sociedade, a partir da admissão de que somos gregários, a partir do entendimento de que precisamos viver em conjunto. O tal “estado complexo de desenvolvimento da sociedade humana” deve ser ressignificado quando se percebe que a objetividade permite ao bárbaro passar-se por civilizado.

Civilização parece ter sido tomado como conceito particular, destinado a designar todo aquele me é igual e excluir, pela barbárie, tudo o que me é diferente.  Nessa visão, tudo o que é ocidental, portanto, é civilizado; o que lhe é diferente, rejeitado sob o rótulo do bárbaro. É símbolo da barbárie aquele que ousa não ser eu. Ou, pelo menos, que não tente esforçadamente o ser.

Os recentes ataques a Paris – terríveis, por sinal – colocam posições extremadas nas manchetes e nas redes sociais. Aliás, as redes sociais revelam o tamanho de nossa estupidez enquanto espécie, algo que desconhecíamos em um passado bem próximo.

Houve quem dissesse, de forma a legitimar qualquer ação de resposta ao ataque, que era a luta entre a barbárie e a civilização. Por outro lado, igualmente absurdo, houve quem comemorasse por conta do intervencionismo francês, de sua história imperialista e de seu “povo antipático”.

Além disso, surge uma verdadeira competição pela compaixão certa e apropriada, única válida e aceitável empatia:  compaixão nacional, compaixão racial, compaixão social. Não se pode mais nem sequer se compadecer sem arranjar uma meia dúzia de inimigos. Exclusões, sempre elas.

E é na exclusão que se encontra o exato senso da civilização. Não aquele de excluir quem nos é diferente, mas de conisderar bárbaro precisamente aquele que impede ou quer impedir a existência do outro. A civilização depende da sociedade e, assim, depende da heterogeneidade, da diversidade, da convivência. Civilidade exige certo grau de tolerância.

Tomado assim, percebemos que não é a condição social ou mesmo a educação formal que define os civilizados. O nazismo, por exemplo, surgiu na civilizada pátria de tantos filósofos, a Alemanha. Há tantos outros por aqui por perto, possuidores de diplomas e dinheiro, que pregam o direito que dizem ter em exigir que o outro não exista. E muitos deles são os mesmos que fazem as leis.

Neste sentido, não há como caracterizar os atendados a Paris como outra coisa senão bárbaros. Não há sequer espaço para, de alguma forma, buscar a explicação de que as ações imperialistas francesas causaram os ataques como reação a seu intervencionismo assassino.

Sem entrar na discussão sobre a validade do método do terrorismo como forma de ativismo, há de se diferenciar o estouro das bombas. Não houve a reação do oprimido contra o opressor, como se pode enxergar em ações na Palestina, na Irlanda, País Basco ou em incontáveis outros atos terroristas.

O Estado Islâmico não representa o oprimido, pelo contrário, é igualmente opressor. E mais violento. Subjuga populações que considera inferiores, sequestra e escraviza mulheres, executa cruelmente aqueles que não são fiéis à sua interpretação fundamentalista da religião.

Isso faz do grupo uma ameça enorme a todos nós que estamos excluídos de seu califado. Daí a necessária empatia com as vítimas de seus atos, seja na França, seja no Quênia, seja em Beirute. Ou mesmo em atos e palavras semelhantes que passeiam por nossas terras.

Pregar a não existência do outro é que define o bárbaro. Não nos faltam exemplos dessa barbárie aqui no país. Esse sentido amplo do conceito é necessário para que exercitemos nossa empatia com as vítimas mudas de várias partes do globo, inclusive do Brasil.

Por isso não há contradição alguma em solidarizar-se concomitantemente às vítimas francesas e mineiras por conta de tragédias diferentes. A Vale do Rio Doce não é bárbara a ponto de pregar o extermínio das populações vizinhas à sua operação. Mas, sem dúvida, participa, pela ganância que caracteriza sua atuação, de um sistema que preconiza a exclusão econômica de milhões de indivíduos.

O capitalismo é a “soft” barbárie, que coloca o lucro como preocupação exclusiva e ignora as consequências de sua obtenção. Tudo muito bem costurado socialmente, repleto de freios e contrapesos que distribuem migalhas como forma de manter a exclusão em um nível “aceitável”. É necessária a empatia aí também.

Empatia essa que não se constrói pela vítima negra da favela, pelo pobre que perde tudo na enxurrada de lama. E, é claro, a mídia contribui decisivamente para isso. É ela quem decide o tamanho da tragédia e faz com que mortos na França sejam mais importantes que mortos em uma universidade do Quênia. Ainda que o agente seja exatamente o mesmo.

A mídia, lembremos, não é bárbara. A palavra apropriada é outra. A mídia é canalha. São coisas distintas e não devem ser confundidas. O que não se deve, de forma alguma, é cair no maniqueísmo provocado pela indignação contra os detentores da informação: não ser solidário aos franceses para ser solidário aos quenianos ou às vítimas da Vale do Rio Doce.

Não podemos cair na disputa exclusivista de que só podemos ser solidários a uns. Este é o anverso da canalhice que estampa as folhas dos jornais! Como culpar o indivíduo que é bombardeado apenas pela mídia tradicional por sua empatia pelas vítimas de um grave – e sim, bárbaro – atentado terrorista?

Não precisamos de menos empatia, ao contrário: necessitamos de mais empatia. Carecemos ser solidários com aqueles que são vítimas da perseguição pela não existência. Quer vítimas do capital, quer vítimas do judiciário – como os companheiros perseguidos há muito em processos kafkianos, que lhe excluem a voz da sociedade ou que lhes mantém presos por porte de desinfetantes –, quer vítimas de grupos terroristas, fundamentalistas ou fascistas.

Não nos fechemos para nossa humanidade. Sejamos civilizados a ponto de ver no outro a necessária existência para nosso mundo. E rechacemos veementemente todo e qualquer pensamento que não permita nossa diversidade. Não façamos nossa própria barbárie para defender aquilo que só nós vemos como civilização.

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Categorias: Política, Reflexões, Sociedade | 1 Comentário

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